Este texto inicia uma série de artigos que proporá uma análise crítica do ato de viajar e da indústria do turismo, que o mercantilizou. É preciso que reflitamos sobre a falácia – largamente difundida até em cursos de formação universitária – de que o Turismo é uma indústria sem chaminés, isto é, que não gera impactos negativos, ou de que estes impactos são pequenos. Não, não são.

É muito provável que a maior parte das pessoas que leia este artigo se surpreenda com o termo “indústria do turismo”, e especialmente com a menção de impactos negativos. Afinal, o ato de viajar é associado ao descanso, às férias, ao lazer, atividades que em principio só trariam benefícios às pessoas. No entanto, a “indústria sem chaminés”, no seu modelo de mercado, é ferramenta relevante da globalização, e liberal por essência, pois privatiza os lucros e sociabiliza os prejuízos, culturais, socioeconômicos e ambientais.

Há românticos, ou intelectualmente desonestos, que exaltam o turismo como um fenômeno social e econômico que alavanca dezenas de outras atividades nos setores industrial, comercial e de serviços. Isto é verdade. Contudo, ignoram sua enorme lista de impactos negativos, como especulação imobiliária; sazonalidade; alta do custo de vida para os moradores locais; evasão econômica, quando grandes operadoras de fora exploram os recursos do destino; aumento dos índices de violência e criminalidade; degradação de sítios e patrimônios históricos, culturais e naturais pelo turismo de massa;  perda das identidades locais; importação de mão de obra mais bem remunerada; exploração da população local como mão de obra barata; expulsão da população local de áreas de interesse turístico; aumento na produção de efluentes e possíveis contaminações de solo, rios e mar; aumento da poluição do ar; etc., etc., etc.

E, para cada item desta infindável lista, é possível enumerar dezenas, ou centenas, ou milhares de exemplos no Brasil e no mundo. Todavia, a maior parte das pessoas que viaja não se atenta ou não se preocupa com estas questões, e acaba por contribuir com o círculo vicioso do mercado, que prospecta e explora um destino turístico até sua saturação e degradação, e aí vai para outro lugar, e mais outro, depois outro, deixando um rastro de problemas graves em seu caminho.

Talvez você deva estar se questionando se é parte desta pérfida engrenagem. Quando compra suas viagens em uma grande operadora de turismo, ou numa pequena agência, mas que usa dos mesmos recursos de grandes operadores, você se torna parte deste sórdido sistema. E mais do que assumir o papel de um turista “inconveniente”, arcará com o ônus de comprar um produto de baixa qualidade, que o privará de experiências que deveriam ser relevantes para um viajante.

Mas é importante considerar que o mercado responde à demanda. Isto é, enquanto houver consumidores para seus produtos, continuará a oferecê-los como são.

Para evidenciar como se dão estas relações, tomemos como exemplo os pacotes vendidos por operadoras e agências do sul e sudeste para as principais capitais do nordeste brasileiro. Quando o consumidor compra um pacote, geralmente vem incluso o transporte aéreo, a hospedagem, traslados do aeroporto para hotel e do hotel para o aeroporto, um passeio pela cidade-destino (city tour) e uma saída de barco ou de bugue.

A grande operadora exerce seu poder de “negociação” para impor valores aos meios de hospedagem locais, às agências de receptivo e a outros eventuais parceiros. Estes valores são sempre os mais baixos possíveis, para que possa incrementar seus lucros. Consequentemente, as empresas do destino terão de contratar a mão de obra e serviços locais, remunerando parcamente. Cria-se assim um círculo de exploração, que engloba também o turista.

Geralmente, paga-se em torno de um quinto ou um terço do piso da categoria para um guia de turismo receber os turistas no aeroporto e fazer o passeio pela cidade.  No entanto, se oferece a ele um comissionamento sobre a venda de passeios não inclusos no pacote.

Desta forma, o passeio que deveria ser um momento de fruição, contemplação e aprendizado para o viajante – pois o objetivo do city tour seria proporcionar a vivência, interpretação e compreensão do contexto histórico, social, cultural e econômico da cidade – torna-se um shopping tour, ou seja, é a chance de o guia de turismo vender outros passeios e aumentar seu mísero ganho. Quase nunca há mediação por parte do guia, as poucas informações passadas durante estes passeios são quase sempre pouco relevantes. O importante é vender, pois para a agência de receptivo o bom guia não é o mediador de excelência, aquele que detém o conhecimento técnico de sua função e mas o bom vendedor. O bom guia é o que multiplica os lucros da empresa, ainda que em detrimento da experiência e satisfação do cliente.

O turista é quase o tempo todo “conduzido”, o protagonismo lhe é negado. Vai aos atrativos, restaurantes e lojas a que é levado, e que comissionam agência e guias. Lhe sonegam o direito de se relacionar com moradores locais, artesãos, restaurantes e comércio frequentados pela população da cidade. Só usufrui daquilo que foi turistificado.

Na órbita deste mercado oficial do turismo, brota a informalidade e a clandestinidade. Guias não credenciados, bugueiros, barqueiros, fotógrafos, vendedores de badulaques e souvenires, motoristas de vans, empresas de transportes clandestinos etc. tentam fazer seu ganho – ainda que tacanho – oferecendo seus produtos e serviços, e muitas vezes assediando e explorando o viajante. À margem destes – e algumas vezes os permeando – orbita a grande maioria que é excluída do sistema, inclusive alguns que se inclinam para a prostituição e outros para a criminalidade, lesando, furtando ou assaltando os vulneráveis turistas.

Este modelo de turismo de mercado, insustentável, largamente implementado no país, vem degradando muitos destinos, com prejuízos incomensuráveis para as populações locais, mas em contrapartida gerando lucros para algumas poucas empresas, como as grandes operadoras e redes hoteleiras.  O modelo globalizado, liberal, que privatiza os lucros e sociabiliza os prejuízos.

Em grandes cidades e destinos turísticos consolidados, como Barcelona, Nova Iorque, Berlim, observa-se um movimento crescente contra a entrada de turistas. São moradores locais que não querem arcar com o ônus pesado da turistificação de suas cidades. Sofrem os efeitos da especulação imobiliária, do alto custo de vida, do crescimento da criminalidade e da violência, das hordas de turistas vorazes por consumir lugares disputando espaços na cidade, etc.

É preciso humanizar o turismo. É preciso refletir sobre as mudanças necessárias para um modelo mais sustentável, que priorize o ser humano; que gere recursos e valorize a cultura das comunidades receptoras, bem como a experiência do viajante; que privilegie a preservação do patrimônio natural e não o lucro. Há instituições e organizações que há décadas vêm pensando e discutindo sobre novos caminhos, exemplos são o Serviço Social do Comércio (Sesc), que atua no âmbito nacional, e a OITS (Organização Internacional do Turismo Social), com sede em Bruxelas.

Não obstante, esta transformação passará invariavelmente pela construção de um novo viajante, que seja consciente de suas responsabilidades, que caminhe em direção da utópica sustentabilidade, ainda que nunca a alcance, mas que jamais deixe de caminhar.

Nos próximos artigos, abordarei alguns aspectos relevantes para a construção deste novo viajante, mas desde já posso adiantar que ela passa imprescindivelmente pela formação do cidadão crítico. É isso!

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