A bala que matou Ninico tinha asas,

as  asas   da violência;

chispou rumo a um espaço aberto

onde não estava ninguém,

raspou na trave de um campo,

apitando como um  trem,

seguiu, trombando  com o vento,

entrou nele como alguém

que tem pressa na viagem,

e, com um zunido, foi além.

Ninico, neguinho preto,

vinha, brincando com o encanto

de ser criança, cantava

olhando o dia espalhado

sobre o morro onde morava.

Levava pão, mortadela

para a mãe,  que esperava,

para a irmã,  toda pequena,

que, rindo, também esperava

e , como ele, cantava,

esperando o pão quentinho

e a mortadela; esperava,

***

A bala  que achou Ninico

era limpa, dura, burra,

cuspia raiva

quando Ninico passou.

E o dono dela  gritava,

debaixo do dia aberto:

que  fosse ao encontro do mundo,

fizesse o acerto

com tudo o que ele odiava.

E a bala encontrou Ninico.

“Mais um!”, o ódio cantava.

 

 

Oswaldo de Camargo

Jornalista e escritor

 

Publicou, entre outros livros,  O Estranho (poemas), A Descoberta do Frio (novela) e Raiz de um Negro Brasileiro (memórias de infância)