Eugênio Barbosa, o Barbosinha, era juiz de futebol. Mas Barbosinha não era apenas juiz de futebol, ele era um juiz de futebol honesto.

– Sou honesto! Honestíssimo! – gostava de afirmar repetidamente.

Sua honestidade era reconhecida por todos, dos campos de várzea aos clássicos de time grande. A incorruptibilidade de Barbosinha era algo inquestionável.

Porém, apesar desta fama, sempre existiram aqueles que tentaram dobrar a moral rígida de Barbosinha. Quantas malas pretas, viagens, caixas de cerveja, bois inteiros e mulheres lhe foram oferecidas, para que ele não visse um impedimento, expulsasse um jogador ou inventasse um pênalti? Quantas tentativas para comprar Barbosinha. Todas elas em vão. Barbosinha era honesto.

– Honestíssimo!

Porém, eis que um dia esta fama caiu por terra.

Barbosinha foi apitar um jogo em uma cidade do interior. Um dos patronos do time local, desesperado para salvar seu time que lutava contra o rebaixamento, vai até o hotel onde estava Barbosinha e lhe faz uma proposta:

– Um milhão pra salvar meu time!

Barbosinha, sabendo que para o juiz de futebol, assim como para a mulher de César, não basta ser honesto, tem que parecer honesto, expulsa o corruptor aos berros:

– Sou honesto! Honestíssimo!

Um repórter de uma rádio local fica sabendo da história e, mesmo sabendo que a tentativa de comprar o Barbosinha não deu em nada, resolve tentar uma última cartada. Ele começa a propagar  alto e bom som que, ao contrário do que muitos pensam, Barbosinha não é mais honesto que ninguém. Toda aquela pose de honesto, honestíssimo, não passa de cena pra enganar todo mundo. Longe disso, Barbosinha é um tremendo de um juiz ladrão, e diz pra ninguém se preocupar que já está tudo “acertado” com ele, o time local vai ganhar.

A “notícia” veiculada na rádio alvoroçou os torcedores e irritou Barbosinha. Os torcedores, pois, viam a vitória garantida e Barbosinha por ver sua honra questionada.

– Sou honesto! Honestíssimo!

Chegou o dia do jogo. A torcida não perdoava Barbosinha e o aclamava como um messias salvador.

Barbosinha repetia para si próprio:

– Sou honesto! Honestíssimo!

Ele estava transtornado, a simples ideia de que alguém poderia duvidar de seus princípios o perturbava mais do que qualquer coisa. Ele sentia a necessidade de provar para todos e para ele mesmo a sua honestidade. Ninguém jamais poderia duvidar de que ele era, provavelmente, o juiz mais honesto de todos. E ele iria provar isso.

Começa a partida. Barbosinha definitivamente não está bem, a falsa acusação de que foi alvo afetou de alguma maneira seu raciocínio. Inverte laterais, não percebe faltas, bate boca com jogadores. Enfim, uma lástima de arbitragem.

Quarenta minutos do segundo tempo, um jogador do time local cai na área. Barbosinha enxerga um pênalti inexistente. Os jogadores cercam o juiz e protestam. Ele está irredutível.

– Tenho convicção! Foi pênalti! – o pior é que ele tinha convicção mesmo.

Bola na marca da cal. Gol! Acréscimos, fim de jogo. Vitória do time local, que se salva do rebaixamento.

Barbosinha é questionado pelos repórteres na saída do campo sobre o lance que decidiu a partida. Ele reafirma:

– Sou honesto! Honestíssimo! E foi pênalti!

Mesas redondas pós-jogo repetem à exaustão o lance e todos concordam que não foi pênalti. Barbosinha revê o lance e também percebe que errou feio. A percepção de seu erro o desespera, pois sabe que  por conta disso, somado ao boato espalhado pela rádio do interior, a sua reputação até então inquestionável começa a ser posta em dúvida.

Manchetes nos jornais e site de notícias, memes nas redes sociais, todos discutem o pênalti marcado por Barbosinha: ele errou ou errou porque quis?

Desesperado, Barbosinha não suporta a pressão. Sua honestidade inquestionável era tudo aquilo de que ele mais tinha orgulho. Ele adorava repetir:

– Sou honesto! Honestíssimo.

Percebe que toda aquela honestidade não lhe havia servido de nada. Todo esforço em ser e parecer honesto, para nada. Tudo em vão. Todos agora lhe apontavam os dedos e o acusavam:

– Ladrão!

Barbosinha pediu desculpas, reconheceu o erro em entrevista na televisão. Mas nada adiantou. Era todo mundo dizendo:

– Ladrão!

Barbosinha abandonou o ofício de juiz de futebol. Concluiu que, para ser juiz, só ser honesto não é o suficiente. Talvez se ele fosse um pouco menos honesto e aceitasse uns subornos de vez em quando, ou não se ofendesse tanto quando lhe ofereciam subornos, talvez assim ele conseguisse ser um juiz de futebol. Mas ele não conseguia, afinal ele era:

– Honesto! Honestíssimo!