Logo cedo subimos infinitas escadarias, becos e vielas. Fomos encontrá-la. Fôlego curto, coração acelerado, gatos, cachorros e mais degraus. Chegamos.

“Licença. Com licença. Oi, desculpe a demora. Viemos declarar o óbito da Dona Lindinha.”

“Podem entrar. Por aqui.”

O neto sentado na cabeceira, o gatinho de estimação aquecendo seus pés, alguns em oração silenciosa.

“Ela quis muito vir pra casa. Queria estar com a família.”

“Que bom que vocês puderam trazê-la.”

“Ontem ela me chamou. Pediu pra eu segurar a mão dela e disse: filho, estou partindo. Fique bem com toda a nossa família. Tem 2 anjos aqui no quarto. Você vê? Um aqui e o outro lá perto da geladeira. Eles vieram me levar.”

“Que coisa bonita!”

“Eu acredito no céu, né. Acho que ela já está lá… Doutora, vocês aceitam café?”

“Não se preocupe. Está com os documentos?”

… papéis preenchidos.

“Meus sinceros sentimentos. Não deve ser fácil, apesar das circunstâncias da doença e do sofrimento que ela vinha vivendo. Podem contar com a gente para o que for preciso.”

“Muito obrigada pela atenção de vocês. Subir aqui não é fácil. Estamos muito agradecidos.”

“Não precisa agradecer. É a nossa obrigação. Fazemos com carinho.”

Descendo as escadas, trabalhadores, crianças indo para a escola, ambulantes vendendo vassouras e um moço bonitão, negro, forte, sorridente: “Aí, doutora, esse seu amigo aí (o residente) não aguenta essas escadas, não. Tem que subir todo dia pra ficar fininho.”

“Você tá de brincadeira, né. Ele tá super em forma! Dá uma olhada na respiração dele.”

E rimos, nos despedimos e seguimos.

É A VIDA…