A eficácia do amor

Situada na cidade de Nova Olinda (CE), a Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri é uma instituição cultural brasileira que se constitui como um complexo centro de pensadores que se propõe a apresentar memórias das tribos indígenas de origem Kariri através de um museu antropo-mítico-arqueológico gerenciado por um grupo infanto-juvenil da localidade. Uma instituição da sociedade civil, sem fins lucrativos, e referência em educação, cultura e memória, a ONG possui como objetivo “a formação interdisciplinar de crianças e jovens possibilitando o aguçar da percepção, a sensibilização do ver, ouvir, fazer, conviver, aprender e compreender (…).”, em que conhecimentos envolvendo as temáticas de memória social, identidade, patrimônio cultural, mitologia, arqueologia, gestão cultural, empreendedorismo social, turismo, meio ambiente, artes e cidadania são compartilhados.

Os fundadores Alemberg Quindins e Rosiane Limaverde – junto com os meninos e meninas da Casa Grande – criaram um ambiente de apoio e confiança coletiva que fomenta e estimula o aprendizado intuitivo por intermédio  do cuidar e do brincar, em que crianças e jovens se desenvolvem de maneira autônoma e de acordo com os seus interesses.

Captura de Tela 2016-06-27 às 12.00.22Elaborar um texto sobre a Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Cariri e a sua força de inovar a educação é desafiador – há tanto para ser dito, registrado, apresentado, pensado, compartilhado e conhecido que a escolha de uma perspectiva soa empobrecida e desleal.  Então, para as pessoas que estão a ler este texto, fica um recado simples: a Casa Grande deve ser sentida para ser plenamente compreendida. Aqui te tenta contar a beleza e a alegria dos processos de aprendizado criativo ocorridos nesse lugar encantado.

A Vida do Mito

A dinâmica territorial do cuidar e do brincar na Casa Grande tem como base geocultural as memórias antropo-mitológicas dos Kariris. Através da mitologia indígena resgatam-se lendas e histórias de povos que contam os encantos da Chapada do Araripe e narram a origem sagrada da natureza da vida. O homem é apresentado como ser natural e elemento único de encanto; cada pessoa é singular, portanto é elementar. O Homem Kariri se concretiza na Fundação Casa Grande por meio da arqueologia social inclusiva, em que o elemento humano é mostrado aos meninos e meninas como as vísceras da Chapada do Araripe.

Essa base viabiliza a chegada natural das crianças na Casa, como se fossem seus habitantes originários, já que o aprendizado infantil é único, elementar, singular, intuitivo. Ao serem acolhidos e cuidados pelos habitantes mais antigos da Casa Grande – o que inclui as culturas Kariris – as crianças chegam e encontram a liberdade de criar, de ser, de brincar. A inteligência infantil é respeitada e reconhecida; os meninos e meninas que incorporam o cotidiano da Casa possuem sua intuição preservada e conquistam a mesma voz que os mais velhos. O pensamento elementar é valorizado na Casa Grande, o que permite o desenvolvimento da confiança, da autoestima, do empoderamento sociocultural.

Os mitos Kariris vivem nos processos de desenvolvimento humano que florescem em cada menino e menina da Casa – a ancestralidade Kariri guarda e preserva a dinâmica territorial do cuidar e do brincar. Assim, a Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri pratica uma filosofia educacional que fomenta o desenvolvimento do equilíbrio entre o indivíduo e o coletivo.

O Brincar

“Nossa, a Casa parece de brinquedo!” – quem frequenta cotidianamente a Casa Grande sabe o quão presente essa frase se faz; não só nas primeiras falas dos visitantes que estão a conhecer o lugar, mas também na essência originária do ambiente. Essa presença se dá de forma tão forte que se pode até pensar que um gera o outro, como se a fala chamasse a essência, e a essência a fala.

A brincadeira é a base de todos os processos de aprendizado na Casa Grande, para cada lado que se olha, cada som ouvido, cheiro sentido, há a alegria do brincar. Todos os frequentadores do espaço brincam de aprender a ser. Ser o que quiser ser. Basta aprender; basta brincar. Brincar de ser radialista; técnico de iluminação teatral, de som, de escavação arqueológica; diretor de cinema; fotógrafo; editor de gibis; desenhista; arqueólogo; donos de casa; gerente de museu, de bibliotecas, de teatro, do almoxarifado; músico; produtor musical; criador de trilhas sonoras; gestor turístico; guia de museu; designer; chef de cozinha; estilista; ator; produtor cultural; gestor cultural. De tanto brincar de ser, eles são.

Captura de Tela 2016-06-27 às 11.15.12A leveza e a beleza do aprender na Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri estão no estímulo à intuição. Ao valorizar o ambiente do brincar, a intuição vira protagonista dos processos de aprendizado, em que a criatividade ganha espaço e liberdade. Quando alguém quer plantar uma ideia, ou seja, quer brincar de ser o que quiser ser, esta pessoa se torna responsável pelo desenvolvimento e florescimento daquela ideia. Ela guiará a execução de seu aprendizado, seguirá a sua intuição e compartilhará seu processo criativo com os outros. Assim, as situações se desenvolvem de forma espontânea e são potencializadas pela infraestrutura laboratorial disponibilizada pela instituição.

A brincadeira se transforma em aprendizado quando as crianças e jovens acessam e interagem com a dinâmica territorial da Casa. Esta interação não se faz somente pelo uso do espaço físico; ao brincar de ser (o que quiser ser) os mais novos observam e dialogam com os mais velhos. À medida que a maturidade do aprendizado vai crescendo em cada um, as responsabilidades vão se complexificando e o empenho de partilhar o conhecimento se fortalece. Desta forma, cria-se uma dinâmica de autogestão compartilhada, em que o território laboratorial da Casa Grande acolhe o cuidado coletivo entre seus frequentadores e os estimula a manter diálogos de aprendizado criativos.

O Cuidar

Enquanto a brincadeira é o espaço da liberdade criativa na Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri, o cuidado coletivo é o ambiente da responsabilidade. O direito à liberdade de criação vem acompanhado de compromissos coletivos. É preciso cuidar do outro, do espaço de todos, amar os deveres como se amam os direitos. O cuidar zela e permite a leveza e a alegria do brincar; é o que assegura a liberdade criativa dos meninos e meninas ao lhes fornecer tranquilidade para acreditarem em suas ideias.

O cuidado traz o apoio afetivo ao mesmo tempo que mostra a importância da responsabilidade coletiva. Quando se faz com amor, cuida-se. Alemberg Quindis e Rosiane Limaverde repetem aos grandes, médios e pequenos pupilos culturais para executarem suas tarefas e seus processos de aprendizado com carinho e amor verdadeiros – “Façam porque amam, porque gostam. Tenham carinho pelo  que fazem e busquem colecionar boas memórias.”.

Assim, eles cuidam de tudo a sua volta. Cuidam um do outro; cuidam do espaço; cuidam de seus deveres; cuidam de si mesmos; cuidam dos visitantes; cuidam de mostrar Nova Olinda ao mundo; cuidam de gerenciar eventos culturais; cuidam das memórias Kariri; cuidam da casa; cuidam de criar; cuidam de inventar de ser; cuidam de brincar. É no cuidado que enxergam seus papéis e a si mesmos, é no cuidado que realizam conexões amorosas e de carinho. Eles seguem os conselhos dos orientadores da Casa: amam cumprir seus deveres e se divertem com a liberdade dos direitos.

Captura de Tela 2016-06-27 às 11.15.27O cuidado coletivo na dinâmica territorial da Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri ajuda a construir relações sociais mais sinceras, solidárias, honestas, éticas, leves e alegres.  O cuidar é responsável por sustentar os processos de aprendizado criativo entre os meninos e meninas da Casa, pois ativa os ciclos de diálogo e interação entre eles e deles com o mundo. Quem “de fora” adentrar na Casa Grande encanta-se com a vitalidade e a generosidade da inteligência lúdica; tem a oportunidade de resgatar sua criança e sentir o ambiente encantado da infância.

Todas as fotografias são de Hélio Filho,  menino da Casa desde os nove anos até os 28, sua idade atual. Assista também ao vídeo feito por ele sobre a fundação:

Este artigo foi originalmente publicado sob o seguinte endereço http://institutotear.org.br/cuidar-e-brincar-principios-que-tecem-a-rede/ , na webpage do Instituto Tear.

Outros links:

https://www.youtube.com/user/TVCASAGRANDE

https://blogfundacaocasagrande.wordpress.com/

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Laís Lavinas é antropóloga formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Especialista em Gestão do Patrimônio Cultural pelo Instituto Metodista Granbery. Mestre em História Social pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Atualmente é voluntária na Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri.