O fascista é um sofredor. Sofre por ser quem é: frustrado, recalcado, profundamente ignorante, cruel e hipócrita. Desumaniza o outro – objeto de sua violência – e banaliza o mal. Regojiza-se ao ver o sofrimento que desfere àqueles que não compartilham seus signos.

O fascista nega a existência do outro. Deturpa o grito do oprimido, nomeando-o vitimismo. Evoca de forma corrompida a “democracia” e a “liberdade de expressão” – conceitos que ele verdadeiramente abomina – para garantir seu discurso de ódio e suas atitudes sectárias e vis. Quando criticado ou punido por suas manifestações segregatórias, hostis, opressivas, se vitimiza. Confunde a reação do oprimido com a ação do opressor.

Para o fascista, democracia é o direito do outro de comungar com suas ideias e se manifestar a seu favor, caso contrário, deverá ser condenado ao silêncio, ao ostracismo, ao exílio, à morte.

Na última semana, tivemos duas manifestações claras de fascismo, largamente difundidas nas redes sociais. Uma delas envolveu a médica de família e comunidade Júlia Rocha, profissional que honra a medicina, manifestou solidariedade ao paciente exposto nas redes sociais por um jovem médico, por usar termos considerados errados como “peleümonia”e “raôxis”.

Milton Pires, um médico da prefeitura de Porto Alegre, publicou diversos posts agredindo Júlia violentamente, chamando-a de “entidade”, “aberração”, “bandida”, e “petista”- termo utilizado por ele como xingamento, em manifestações evidentes de racismo, misoginia e ódio. Milton exala cólera pelos poros. É fascista até a medula. No entanto, mostrou-se enfurecido quando confrontado com esta característica de sua personalidade. O fascista não aceita ser nomeado como tal.

Um outro caso foi o da atriz  Letícia Sabatella, que caminhava por uma praça de Curitiba e se aproximou de uma manifestação pró-impeachment. Foi reconhecida e assediada por alguns manifestantes que a “xingaram” de comunista e petista – a ignorância figadal é um traço do caráter do fascista. Gustavo Pereira Abagge, filho do banqueiro Nicolau Abagge, envolvido no escândalo de corrupção do Banestado, gritava “Puta, você é puta!”, desvelando clara misoginia. Não fosse a presença policial, provavelmente Letícia seria agredida. O fascista nega a existência daqueles que pensam diferente dele.

Fala-se sobre o crescimento do fascismo no país e no mundo, por manifestações como estas terem se tornado frequentes nos últimos anos. Contudo, enxergo por outra perspectiva: não acredito que fascistas estejam avançando numericamente, mas apenas se revelando. Estes que ostentam discursos de ódio e atitudes sectárias e agressivas já existiam antes, mas estavam embiocados, acaçapados, ocultos na carapaça inviolável de seus privilégios.

Todavia, as correntes conquistas de minorias – por intermédio de leis, programas sociais ou vitórias pessoais – têm invadido a zona de conforto e colocando em risco privilégios, e algumas pessoas reagem com violência, fúria, ódio. Estes são os fascistas.

São fascistas os que bradam por um golpe ou intervenção militar. Intrínsecos a esta reivindicação estão os desejos de prisões, tortura e morte daqueles que professam ideologias antagônicas ou distintas.

O fascista é um sofredor. Sofre por ser quem é: frustrado, recalcado, profundamente ignorante, cruel e hipócrita. No entanto, seu sectarismo, ira e agressividade fazem outras pessoas sofrerem, especialmente os que não têm o hábito de degustar o ódio. Mas o fascista sofre, pois a primeira boca a sentir o amargor do fel é a de quem o destila.

Para saber mais:

Bobbio, Norberto. Do Fascismo À Democracia – Os Regimes , as Ideologias , os Personagens e as Culturas Políticas. Editora: Elsevier – Campus

Paxton, Robert. Anatomia do fascismo. São Paulo: Paz e Terra.

Arendt, Hannah; Eichmman em Jerusalém: Um relato sobre a banalidade do mal. Tradução: José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras