No último fim de semana, estava em um ponto de ônibus, numa avenida movimentada em Belo Horizonte. Era sábado à noite e no ponto éramos mais ou menos seis pessoas. Lembro-me de duas senhoras, dois jovens, eu e uma outra pessoa. Sei que o ônibus estava demorando muito.

Eu sentia o medo que as duas senhoras estavam dos dois jovens, que estavam como os nossos jovens urbanos contemporâneos andam: usavam boné, calça estilo skate, camisa folgada e correntinha no pescoço. Estavam “à pampa”, tranquilos, fazendo seus planos para a balada. Estavam brincando um com o outro, enquanto as duas senhoras estavam, aparentemente, em pânico. Foi quando uma delas chegou bem perto de mim e disse:

– Moço, tudo bem?

– Tudo.

– Você não está com medo?

– Medo de quê?

– Desses dois aí. Desses delinquentes.

– Que delinquentes, minha senhora?

– Desses assassinos. Você não vê o Datena?

– Datena!?

– Sim, o Datena.

– Não, eu não vejo o Datena, senhora.

– Deixa a gente ficar perto de você. Pode?

– Tudo bem, minha senhora. Mas, os meninos não vão fazer nada. Eles estão querendo se divertir, namorar, vão pra balada.

– O senhor é que pensa. Eles vão nos roubar.

– Fique tranquila, minha senhora.

De repente, como em um conto de Machado de Assis, para um carrão, último tipo, parecia novinho em folha. E desce um carinha, estilo galã de novela das oito, gritando:

– Perdeu, perdeu, perdeu. Todo mundo quieto, passando o celular, dinheiro, relógio.

O carinha branquinho e boa pinta fez a limpa na gente! Pura ironia do destino. Nem o genial Nelson Rodrigues escreveria um conto desses. Foi aquele pânico, aquele susto. As duas senhoras não paravam de chorar. O bandido galã levara tudo de todos nós. Elas não sabiam o número de nenhum telefone. Estava tudo no celular! Aliás, hoje em dia ninguém sabe mais número de telefone ‘de cabeça’.

Chamamos a polícia, que não serviu pra quase nada. Fez um B.O estilo Kao. Se fosse uma manifestação, com certeza, a polícia teria sido mais ‘enérgica’.

Enfim, depois de um tempo, a mãe de um dos jovens de quem as senhoras estavam com medo chegou ao local. Foi muito solicita conosco, ofereceu-nos dinheiro para o ônibus e carona para as duas senhoras.

Eu, com aquele olhar de Capitu e sorriso estilo Monalisa,  as vi dentro do carro com jeito de Madalenas arrependidas com os dois meninos, que meia hora atrás eram bandidos, delinquentes…

E eu fiquei ali, à espera do ônibus, pensando em como a vida nos ensina. E veio logo à mente aquele velho ditado: “Deus escreve certo por linhas tortas”.

Neste último fim de semana, aquelas senhoras tiveram uma bela lição de vida. Espero que tenham aprendido a não julgar as pessoas pelo estereótipo que os ‘Datenas’ pregam, cotidianamente, em nome da audiência. Vou rezar uma Ave Maria do Morro!!!!