Hoje, Fidel faz 90 anos. O que me leva a pensar sobre o que ele representa para os jovens, nesta quadra do século XXI. Por que jovens? Porque Fidel foi um símbolo de rebeldia para os jovens dos anos 1960, uma geração mais velha que a minha.

Acredito que a imagem mais poderosa para aquela geração é a foto que ilustra esta nota. No início de 1960, pouco mais de um ano após a revolução cubana, Sartre e Simone de Beauvoir passaram um mês em Cuba. A viagem teve um impacto tão forte sobre parte da juventude ocidental quanto a entrada de cabeça de Régis Debray pela ilha. Aliás, Debray passou pelo Rio de Janeiro em 1964, na tentativa de contatar Carlos Marighella. Tinha 24 anos. Mais tarde, se lançou na guerrilha ao lado de Che Guevara, foi preso na Bolívia e condenado a 30 anos de prisão. Só foi solto em 1970 porque Sartre articulou uma campanha internacional de intelectuais na defesa de Debray.

O fato é que Fidel virou um ícone de rebeldia juvenil, um sopro de vida no mundo quase vitoriano que era superado por tantos outros atos de rebeldia da juventude, a começar pelos hippies e Beatles, além dos Rolling Stones, na esteira da avenida aberta pela geração perdida de Hemingway, Fitzgerald e Gertrude Stein e da geração explosiva de Kerouac eGinsberg.

O mundo parecia dos jovens e Fidel e Che Guevara pareciam o braço político e latino-americano desta ponta do iceberg.

De alguma maneira, a rebeldia agressiva (e violenta) incentivou arroubos políticos da mesma geração aqui no Brasil (de Brizola a Marighella, passando pelo engajamento de tantos jovens que decidiram enfrentar a ditadura colocando suas próprias vidas em risco).

A minha geração percebeu em Fidel um quase-mito. Parte de nós acompanhou as viagens organizadas por Fernando Morais e Chico Buarque a Cuba, levando consigo Gonzaguinha e tantos outros artistas tão admirados pelos jovens de então. Lemos “A Ilha”. Sentimos as tensões entre Cuba e URSS e acabamos nos surpreendendo com as contradições que pipocaram nos relatos de Gabeira e de tantos que viajaram para lá e se chocaram com a falta de perspectiva de tantos jovens que pediam para os turistas para deixarem seus tênis. O filme “Antes do Anoitecer”, sobre o poeta gay Reynaldo Arenas (interpretado por Javier Bardem), arranhou profundamente nossa crença de que por lá se construía um mundo mais justo para todos. Mas, ainda assim, o orgulho negro dos cubanos, as políticas de saúde e educação e o enfrentamento corajoso de um mundo liliputiano contra a maior potência bélica e econômica do mundo deixavam a todos boquiabertos. Padura (o autor do comovente e genial “O Homem que Amava os Cachorros”) parece ter conseguido traduzir o sentimento que Cuba deixou em nossa geração: admiramos e lamentamos.

Até que chegamos à geração atual. Na passagem da minha para a Geração Y ou Z, Fidel foi substituído por Che Guevara. Che era mais jovem, morreu rebelde contra todas as formas de poder, incluindo a montada pelo castrismo. Che foi estampado em camisetas e sua foto imponente, registrada e concebida por Alberto Díaz, também conhecido como Korda, parecia confirmar a força interior da juventude, desdenhando o chão do cotidiano.

A novíssima geração de jovens rejeita grandes narrativas. Rejeita o poder hierárquico e os jogos de dissimulação. Gostam do papo reto, ácido e se organizam em comunidades (que alguns gostam de denominar de coletivos). Não parece haver espaço para gente como Fidel. Aos 90 anos, Fidel parece cada vez mais com a figura do cavaleiro da triste figura. Com a exceção significativa (de) que lutou contra os moinhos de vento e ganhou, ainda que parcialmente. Mas, para a juventude atual, parece distante, e ele mesmo parece ter construído um moinho para si. Afinal, não se veem jovens cubanos dirigindo Cuba. Todos os dirigentes parecem fardados. As disputas são palacianas. Felizmente, a filha de Raúl Castro, Mariela, apoia a luta LGBT na ilha de Fidel. Recentemente, liderou uma parada gay que tinha como slogan “Abaixo a Homofobia”, na cidade de Cienfuegos (nome de outro ícone incompreendido da revolução cubana).  Mariela é filha de Vilma Espín, líder feminista cubana.

Enfim, Fidel faz 90 anos e ainda é referência para parte da geração anterior à minha e parte da minha geração. Evidentemente, a porção mais à esquerda ou democrata das duas gerações. Mas é preciso compreender que, assim como o físico de Fidel, sua imagem envelheceu. E assim como o corpo, sua obra apresenta fissuras. Para os jovens, a imagem de Fidel não é esta em pé, na lancha que levava Sartre e Simone pelo mar cubano. Mais que isto, os jovens de hoje parecem não se mover por ícones ou ídolos. Eles preferem a si mesmos.