“Tire suas mãos de mim

Que eu não pertenço a você

Não é me dominando assim

Que você vai me entender

Eu posso estar sozinho

Mas eu sei muito bem onde estou

Você pode até duvidar

Acho que isso não é amor.”

Assim Renato Russo descreve em Será uma ácida critica ao autoritarismo da época. Em fins da década de 80, ocorre a consolidação do rock brazuca, com arranjos criativos e letras inteligentes em português, cantando o cotidiano político, social e cultural do Brasil.

Verdade seja dita, em sua grande maioria, quem consumia rock era um público branco, classe média e universitário, assim como quem cantava. Mas de maneira alguma isso impediu que o rock fosse uma música de massa no Brasil. Porém, em longo prazo, estas características impediram a expansão do rock.

Semana passada, o Roberto Frejat, líder do Barão Vermelho, em entrevista à Folha de São Paulo, afirmou que o rock brazuca perdeu espaço político para o hip-hop. Acredito que o rock perdeu espaço foi pra todo mundo. O rock ficou no seu mundo mesquinho dos enlatados, nas casas de shows dos bairros abastados, principalmente no eixo sul-sudeste do país. Bem ao estilo branco, classe média e universitário. E pra piorar a situação, depois da década de 90, o que foi lançado como rock não correspondia aos fatos. Eram apenas bandas de boyzinhos cantando letras sem conteúdo, sem pegada, sem riffs de guitarra, sem letras contestatórias. E assim o rock foi parar na UTI. E, pra sair de lá, vai dar trabalho.

Aquela veia com atitudes contestatórias, de tocar em cima de caminhão e reunir a moçada, isso acabou faz tempo. Lembro  ter visto vídeos de bandas como os Paralamas tocando em lugares abertos e em cima de caminhão. A Legião também cansou de fazer isso.

Essa era uma época em que as bandas se preocupavam em falar algo nas suas letras. Ha dezenas de exemplos, como a Plebe Rude, uma das melhores bandas do Brasil, que em um clássico do rock nacional nos brinda com esta pérola:

“Com tanta riqueza por aí, onde é que está

Cadê sua fração

Com tanta riqueza por aí, onde é que está

Cadê sua fração

Até quando esperar?”

E o rock da Plebe questiona a desigualdade no Brasil. Joga na cara um de nossos maiores problemas, sem sombra de dúvida.  Cazuza também foi um poeta inesquecível do rock brazuca. Ele compôs várias pérolas, como: “Brasil, mostra a sua cara, quero ver quem paga pra gente fica assim.” “Suas ideias não correspondem aos fatos. “Dá pra lembrar esse governo golpista na boa. E o Grande Humberto Gessinger. Esse nadou contra as correntes. Vinha do sul e estava longe demais das capitais. Dizia ele numa de suas músicas: “Eu presto atenção no que eles dizem… Mas eles não dizem nada. “E os Paralamas? Minha banda predileta. Os Paralamas têm tudo que uma banda pode ter: Um líder fantástico e carismático.  Que toca uma guitarra como ninguém e ainda faz letras antológicas. Letras que vão desde o amor romântico a críticas ácidas ao Brasil e ao mundo. Poderia citar várias. Ficarei com Alagados, Lanterna dos afogados, Selvagem, Meu erro, Dois Elefantes, Óculos, Vital e sua moto, Carro Velho, Perplexo, entre várias. Sem contar com a cozinha maravilha do Barone e Bi Ribeiro. Pessoal , antes que alguém me bata ou reclame. Sim. Estou deixando de falar de um monte de bandas. Ira , Barão , Titãs……

Prometo falar em outras crônicas.

Mas, o maior fenômeno do rock brasileiro chama-se Legião Urbana. Na minha opinião, o Legião é uma religião, pois é inexplicável a paixão que as pessoas têm pela banda. Gente de 0 a 100 anos, de todas as cores, credos e classe social, gente bacana, gente perversa, hipocondríaca… todos amam o Legião.

Alem da genialidade do Renato Russo, grande poeta, sua formação trazia toda a representatividade do povo brasileiro. É só a gente dar uma olhada nas suas letras.

Espero que o rock brazuca volte a figurar no inconsciente do povo brasileiro. A criar letras que incomodem, que questionem o status quo. Que surjam novos Gessingers, Herberts Viannas, Cazuzas, Renatos Russos e tantos outros. Principalmente nesses tempos sombrios de Moro e de Temer, tempos que trazem à memória o AI-5.

É preciso amar as pessoas como se não houvesse o amanhã…