Quando se fala do célebre terremoto de Lisboa de 1755, tendemos a pensar num evento único confinado a uma só região geográfica. Em outras palavras, imaginamos que houve um só tremor de terra e que ele atingiu apenas a capital portuguesa. As coisas não foram assim tão simples, é o que mostra o jornalista Nicholas Shrady no sensacional O último dia do mundo (editora Objetiva, 288 páginas), livro em que reconstroi os episódios daquele fatídico dia e reflete sobre os desdobramentos que eles tiveram.

Eis como ele descreve a hecatombe.

Em primeiro de novembro de 1755, ironicamente Dia de Todos os Santos, por volta das nove e meia da manhã, um primeiro terremoto chacoalhou Lisboa. Nada muito trágico, porém: o saldo foi de apenas algumas edificações destruídas e centenas de pessoas mortas. O segundo, ocorrido minutos depois, é que foi devastador: a cidade inteira ficou arrasada e milhares de moradores pereceram sob os escombros. Um terceiro abalo sísmico logo se fez sentir, ampliando os estragos e multiplicando o número de vítimas.

Não parou por aí. Focos de incêndio espalharam-se por toda parte, reduzindo a cinzas residências, palácios, templos religiosos, casas comerciais e prédios estatais. Muitos dos que haviam escapado com vida do triplo terremoto morreram carbonizados. Para completar, três tsunamis ergueram uma muralha de água no Tejo, o mítico rio português, afogando aqueles que, depois de escapar com vida da fúria da terra e do fogo, haviam buscado proteção em suas margens.

Lisboa foi certamente a cidade mais atingida, mas não foi a única. Longe disso. Setúbal, Cascais e Algarve, para citar apenas algumas cidades ou regiões portuguesas, também sentiram o impacto dos tremores e sofreram inúmeras perdas. Os efeitos devastadores do flagelo tampouco se restringiram a Portugal, já que reverberaram na Espanha, na Franca, na Suíça, na Inglaterra, na Escandinávia e, acredite se quiser, até no Novo Mundo (os tsunamis que arrasaram a cidade das sete colinas atravessaram o Oceano Atlântico e desembarcaram, todo serelepes e garridos, em Barbados e na Martinica, no Caribe).

Um evento desta magnitude já seria uma tragédia, mas não há nada neste mundo que o homem não possa piorar…

Nos países protestantes, atribuiu-se o cataclismo à impiedade do devotíssimo povo português – leia-se: à sua idolatria e fidelidade a Roma. A Holanda calvinista, por exemplo, se recusou a enviar ajuda humanitária aos sobreviventes da catástrofe, sob o argumento de que “o terremoto de Lisboa era uma resposta justa do Deus vivo à predileção de Portugal por superstição, devoção, imagens e papismo”. Na própria Lisboa, a exegese religiosa do flagelo não era diferente. O poderoso jesuíta Gabriel Malagrida, fazendo coro à opinião dominante nos meios eclesiásticos, publicou um panfleto intitulado Juízo da verdadeira causa do terramoto (sic), no qual combatia a herética e perniciosa opinião de que os tremores de terra tinham causas naturais. Como assim?… Não eram o castigo que Deus enviara para punir os pecadores?… Enquanto o recém-nomeado ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, o célebre marquês de Pombal, tentava desesperadamente liderar um esforço de reconstrução da cidade, Malagrida e outros fanáticos criavam toda sorte de obstáculos. Reconstruir a cidade para quê, argumentavam. O melhor era se arrepender dos pecados e pedir perdão a Deus…

Felizmente para Lisboa, e também para Portugal, o marquês levou a melhor sobre Malagrida e seus iguais. A cidade foi reconstruída e, com o poder e o prestígio que acumulou em sua atuação como ministro, Pombal iniciou um projeto modernizador no país inteiro: estimulou a indústria e o comércio; aboliu a escravidão; elevou o status dos judeus, permitindo-lhes o acesso a cargos públicos; expulsou os jesuítas do país; para combater o analfabetismo endêmico, mandou construir escolas primárias e secundárias; e promoveu reformas na educação superior, incluindo no programa curricular matérias como matemática e ciências naturais, além das obras de Montesquieu, Voltaire, Kant e Locke, fazendo com que finalmente as idéias iluministas chegassem ao país ibérico.

 De todos os desdobramentos da tragédia, o mais importante, contudo, foi o que se verificou sobre as ideias filosóficas da época. Antes do terremoto de Lisboa, o otimismo dava o tom na interpretação das relações entre Deus e o homem. Pensadores como Leibniz, por exemplo, sustentava que Deus havia criado o melhor dos mundos possíveis… Depois de 1755, essa risonha exegese começou a parecer uma piada de mau gosto, especialmente para aquele – ironia das ironias – que é considerado o mais faceto e jucundo de todos os filósofos, Voltaire. Foi de sua pena que saiu o maior grito de revolta contra o otimismo de seus pares, o inesquecível Cândido, obra-prima da literatura universal. “Se este é o melhor dos mundos possíveis”, pergunta o atormentado heroi do livro, “o que será dos outros?”

Não seria exagero dizer que Voltaire jamais se recuperou do desastre de Lisboa. Prova disso é que, ao contrário de muitos apologistas cristãos, nunca se atreveu a responder a pergunta que há séculos inquieta os religiosos: “se o mundo foi criado por Deus, por que existe tanto mal?” No verbete Bem (tudo está), do Dicionário filosófico, ele escreve, cheio de uma humildade que falta aos outros: “O problema do bem e do mal permanece um caos inextricável para todos aqueles que perquirem de boa-fé. (…) Nada sabemos do porquê do nosso destino. Cumpre subpôr ao fim de quase todos os capítulos da metafísica as duas letras dos juízes romanos, quando não entendiam uma causa: N. L, no liquet , – não  é claro”.