Quando em abril de 2014 a cidade de São Paulo – e por consequência o resto do país – foi confrontada com a realidade dos imigrantes haitianos que viviam no Acre, finalmente o tema ganhou as luzes da imprensa.

Quem era aquele governador que resolveu colocar todos os imigrantes em ônibus e mandar aqui para São Paulo?

Por que ele fez isso?

Para responder, é necessário voltar alguns poucos anos no passado, quando o terremoto que destruiu o Haiti forçou o início de um fluxo migratório motivado pela esperança de uma vida melhor.

 Claro que se fala em haitianos – talvez por serem a maioria -, mas há alguns anos o Brasil vem recebendo senegaleses, sudaneses, congolanos, dominicanos, sírios e povos de diversas outras nacionalidades, cada qual fugindo de uma situação de guerra ou de miséria, ou até mesmo simplesmente motivados pela expectativa de uma vida nova e mais aprazível.

E onde entra o Acre nessa história? Lá na pequena cidade de Brasiléia, por anos funcionou um abrigo improvisado onde vários desses imigrantes se alojavam e eram mantidos pelo governo do Estado do Acre. Dia após dia, dezenas cruzavam a fronteira ilegalmente e entravam no Brasil após uma travessia árdua e perigosa advindos do continente africano e Haiti.

Um pequeno abrigo composto de um barracão e uma tenda, construído de forma improvisada para abrigar cerca de 200 pessoas, mas que por vezes abrigou mais de mil. Em uma ação humanitária, o governo provia refeições para essas pessoas, que aguardavam as visitas das “companhias” – empresas que buscavam mão de obra entre eles – para começar uma nova vida em um novo país.

E o resto do Brasil, onde estava nessa hora?

Com a ausência de apoio do resto do país, o governador do estado do Acre, Tião Viana, fez algo inesperado: fechou o abrigo, forneceu ônibus para todos serem levados à São Paulo e outras grandes cidades do país.

Nesse momento, o Brasil acordou, mesmo que por pouco tempo, para o problema dos refugiados, mas infelizmente com esse despertar veio também a xenofobia, o ódio, o racismo e tudo o mais que o ser humano consegue ter de ruim.

O assunto foi esquecido, aparecendo vez ou outra nos noticiários, quando algum imigrante é atacado, agredido ou pior.

A entrada ilegal acabou? Não, não acabou. Eles continuam entre nós, tentando recomeçar sua vida.

E antes que você que está lendo este texto e vendo as imagens que o acompanham diga alguma besteira, faça apenas uma pergunta a si próprio: eu conheço algum brasileiro fora do país?

 Talvez, a partir dessa resposta, você comece a enxergar os imigrantes como o que eles são.

Como alguém como você..

* Em dezembro de 2013, durante 19 dias, o então aluno de jornalismo, Matheus José Maria, acompanhou a rotina dos residentes do Abrigo Humanitário de Brasiléia.

As dezesseis imagens a seguir são uma pequena parte do material produzido durante esse tempo.