Esta semana não publicarei textos ou fotografias em minha coluna da Língua de Trapo.

Dessa vez o buraco é mais embaixo, pois trago aos amigos leitores um verdadeiro presente: uma entrevista com o renomado Caique Botkay.

E para os poucos que não o conhecem, vejam que currículo invejável:

Carlos Henrique de Sorocaba Botkay é carioca e tem 65 anos. Diretor musical, ator, escritor e compositor, formou-se em musicoterapia pelo Conservatório Nacional de Música, em 1975. A partir daí inicia uma intensa carreira. Participa de experiências inovadores no teatro e pesquisa sobre a musicalidade no palco, procurando fazer com que ela nasça da própria interpretação e do jogo dos atores.

Em 1979, recebe o Prêmio Molière pelo conjunto de trabalhos. Integra duas montagens do grupo Pessoal do Cabaré: “Cabaré Valentin” de 1980, e “Poleiro dos Anjos” de 1981, recebendo por esses espetáculos o Prêmio Mambembe de melhor direção musical.

Com o grupo Bloco da Palhoça vai para a França.

 Compõe a música das primeiras criações para público adulto da diretora Bia Lessa, com quem realiza quatro espetáculos: “Ensaio nº 1 – A Tragédia Brasileira”, de Sergio Sant’Anna em 1984; “Ensaio nº 2 – O Pintor”, de Lygia Bojunga, em 1985; “Ensaio nº 3 – Idéias e Repetições”, diversos autores em 1986; “Ensaio nº 4 – Os Possessos”, de Dostoievski e também “Exercício nº 1” em 1987. Ainda na década de 1980 alterna aulas em diversos institutos de formação de autores com o trabalho de assessor da direção do Centro de Estudos Nacional de Artes Cênicas, vinculado ao Instituto Nacional de Artes Cênicas, atual Funarte.

Nos anos 1990, dirige o Instituto de Arte e Cultura da Universidade Gama Filho, na qual organiza o Fórum de Folclore e Cultura Popular e a Escola de Luteria, para a construção de violão, de bandolim e de cavaquinho, além de ser membro efetivo do Conselho Estadual de Cultura do Rio de Janeiro, órgão consultivo ligado à Secretaria de Cultura do Estado. Foi membro da Equipe Central de Cultura dos CIEPS de Darcy Ribeiro, sob a chefia de Cecilia Conde.

Caíque Botkay, Letícia Spiller, Silvio Tendler, Chico Diaz e Rose La Creta debatem após a sessão de “Utopia e Barbárie”.

 Em 2000, ganha o primeiro de seus três prêmios Shell de melhor música por “Ai, Ai Brasil”, de Clovis Levi e Sergio Britto, com direção de Sergio Britto.

E não para. Em 2002 escreve o livro “Achados”, onde retrata experiências pessoais de vida e carreira de forma lírica e tocante.

Atualmente continua ativo na música, teatro e na vida.

Confesso que foi um grande desafio entrevistar uma mente tão eclética, uma personalidade tão eclética, um homem tão brilhante.

Revista LT: Caique, antes de mais nada gostaria de te agradecer por aceitar o convite de conversar com a revista Língua de Trapo. E como não sou jornalista já peço seu perdão antecipadamente, em especial se a entrevista ficar com jeito e cheiro de bate-papo de boteco; sua tão ilustre presença e o momento tão turbulento pelo qual passa o país me obrigam a abordar diversos temas!

Comecemos pela música: como você vê – e escuta – o atual cenário musical no país? Você é partidário da visão de que faltam novos talentos? Ou entende que falta é oportunidade para a moçada boa de música?

Caique: Respondo como ouvinte, uma vez que toda minha produção está voltada para a música cênica: teatro, dança, ópera, cinema.

Há muitos anos que a música popular vem sendo descaracterizada pela maldição do jabá. Como julgar um momento cultural do país se sua veiculação não está no mérito, mas em um balcão de compra e venda? Logo, os sucessos das rádios são replicados pelas mídias televisivas, e essas não possuem a menor vontade de ter avaliações críticas, mas apenas satisfazer ao deus do consumo e dos percentuais de audiência. Em resumo, a música que ouvimos maciçamente acompanhou o caráter comercial dos veículos de comunicação ao longo dos últimos 40 anos que seguem a hegemonia do neoliberalismo pelo mundo, resultando no desastre auditivo em que vivemos. Insisto em reafirmar que esta análise é pessoal e que há gosto para tudo, literalmente.

Revista LT: Quem você destacaria como talentos dessa nova safra?

Caique: Veja bem, a partir das considerações acima, tornei-me um tipo de eremita musical, sinto repulsa pelas rádios em geral e parei de assistir televisão há anos, exceto esportes e filmes. Logo, admito que meus “novos talentos” são os mesmos dos anos 1960, 1970 e 1980. Certamente, minhas referências são os séculos passados, de Mozart a Lenine.

Revista LT: Vamos falar um pouco de outra área onde você atua com distinção: as artes cênicas. Em sua opinião, a mediocridade que se presencia na dramaturgia televisiva se estende ao teatro? Ou falamos de mundos diferentes?

Caique: Outro planeta! As artes cênicas, desde sua origem nas cavernas, creio, jamais dependeu inteiramente dos patrocinadores. E mesmo essa dependência, via poderosos mecenas, eventualmente resultou em obras da envergadura de Shakespeare e Moliére, por exemplo. Mesmo nas artes plásticas, Michelângelo foi uma sólida prova de que o poder político/financeiro/religioso tinha gostos bem mais aprimorados que nos dias atuais.

Sou oriundo dos grupos independentes de teatro dos anos 70’s, quando combatíamos a ditadura e colocávamos em cena nossos ideais com gastos mínimos saídos de nossos próprios bolsos, sem depender de ninguém. Isso perdura até os dias de hoje, a exemplo do grupo Ventoforte, capitaneado pelo mago Ilo Krugli, do qual sou fundador em 1974 e que ainda existe com fortes espetáculos e respeito da classe e do público em São Paulo e no país todo, sem ter mudado em nada suas propostas éticas e estéticas.

Quanto à teledramaturgia, sua mediocridade tem, como principal vertente, a escravidão pelos pontos de audiência. Como pode ser possível chamar de arte um produto que altera ou mata seus personagens à medida em que caem ou não no gosto popular? Podemos acrescentar que esses pontos percentuais são a medida de entrada ou saída de patrocinadores, logo é o âmbito financeiro que rege a alma das novelas.

Não me refiro aqui a séries mais ousadas ou históricas, algumas com bons resultados.

Revista LT: E as emissoras de TV aberta? Você acha que cumprem seu papel educativo diretamente relacionado às concessões públicas que possuem? Porque principalmente no cenário atual parece que nenhuma delas tem honrado seus compromissos mais básicos…

Caique: A TV aberta brasileira, a exemplo da maioria dos países colonizados, sofre um grave desvio de função. Ora, se há – sabiamente – controle ético e de grade sobre todas as instituições de ensino, nada mais lógico do que a participação social e governamental sobre o conteúdo de um veículo que entra, todo dia e sem limite de horário, em todas as casas, estabelecimentos comerciais, consultórios médicos e por aí vai.

O que ocorre é que, sob o manto de liberdade de expressão, as emissoras agem em duas vertentes: a comercial e a ideológica, que se mesclam de forma perigosa e sórdida. Como são comerciais ao extremo e consequentemente sem o mínimo de conceitos éticos, não possuem limites culturais dentro de suas programações. Sua ideologia não passa por questões filosóficas, mas reverencia apenas o deus “lucro”. Logo, as tomadas de posição frente aos governos críticos e libertários serão somente de combate a qualquer mudança de sua hegemonia, pouco importando a reflexão sobre os desdobramentos culturais/educacionais da nação. Isso vale também para algumas emissoras de cunho religioso que nem precisam tanto de anunciantes: a própria exploração incólume de seus rebanhos de fiéis já é o suficiente para vermos programas inacreditavelmente grotescos.

Sem o menor controle e sem pagar impostos.

Revista LT: Você é a favor da democratização da mídia? Considera a “regulação” uma forma de eufemismo para censura?

Caique: A regulação é um direito da sociedade de discutir o conteúdo do que entra em seus lares e consequentemente na influência cotidiana dos rumos da cultura e da discussão sobre a cidadania no país. A acusação habitual de “censura” é o recurso pífio, covarde e ignorante que os proprietários neoliberais utilizam, com o respaldo de um judiciário fraco e dúbio, de um Congresso mais do que sob suspeição com dezenas de deputados processados e, afinal, com o apoio de uma imensa massa de manobra adquirida por anos de dependência informativa e lúdica. Podemos concluir que, dos quatro poderes, é o único com poder absoluto.

Cito um exemplo que considero esclarecedor. Temos no Brasil cerca de 5600 municípios. Desses, uns 5000 não contam com teatros, museus ou bibliotecas razoáveis, recebendo exclusivamente como informação essas tvs abertas. Fora o massacre cotidiano sobre a população, o que dizer do professorado desses locais, que recebem como único conteúdo programas como BBB, Faustão, Ratinho, Huck, Datena, Videoshow, um jornalismo imoral e programas infantis que, em grande número, exploram a erotização infantil e primam pela falta de imaginação. Pois bem, é esse o conteúdo que o professorado estará repassando aos seus alunos que, por sua vez, possuem essas mesmas informações. O dramático resultado desse quadro é previsível.

Revista LT: Em seu livro “Achados” de 2002 você narra uma tocante história de um ensaio de Chico Buarque que assistiu com seu filho Bernardo que se encontrava às vésperas de uma delicada cirurgia e nela Chico com sua eterna gentileza envolveu ambos num bom papo de camarim e acabou por tirar o foco do problema de saúde do Bernardo, posteriormente superado; gostaria que você comentasse um pouco o episódio recente quando Chico foi abordado de forma truculenta nas ruas do Rio por conta de suas posições e convicções políticas:

Caique: O fato de uma agressão estúpida dessas ter ocorrido com o Chico Buarque, um ícone inquestionável da cultura brasileira, é revelador. Mostra a falta de respeito à opinião alheia, independente de ser um cidadão de 70 anos e ser o Chico. Falta de limites e de educação. Dizem os compêndios psiquiátricos que a ausência de culpa é um dos sintomas claros de um psicopata. As ameaças, os ataques e palavrões proferidos pelos opositores de um governo legítimo mostram um descontrole perigoso por ser irracional, eu diria patológico. O agravante é o apoio e suporte das mídias, alguns juízes e congressistas, além de determinados governantes oposicionistas com seus aparatos policiais.

Revista LT: E por falar em juízes, mídia e congressistas, como você enxerga o cenário político atual, com uma manchete bombástica a cada par de horas? Qual sua posição sobre essa polarização que tomou o país?

Caique: Costumo dizer que a queda do muro de Berlin foi pior que a sua construção. Não como defesa de um regime comunista equivocado, mas pelo simbolismo do que poderíamos chamar de ‘o fim da dialética’, quando se estabeleceu no mundo o “monoteísmo capitalista”.

Neste regime praticamente mundial, o lucro tornou-se o totem maior, e o individualismo de resultados soterrou os sonhos de liberdade, igualdade e fraternidade. O fato é que muitos crimes são abafados por conta de uma “justiça” corporativista e seletiva, só são culpados aqueles que os detentores do capital decidem ser. Então, não existe governo x oposição, nem ideologia de esquerda x direita. O que há é luta de classes, com a maioria do judiciário e dos congressistas a favor, sem maiores disfarces, de seus financiadores.

Revista LT: Traçando um paralelo breve com 1964, você vê espaço em pleno século XXI para a chegada de outra ditadura de militares no país?

Caique: Os militares em quase todo o mundo, após as experiências trágicas das ditaduras sul-americanas e do colonialismo europeu, atualmente tornaram-se sóbrios e fiéis às suas prerrogativas institucionais. Não parecem, inteligentemente, inclinados a aventuras golpistas com as possíveis consequências da violência de guerras civis.

Revista LT: O que você vislumbra para o futuro de curto prazo? Os fascistas passarão?

Caique: Estamos num perigoso impasse. Os argumentos irracionais e os ataques sem provas dos opositores ao legalismo podem realmente eclodir um conflito de consequências imprevisíveis, mas desde já danosas à nação, quando o embuste substitui a razão. Recuperar a confiança em um Estado golpista leva décadas, conforme aprendemos após a ditadura de 1964. Quando se repete tão pouco tempo depois, e com tanta ignorância, adquire um caráter bem mais grave, de um país eternamente à deriva.

Revista LT: Para finalizamos, o que você diria aos jovens que estão começando a se interessar por música, teatro e literatura?

Caique: Tenho uma pergunta que sempre faço quando começo uma nova turma: qual a função da arte? Os alunos escrevem suas ideias por meia hora, e o tempo restante é para avaliarmos as colocações de todos. Desse debate sai uma quase declaração de princípios, analisamos as diferenças entre o que é simbólico e transformador do que é simples comércio e/ou puro narcisismo. Não que o lado comercial ou egóico seja negativo, mas é muito bom ter clareza de suas dimensões.

Revista LT: E para os jovens que estão despertando agora para a política, justamente num ambiente de tanto ódio e maniqueísmo?

Caique: Leiam muito, debatam sempre, formem grupos, experimentem sair de seus próprios territórios conhecidos, viajem. Tentem nunca abrir mão do humor, essa arma afiada e saborosa. Localizem na arte a poética e a política que sempre permeiam os atos humanos.

Caíque Botkay e família, no Rio de Janeiro. 

Revista LT: Muito obrigado pela entrevista!

Caique: Muito obrigado, Périgo e equipe, pelo convite a participar de mais uma iniciativa para tentar compreender e enriquecer essa nossa raça tão complicada.