No governo Vargas, o trovador Rodolfo Coelho Cavalcante foi até o Palácio do Catete convidar o presidente para um congresso nacional que reivindicava direitos. “Se existe jornalista da imprensa escrita e falada, por que não pode haver jornalista poético? Se o povo da cidade aprecia as notícias em prosa, os nossos sertanejos preferem os versos”, defendia Rodolfo em um programa de rádio, que era o principal veículo de comunicação no país.

Grande parte dos trovadores levava notícias aonde a rádio não chegava, muito menos jornal e revista. A TV estava chegando ao país. Mais de três mil pais de família no Nordeste viviam exclusivamente do trabalho de escrever e vender versos. Em média, 1.500 folhetos eram publicados toda semana. Seis milhões de unidades anuais.

O cordel chegou até a contribuir para a alfabetização no país. Mais de dois milhões de nordestinos liam folhetos nos anos 50, segundo o pesquisador Eno Teodoro Wanke, que escreveu um livro biográfico sobre Rodolfo Cavalcante, depois que a vida e obra deste trovador foi tese de mestrado na Sorbonne e estudada em universidade norte-americana e italiana.

Como a maior parte dos veículos de comunicação, este jornalismo poético seguiu um caminho publicitário.  Políticos encomendavam folhetos que eram lidos com a teatralização da alegria ou dramaticidade. Se o conteúdo desagrava autoridades, a polícia impedia a apresentação em praças e até prendia.

Era comum um trovador apresentar folhetos com diferentes mensagens religiosas: católicas, espíritas, umbandistas. Sempre respeitosos à diversidade da fé e bem diferentes do radicalismo e ódio dos atuais políticos evangelizadores. O ódio naquele tempo era outro. Faz de conta que políticos e a imprensa conseguiam matar pessoas apenas com o poder moralizador e opressor da palavra. O fato é que a morte de Getúlio Vargas gerou mais de dois milhões de folhetos, divididos em uns 60 títulos. O povo ficou órfão de país.

Com o tempo, o cordel se tornou mais literário, educativo e ganhou status acadêmico. O Brasil, ainda mais depois da força da TV, não ia permitir um jornalismo poético praticado pelo povo. É tão ofensivo quanto um presidente da República de origem operária. Do cordel ao face, as redes sociais se tornaram uma potência de comunicação de massa, mas não a ponto de impedir que a grande imprensa adotasse um jornalismo publicitário focado em homicídios políticos, já que Lula e Dilma não se suicidaram ou saíram de cena ao estilo de Getúlio Vargas.

Ao mesmo tempo em que políticos com grande histórico de corrupção colocam o Brasil à venda, uma imprensa parceira ofereceu entretenimento e esperança com a telenovela “Eta Mundo Bão”, com sua mensagem otimista:  “Tudo que acontece de ruim é para melhorar.” Outra novela resgatou recentemente o idealismo de Tiradentes, em nome da “Liberdade, Liberdade”, exatamente num momento em que está havendo cada vez menos liberdade.

O Brasil já foi morto várias vezes e teve poucas ressurreições. A cada retrocesso, milhões de órfãos ficam à deriva. Alguns morrem, mesmo que seja na ficção. Depois do anúncio do confisco da poupança no governo Collor, uma personagem do filme “Terra Estrangeira” enfartou e morreu. Foi uma produção dirigida por Walter Salles, detentor da 17ª maior fortuna do Brasil e posicionado como o 440º bilionáriono mundo, segundo a revista Forbes. Curiosamente, Salles é um porta-voz de órfãos brasileiros, como ficou evidenciado em “Central do Brasil”. Ele também dirigiu “Diários de Motocicleta”, sobre a vida do guerrilheiro marxista Che Guevara. Ninguém chamou este bilionário de comunista.

Órfãos do Brasil já saíram às ruas para exigir “Diretas Já”. Nos tempos em que Rodolfo fazia jornalismo poético, o esperançoso folheto “Getúlio vai voltar” vendeu 65 mil exemplares. Um recorde para a época e pequeno número em relação aos milhares de seguidores em páginas do facebook e milhões de visualizações no YouTube. Aumentou a conscientização individual e coletiva. No entanto, a maioria da população brasileira está novamente órfã de país. Órfãos que fazem revolução dentro de casa, no face. Ainda não se sabe onde isso vai dar.