quando eu existi menino, não tinha pra Batman, Super-Homem, Homem-Aranha, Homem de Ferro, Hulk, Thor e outros herois que a Marvel e a DC Comics endeusavam em gibis e desenhos animados.

na minha cachola, podia juntar todos, e seus super poderes, que, sozinho, Zandor, o líder d’Os Herculóides [cuja identidade secreta, claro, era eu] quebrava todos na bolacha, ainda punha pra correr dando umas pedradas em suas bundas com seu bodoque.

só em casos especiais, de invasores do planeta Quasar, eu – digo, Zandor – precisava do auxílio da rapaziada: Tara, minha – digo, dele – esposa, o fiote Dorno, Iggo, o gorilão de pedra, o rinoceronte-canhão Tundro, o Terrível, o dragão Zok e aquelas melecas gigantes, Gloop e Gleep.

quando a família se mudou de São Paulo pra Três Pontas, ao sul das Gerais, eu fui à Venda do Major e comprei [fiado, anotando na caderneta de Dona Filhinha, minha vó materna] meu primeiro bodoque.

com ele, derrotei centenas de dúzias de muros alienígenas, bananeiras carnívoras, pedras espaciais caídas na Terra para envenenar o planeta e bambus assassinos.

mas meu heroísmo teve um fim trágico.

dia lá, pulei na horta da vizinha de vovó para combater dragões.
avistei um bem grande e, silenciosa e cuidadosamente, me movi até o ponto em que o alvejaria com mais precisão.
saquei o bodoque do bolso de trás dos shorts, peguei a pedra “atômica” que levara no bolso da frente, armei, mirei, disparei.
o tiro foi certeiro, o bicho já caiu morto.

quando me aproximei, a fantasia deu lugar ao pesadelo.
neca de dragão, lógico, era um sabiá bem lindo, que eu, apresentado à minha consciência pela primeira vez, me dei conta, segundos antes, podia voar, cantar, não ameaçava ninguém, exceto alguns suculentos insetos, e eu espatifara sua cabecinha com uma pedra.

algo em mim morreu ali, junto com ele.
pra sempre.

troquei de heroi, tornando-me Zorro.
capa e máscaras pretas improvisadas, calçando luvas de borracha e botinas de roça, montado em meu cavalo de piaçava, espada de plástico e chicote de barbante às mãos, enfrentei pelotões comandados pelo sargento Garcia.
venci todos, matei nenhum.
no máximo, deixava em suas fardas uns risquinhos formando Z.

de alguma forma, apenas acrescentando uma vogal com chapéu ao Z, é o que tento continuar a fazer aqui, misturando diversão com combate ao crime.
se um dia eu matar esse menino que encerro em mim, passarei recibo de nada ter aprendido com aquele sabiá.