Foi uma senhora derrota. Sem ganhos. O PSOL tem que cair na real. Ele perdeu sua maior oportunidade até aqui. Era uma eleição relativamente fácil. Ele estava disputando contra a Igreja Universal do Reino de Deus. Até a Globo o apoiava. Mas conseguiram perder. Companheiros, convenhamos: é muita incompetência eleitoral.

Fiz campanha para Freixo nos dois turnos. Acho sinceramente impossível não admirar um homem de sua coragem e coerência. Mas ele conseguiu perder uma eleição no Rio para um bispo da Universal. Sobrinho de Edir Macedo. Como?

Não acompanhei integralmente a campanha, tenho uma opinião limitada. Mas todas as opiniões são limitadas. Vi alguns de seus programas de TV. Um autismo incrível. Feito por uerjianos para uerjianos, para agradar às mil tendências e movimentos identitários do PSOL. Cheguei a me indignar com tanta irresponsabilidade. Não foi para agradar aos militantes do PSOL que deixei de votar na Jandira. Foi para tentar seriamente vencer a eleição.

E esse slogan? Que coisa autoritária absurda foi essa? É o pior slogan que eu já vi, sinceramente, é pior que o “bote fé no velhinho” do Ulysses. Como é que alguém fala para o eleitor evangélico, católico, direitista, indefinido que quer conquistar que “vai ser desse jeito”? Do jeito de quem? Ninguém conseguiu encontrar outra frase para rimar com “Freixo prefeito”?

O carioca queria prioridade para a saúde e o fim das OSs, passou quarenta anos sonhando com alguém que fosse acabar com o domínio da FETRANSPOR e, quando essa pessoa finalmente aparece, não massifica isso numa linguagem simples? Não apresenta propostas de um futuro melhor em linguagem simples?

Ao invés disso, o que deixa claro? Que vai tirar a gatonet da favela para a Globo? Que vai aumentar o IPTU? Que vai tirar o carnaval das escolas de samba?

Em que momento o PSOL vai aceitar a desgraça eleitoral que os movimentos identitários plantam para eles? Que noventa por cento da população não quer discussão de gênero com crianças? Não quer. Esta batalha nesse momento está completamente perdida. Sustentar isso é cuspir arrogantemente nos valores da população. Quem só se interessa por essa pauta, no meio de tantas outras desgraças de nosso povo, que encare o trabalho político de mudança de valores culturais que leva décadas. Eleição majoritária não é lugar para dar murro em ponta de faca. É lugar de construir a maioria possível para realizar o possível nos próximos quatro anos.

Porque a miséria, a infância carente, não pode esperar a revolução. Muito menos a revolução sexual.

Claro que a campanha melhorou na reta final, que houve autocrítica.

Claro que o desastre pelo qual a esquerda passa no momento, parte culpa do PT, parte culpa da elite golpista brasileira, atrapalhou Freixo.

Mas essa derrota foi do PSOL, não foi do PT.

A minguada do PSOL no Rio foi evidente. Em 2012, Freixo teve 28% no primeiro turno. Contra a Globo, o PT, o PDT, o PCdoB. Nesta eleição ele minguou para 16%. E isso com votos de toda esquerda não psolista, inclusive o meu: brizolistas, comunistas, morenistas, petistas, lulistas e congêneres.O PSOL e seu sectarismo já tinham conseguido perder as eleições a uma semana do primeiro turno. Freixo só conseguiu chegar ao segundo por causa da generosidade do eleitorado tradicional do PT, PDT e até do PCdoB. Mas isso estava longe de ser o suficiente.

É ilusão dizer que os 40% dos votos do Rio no segundo turno representam um crescimento. Olhando em termos absolutos, Freixo conseguiu 1.163.662 votos no segundo turno desse ano. No primeiro turno de 2012, 914.082. Duzentos e cinquenta mil votos a mais contra a Universal num segundo turno de uma cidade de quase cinco milhões de eleitores, ainda mais sabendo a quantidade de globetes que votaram em Freixo com um pregador no nariz, é um resultado pífio.

E sim, parece que a retomada da luta de classes que alguns setores do PSOL propagandeiam teria que ter começado pela zona sul do Rio. Ao contrário dos desmentidos psolistas, os números são claros: Freixo só ganhou as eleições em bairros da elite carioca. Nos redutos populares que garantiram outrora as vitórias petistas no Rio, a derrota foi acachapante.

O PSOL tinha como meta principal assumir o comando da esquerda numa campanha que seria o começo da superação do projeto conciliador lulista. Mas o projeto de esquerda que Freixo construiu em 2012 para o Rio saiu menor de 2016. Ao invés de assumir a liderança da esquerda nacional, o PSOL perdeu, certamente, a liderança da esquerda carioca, marquem minhas palavras.

Perdeu pela arrogância, autismo, sectarismo e autoritarismo maldisfarçado com que conduz suas relações com outras forças políticas e com as forças sociais vivas nas comunidades mais pobres. Seu discurso de respeito à diferença só tem servido para os iguais. Ainda incapaz de aceitar a democracia como ela é, o PSOL sucumbiu novamente a um udenismo carioca típico de negação da política, satanização de alianças, denuncismo em tabela com a Veja e a Globo e falou pouco e nada claro sobre esperança, sobre como melhorar o dia a dia da população.

Agora companheiros, segurem essa, vai ser desse jeito: Macedão prefeito.

Falo como aliado, não como adversário: é bom o PSOL acordar para o tamanho do desastre que foi sua estreia como condutor da esquerda no Rio. O Rio não é a UERJ nem o IFCS. Muito menos o Brasil.

Ao contrário de muitos companheiros de esquerda, não tenho qualquer ressentimento do PSOL, só gratidão pela grandeza com a qual enfrentaram o golpe de estado no Brasil apesar do PT. Acredito em seu futuro como o partido que congregará uma nova frente de esquerda no Brasil.

Mas realmente espero que o PSOL supere sua vocação maldisfarçada para ser a nova “esquerda que a direita gosta” de que falava Brizola. A esquerda autorizada e louvada na Globo, que escreve artigos na Folha, porque não fala o que deve ser dito e não faz o que deve ser feito para chegar ao poder. Aquela que troca a melhoria nas condições de vida do povo hoje pela reforma cultural completa que permitirá governar eticamente num futuro que nunca chega. Espero porque o Brasil precisa do PSOL. E não é desse aí.