Amargurado com o ostracismo, o poder corruptor do PMDB e os rumos econômicos suicidas de Dilma, Ciro Gomes tinha se recolhido da vida pública e parecia destinado a ser um ex-político rabugento e curioso.

Mas o golpe dos cleptocratas no Brasil mexeu com seu senso de dever e o tirou da toca mais uma vez, fazendo-o voltar a fazer o que faz de melhor: falar tudo e lutar sozinho.

E de repente parecia que o Brasil finalmente estava pronto para Ciro. As pessoas queriam ouvi-lo, não aguentavam mais os nossos políticos hipócritas, boçais e pusilânimes.

Ciro despertou de um longo pesadelo e farejou a verdadeira oportunidade de sua vida de se tornar presidente.

Honesto, competente e brilhante, passou a nadar de braçadas num mar de políticos chafurdados na corrupção, incompetência e mediocridade e a ocupar rapidamente espaço numa esquerda prostrada em comodismo e covardia.

O casamento com um PDT também enfraquecido foi perfeito. Herdou, como último candidato a presidente apoiado por Brizola, a onda recente de nostalgia do grande líder brasileiro. A defesa do estado do bem-estar, do nacionalismo e do casamento capital-trabalho compartilhada por ambos criou uma sinergia que começou a atrair de volta todo o campo nacionalista e desenvolvimentista brasileiro.

Há um único e grande nó em seu caminho, e não é o PT, é Lula.

O único líder de massas brasileiro já ressurgiu como eterna fênix e está sendo empurrado pelos processos e por um PT desesperado a uma nova candidatura à presidência.

Ciro sabe que não chegaria a um segundo turno concorrendo com Lula.

Sabe também que o PT pressiona por uma candidatura própria mesmo para perder, por necessidade de defender seu legado.

Mas Ciro não pode defender todo o legado do PT, não só porque não é responsável por ele, mas também porque isso arruinaria sua candidatura à presidência.

Lula já entendeu que isso é bom pra ele: ser a única alternativa da esquerda não é nada bom para sua saúde. Além disso, Ciro pode trazer de volta para o campo popular votos que se tornaram antipetistas. Só o PT, hegemonista, não entendeu, entenderá ou aceitará isso.

Então essa é a sinuca de bico de Ciro hoje: ele tem que ganhar o apoio de Lula sem herdar a rejeição ao PT.

Ele tem três possibilidades pela frente para tentar isso.

A primeira é se tornar vice de Lula e aguardar sua renúncia à candidatura ou sua condenação pela burguesia. Diante disso, sua condição de candidato do campo popular seria incontestável. Se nessa condição o PT o traísse e lançasse candidato, seria o cenário ideal de descolamento da rejeição ao partido.

A segunda é se eleger vice de Lula e esperar 2022 recuperando a economia como ministro da fazenda.

A terceira é concorrer contra Lula e se tornar o eleitor mais importante do segundo turno, se firmando como uma alternativa para o país.

Qualquer que seja sua opção, para o bem de Lula, dele e do país, não resta a Ciro qualquer outra alternativa do que continuar candidatíssimo, acumulando forças até abril de 2018, falando o que ninguém tem coragem de falar nesse país.

Porque não importa como Ciro esteja amanhã, vice ou candidato, ele está em rumo inexorável à presidência da república.