Sou viajante de alma e de profissão e, muito mais do que rastrear novos lugares e paisagens exóticas, viajo em busca da essência do ser humano, viajo pelas pessoas. São as gentes que me atraem e me encantam.

O modelo do turismo convencional, comercial, que o mercado oferece, nos priva destas experiências mais profundas. Vendem-nos atrativos consolidados, lugares transformados para o turismo, e nos afastam e isolam das realidades e identidades locais, e consequentemente das pessoas. Por isso, eu mesmo planejo e organizo minhas viagens.

Há anos, eu e Karen temos viajado por diferentes destinos e cultivamos um apreço especial pelo sertão brasileiro. Transitamos por praticamente todos os estados do nordeste e em cada um deles tivemos vivências inesquecíveis, que guardaremos sempre em nossa memória.

Recentemente, voltamos de uma viagem pelo sertão do Cariri, entre a Paraíba e o Ceará, e durante a viagem me lembrei de uma experiência que vivi no agreste pernambucano, na região de Caruaru, há alguns anos.

Recordo que tomamos um ônibus de linha de Recife para Caruaru,  pois queríamos aproveitar o São João, visitar a conhecida feira da região e ir ao Alto do Moura,  distrito onde viveu Mestre Vitalino. Sou um aficionado pela cultura e arte popular e grande admirador do trabalho do Mestre.

Chegamos à cidade ao entardecer e nos hospedamos. À noite fomos ao São João. Maravilhoso! Na manhã seguinte, visitamos a feira  – que é um mercado popular que existe desde o século XVIII -, onde conhecemos um cordelista com o qual conversamos longamente, e depois tomamos uma condução para o Alto do Moura,  lugar bastante simples,  onde logo vimos a força da influência de Mestre Vitalino, pois no portal se lê “O maior centro de artes figurativas da América”, título outorgado pela UNESCO.caruaru_f_010

Vitalino Pereira dos Santos nasceu em 1909 em Ribeira do Campo, cercanias de Caruaru. Sua mãe, Josefa, era lavradora e louceira, isto é, fazia pratos, potes, panelas, travessas e outros artefatos de barro, que vendia na Feira de Caruaru.  O menino brincava com as sobras de argila da mãe e com elas moldava animais como bois e cavalos, que os irmãos levavam para vender na feira.

Com o passar do tempo, Vitalino foi aprimorando sua técnica e transformando a temática de seu trabalho. Passou a retratar cenas e personagens do cotidiano, das tradicionais bandas de pífano a  cangaceiros como Lampião.

Na década de 40, já casado e com filhos, se mudou para o Alto do Moura, onde viveu pelo resto de sua vida. Foi nesta época que as obras do Mestre Vitalino ganharam grande notoriedade na região Sudeste, graças a uma Exposição de Cerâmica Popular Pernambucana, organizada por Augusto Rodrigues no Rio de Janeiro. Logo depois foi convidado para expor no MASP, em São Paulo.

Vitalino virou notícia na imprensa nacional e logo seu trabalho caiu no gosto das elites. Foi a partir daí que a Feira de Caruaru, onde o Mestre vendia suas peças, ficou conhecida nacionalmente e aos poucos se tornou atração turística. Vitalino ganhou o Brasil, e sua arte figurativa passou a influenciar fortemente a arte popular no país, dos discípulos do Alto do Moura às figueiras de Taubaté.

Alguns estudiosos cunharam o termo “vitalinização” da arte popular e figurativa brasileira, revelando a forte influência do trabalho de Mestre Vitalino no cenário nacional.

Bem, eu queria muito conhecer a Casa Museu de Mestre Vitalino, instalada em uma pequena construção de adobe, onde o artista popular viveu com sua família. Rumamos para lá, caminhando pelas ruas simples do povoado e observando ateliês de arte figurativa de artistas locais.

Ao chegarmos à casa fomos recebidos por Severino Vitalino, filho do Mestre e grande artista.  Confesso que fiquei emocionado ao conhecê-lo. Homem pequeno, franzino e simples como o pai, mostrou-se extremamente cordial e logo engrenamos uma longa prosa. Contou-me sobre a história do pai e a sua. Disse que Mestre Vitalino nunca teve a dimensão de sua importância, e ele mesmo prezava pela vida simples e por ficar no Alto do Moura, não gostava de viajar não.

Museu Vitalino/ Mestre Vitalino MuseumFalei de minha profunda admiração pelo trabalho do pai e o dele. Ouvimos com enorme atenção suas histórias e causos. O tempo passou e não percebemos. Ao fim das prosas, disse que queria comprar uma escultura dele. Mostrou-me várias e eu escolhi uma: um sertanejo vestindo chapéu de couro e tocando acordeão. Senti-me muito feliz por conhecê-lo e por poder adquirir uma peça das mãos mágicas que a produziu. Ele mesmo embrulhou a escultura em jornal e colocou dentro de uma sacolinha plástica.

Eu, ainda muito empolgado com o encontro, pedi a ele que tirasse uma foto comigo e com Karen. Ele sorriu e de imediato nos acompanhou até a frente da casa, onde pedimos para uma pessoa fazer nossa foto. Sou muito desastrado, e com a empolgação esta minha característica se acentua ainda mais. Ao colocar a sacola com a peça de Severino no chão, o fiz com força desmedida.

Fizemos a foto e, quando fomos nos despedir, seu Severino disse para antes vermos se a peça não havia quebrado.  Ele mesmo abriu o pacote e, para minha tristeza, o tocador de acordeão estava partido em três pedaços. Fiquei muito desapontado e, em meio à decepção e ao constrangimento, pedi desculpas a ele e disse que não havia problema, pois colaria as partes. Ele respondeu que jamais deixaria que eu levasse uma escultura quebrada. Foi até a prateleira, pegou uma outra imagem muito parecida com a que eu havia comprado, a embrulhou e me entregou.

Disse a ele que não poderia pagar pela nova peça, ele sorriu e respondeu que havia coisas muito mais importantes que o dinheiro.  Que ele se sentia muito honrado com a admiração e carinho que eu tinha pelo trabalho de seu pai e o dele, e que fazia questão que eu aceitasse a escultura intacta. Agradecendo imensamente a prosa, o “presente”, sua hospitalidade e cordialidade, despedimo-nos.

Escrevo esta crônica de viagem mirando o tocador de acordeão de Severino Vitalino e reavivando minhas memórias. Muito possivelmente, seu Severino não se lembra desta passagem, pois recebe muita gente todos os dias na Casa Museu de seu pai, no entanto, nunca mais esquecerei nossa prosa e nem seu ato carinhoso.

Minhas experiências e memórias de viagem mais marcantes são sempre de pessoas e não de lugares.