Era visto que, mais cedo ou mais tarde, seus cafés se tornariam o velho clichê dos convites, e que, sem perceber, seria sua própria sentença. Ele insistia que não, mas não havia outro final senão este. Depois de tantos encontros; depois de tantas conversas; depois de tantas horas de estratégicas investidas; depois de tantos trocados mal pagos, era visto o que daria. Eu o alertava, por certo, mas ele me ignorava; “ah, meu caríssimo, é improvável que aconteça o que há de mais previsível; cuido-me justamente para que não escorregue pela minha própria armadilha; elas são preparadas para as presas, não para o predador”. Dizia sempre que o acusava de usurpar das próprias habilidades, mas insistia que o fazia de modo calculado, ético, responsável, de modo que cuidasse de si e da companhia; insistia, sobretudo, que não pretendia mais que o pretendido. O pretendido, é evidente, é que conseguisse arrancar da moça aquilo que ela não queria, a todo custo, revelar sequer para si.

Era um galanteador; um mísero e indecente galanteador; insisto: uma farsa tão bem montada, tão bem apresentada, que realmente era convincente em cada galanteio. Quando usava de seus artifícios, ludibriava com excelência, de modo que nunca deixasse evidentes as traças que o consumiam; era tão certeiro que, vez ou outra, tinha um sucesso tão maledicente que acabava por se contentar com o pouco; mais parecia com as mãos do mágico, que distraem a atenção para pontos outros que não para o próprio truque: sempre sabemos que é apenas um truque e não há nada de incrível na mágica, mas o seu realizador faz com que pareça extraordinário. Era um misto entre o clichê e o piegas, que incorria no blasé sem se importar; aliás, admirava-me que não se importasse em todas as vezes que confirmava que, sim, era totalmente previsível. Parecia gozar em sua própria prepotência; olhava-me com olhos soberbos, de quem sabe que está por cima da carne seca e que, mais cedo ou mais tarde, acabará jantando o que desdenhou; apenas pelo prazer de desdenhar.

Eu o lembrava, toda vez, sobre o amor raro, e sobre a probabilidade de, num universo limitado, de constantes limitadas, de possibilidades contadas, de ele se deparar com o amor raro; ele se ria, se regozijava das minhas tentativas seniores de demonstrar cuidado, mas era tão cheio de si, tão ensoberbado, que repetia baixo, como se para si mesmo: “ah, o amor raro, que de tão raro, ninguém sequer sabe se de fato existe; certamente que eu, no alto da minha boa sorte no amor, não o encontrarei; aliás, seria, no mínimo, modesto da minha parte reconhecer que não o reconheceria”. Eu apenas respirava aliviado quando, aparentemente, sem muito me deter à análise, percebia que ele tinha lampejos de sanidade; porque, francamente, “modéstia” não parecia ser uma palavra conhecida para ele. Sobre a modéstia, a cada vez que eu dizia “seja modesto ao menos uma vez, homem”, ele respondia “’modesto’? o que é isto?”, e gargalhava, quase se afogando em si.

Sempre eram os cafés; raios, como alguém pode gostar tanto de café?! Coisa amarga, que estapeia a língua quando desce, deixando marcas agressivas, tanto no bafo, quanto na conta; o seu era preto, forte, puríssimo. Nada de açúcar; cada vez que pegava a xícara, dizia que, de doce, já bastavam as várias tentativas melodramáticas da vida, e que, pelo menos no café, ele gostava de sentir o amargor da existência, o forte do fardo, aquela parte de si que se resiste a sair do fundo, quase como um resíduo. E ainda sobre os cafés, insistia que o cheiro lhe penetrava as narinas, aguçando toda a sua percepção, sua leitura de mundo e de corpo, de modo que não deixasse passar despercebido sequer a palma da mão da acompanhante; o álcool o desacelerava, coisa que o café, seu fiel antídoto, jamais lhe possibilitaria; “cafés são como a maioria das pessoas, caríssimo; você perceberá que existem aquelas mais aguadas, outras mais fortes e consistentes; existem as pessoas mais rasas, de um gole só, que se sorve rapidamente e, tão logo se acabe, a pessoa também se acaba; mas, dentre todos os cafés, existe o Lungo, aquele que, mesmo depois de ter sido completamente degustado, permanece em você… por tempo indefinido, insistindo para que seja degustado mais uma vez, e mais uma vez, e mais uma vez”. Eu gostava de suas comparações; confesso que achava bastante inusitado comparar pessoas a cafés; sobretudo, gostava pelo fato de ele ser um conhecedor de cafés e que, nesta empreitada, não fazia por mera publicidade.

Mas, em se tratando das suas armadilhas, eu realmente tivera vencido. Eu o alertava; insistia para que cuidasse do que estava fazendo e do como estava fazendo, mas, como de hábito, eu era protelado e empurrado com as tralhas; apenas sorria, um pouco tenso pelo desconforto do aviso desdenhado, e dizia: “você ainda vai se dar mal, homem, escute-me ao menos hoje”; é evidente que, também esta fala, era desdenhada; “não há possibilidades do mal ocorrer; não há mal; como poderia acontecer aquilo que não existe?!”. Era tão arrogante a forma como se desemaranhava das suas confusões, que sempre pensava se era arrogante por ter maestria, ou tinha maestria por ser arrogante.

O fato é que, de um modo ou de outro, eu parecia mesmo o superego dele; enquanto ele fazia seus cálculos estratégicos, como se estivesse indo à guerra, eu ficava andando atrás, sacudindo a xícara de café, olhando as horas constantemente, e falando das coisas que eu pensava e do que eu tinha quase certeza – ou total certeza – que iriam lhe acontecer. A verdade é que era um sujeitinho que se define em poucas palavras; alguém tão simples, tão comum, tão banal, mas que, em sua inteireza, reservava alguns hieróglifos difíceis de serem decifrados e, por isto, fazia com que a mensagem total ficasse manca de compreensão; não se sabia exatamente o que era, pois era certo que definições sempre encerram compreensões; ele sempre retomava sua banal e célere frase, de que não gostava de encerrar compreensões, posto que permitia que as coisas vivessem por si só. Das coisas que eu sabia que lhe ocorreriam, lembrava-o com ar triunfal, de quem teve, por fim e por certo, a conquista garantida: quando a dita-cuja o deixou esperando, por horas seguidas, no café das luzes amarelas que encarecem a conta de luz; e ria maleficamente, quase vertendo veneno, e dizia, fitando-o como quem fuzila o inimigo: “e então, eu estava certo ou não? Vai assumir que perdeu, ou vai dizer que, mais uma vez, por deixar que as coisas vivam por si, o celular que não foi atendido também vivia por si?!”; ele apenas me olhava de soslaio, fitando o café gelado, raso na xícara, concordando com olhos de derrotado.

Havia algo que realmente me interessava na sua postura. Um algo que, confesso, não havia ainda reparado em outras pessoas e, tão logo percebi nele, comecei a buscar em outros transeuntes; era como um jogo, na verdade, em que se busca observar as cartadas alheias, para que se faça a estratégia do próprio jogo; ele era o dealer e o jogador, ao mesmo tempo. Era trapaceiro no jogo, mas confesso que eram trapaças realmente interessantes; gostaria de saber trapacear desta forma, para que eu pudesse, pelo menos, camuflar melhor minhas faltas. Destas posturas, as poucas palavras que o definiam tinham muita relação; assumia uma postura prepotente, ao passo que esta postura também era uma de suas definições; mas é oportuno garantir que se entenda sua prepotência de um modo bastante peculiar; soberbo, mas peculiar; era a prepotência de quem ama a si, muito mais do que aquela que tenta suplantar o outro. Uma prepotência que supervaloriza a si mesmo, aos próprios olhos, não em detrimento de outros; uma prepotência que, assumo, se confundia com autoconfiança e orgulho de si, muito mais do que arrogância e mesquinhez. Esta era uma de suas posturas que me intrigavam o pensamento e, sobretudo, embolavam qualquer tentativa de compreensão. Sobre as demais, falarei em momento oportuno.

Quero retomar suas armadilhas e o amor raro; sobre como eu sabia que iria ser vencido pela própria estratégia e, ademais, como se confundiria e morderia a própria isca. Ora essa, era um tolo, como eu sempre dizia; um tolo, por certo, que achava que era mais esperto que qualquer um; talvez mais que a mim, mas não que qualquer um. Foi destas iscas e anzóis que o peixe morreu pela boca; mas não me refiro a um morrer de parar de existir; de cessar; de sumir; mas um morrer de se transformar, de passar ao ponto seguinte, de transmutar. Anzóis, aliás, que mais pareciam pedras filosofais, em que, no momento tal em que se morde, que se cravam os dentes, o entendimento se amplia; no seu caso, parecia mais um quase encarceramento; “sim, é disto que se trata, um quase encarceramento; sabe que, boníssimo amigo, você tem sido exposto a entendimentos mais sofisticados nesta vida e, por conseguinte, tem sabido diferenciar o que é ouro e o que é lata; diria, sobretudo, que se trata de um cárcere sem grades, sem limites, sem prisões; um cárcere em que se está trancado para o lado de fora. Sabe como é estar preso no lado em que se vive a liberdade?!”. É evidente que não, que não sabia: como se vive preso ao lado da liberdade, afinal? Isto me irritava tão profundamente, mas tão diabolicamente, que eu sentia que minhas mãos pesavam e, honestamente, não fosse eu um sujeito tão comprometido com a moral e com a ética, sobretudo com a política das relações sociais, eu já teria lhe partido pelo menos um par de dentes; era incrível o quanto ele despertava emoções endiabradas em mim; coisas que eu, definitivamente, não sabia que era capaz de sentir; coisas, aliás, que eu jamais achei que fossem possíveis de serem sentidas, por mim ou por outro.

Ele dizia que a maior corrente que pode prender alguém a outro alguém ou a algo é a iminente possibilidade de deixar aquilo em que se está preso; é realmente um paradoxo, pois, no momento tal em que nos percebemos livres, optamos por aquilo que nos causa bem; aquilo que nos causa bem, por certo, é o que nos manterá aos arredores. Ninguém permanece próximo à fogueira se ela queima, apenas se ela aquece e aconchega; ninguém permanece, senão pelo desejo de permanecer. Era sobre isto que ele dizia quando insistia nos relacionamentos que “se convidam a ir embora”; ele realmente tinha fetiche pela despedida, pois, no alto da sua prepotência – aquela que lhe garante o autoamor –, fazia de tudo para mostrar às suas damas que, sim, ele era suficientemente interessante para que elas não quisessem partir; sua relação fetichista com a despedida era a de torná-la inexistente. Eu ria, evidentemente, não conseguia conter, mas era realmente interessante quando dizia que suas estratégias de controle consistiam em superar o adversário; ele lutava constantemente contra si mesmo, de modo que pudesse, a qualquer custo, mostrar o quanto ele era melhor que qualquer outra pessoa. Insistir na possibilidade de partir era, pra ele, a própria instabilidade; e, convenhamos, não há nada mais mortificante que perceber-se estável na vida.

Nas interpolações do seu discurso, ficava bastante claro o quanto era pequeno; o quanto era diminuta sua grandeza e, por outro lado, o quanto era habilidoso com as palavras, de modo que parecesse um gigante; exigia um cuidado colossal para que não se desintegrasse, mas sabia mobilizar forças em si pra que pudesse, de alguma maneira, manter-se em pé perpetuamente. Sabia ser envolvente, ao passo que sabia ser cínico e destrutivo; e tudo estava na sua forma de falar; seu envolvimento e seu cinismo eram apenas modulações da própria voz; era a sua fala que produzia suas investidas, desarmando qualquer pessoa que desejasse desarmar; “não se trata de onipotência, mas de leitura contextual, de leitura corporal e de ter sensibilidade para saber quando falar, o que falar e para quem falar”; era disto que se tratava, por certo; afinal, era disto que ele gostava, dos jogos de palavra, dos discursos emaranhados e das possibilidades múltiplas que se constroem no porvir

Mas me permita uma última abordagem: sobre o peixe que morre pela boca.

Era tão íntimo do discurso; tão afeito às conversas; tão generoso nas palavras que, sem perceber, estava puxando o gatilho contra si; “para que uma conversa flua adequadamente, você precisa saber quais são os interesses da outra pessoa; estimule-a corretamente, e você a fará falar; ofereça recompensas valiosas pelas coisas ditas, e ela manterá a própria fala; continue estimulando, e você terá horas de conversas, de conteúdo, de puro prazer; interpole um café e outro, e no transcurso das xícaras, ofereça sinais de que você está presente, e, mais cedo ou mais tarde, você acabará invadindo esta pessoa; pronto, você terá sido bem-sucedido no seu encontro”. Era manualesco! Eu ficava perplexo! Então era assim? Simples assim? De modo que, seguindo esta receita, eu terei infinitos encontros bem-sucedidos?

No alto da sua sapiência, dizia formosamente que não, não era simples assim; eu entendia, claro, que não era para ser simples, até porque, se o fosse, todos teriam encontros bem-sucedidos; a questão é que, na medida em que ele usava as suas armas contra-e-a-favor da distinta dama, ele exibia-se deslizando para dentro da armadilha, de modo que servisse de convite. Talvez nem sempre isto tenha ocorrido de modo consciente, esclarecido, mas que, em algumas situações, talvez tenha faltado desenhar pra ele, para que ficasse mais evidente do que o possível, de que, enquanto ele estava jogando, fazendo seus joguinhos miméticos, já estava completamente envolvido; é como se ele estivesse se digladiando, mostrando poder e ousadia, com a corda no próprio pescoço. Finalmente, eu poderia dizer algo que há muito vinha me coçando a língua: “perfeito, caríssimo, você construiu a forca de si”. Ele apenas dizia, serena e jocosamente, que não era forca e estava muito longe de ser uma; insistia que, em cada conversa, havia elementos outros que influenciavam o andamento da coisa, o que fazia com que encontros durassem 40 minutos e outros durassem infinitamente mais, tendo que ser subdivididos em sucessivos dias; ele apalpava os bolsos, em busca dos cigarros tortos e amassados, enquanto segurava a xícara de café frio, fitava-me e dizia: “existe a chave certa que abre a porta certa; e quando esta porta se abre, meu caro, é a própria aventura que se inicia, já que ela nunca foi transposta”.