São Paulo, manhã de domingo.

Caminho pelos arredores do Mosteiro de São Bento enquanto ouço, de longe, o sempre contundente canto gregoriano ser entoado pelos monges.

 Sigo os passos desviando das pessoas que ali estão- e permanecem- em situação de rua.

A cena deveria ser inverossímil, mas não é: avisto um homem em nítido estado convulsivo, me aproximo, tento diálogo. Sem resposta. De imediato saco o celular para chamar uma ambulância, na esperança de que ele se salve e eu também. Sou impedida por uma policial que ali estava. “É assim mesmo, acontece, pode continuar seu dia”, diz. Insisto, mas sua feição se torna rude e, me acovardando, prossigo.

Chego ao meu destino: um belo “café” onde sabia que me aguardava, dentre outras coisas, o melhor omelete que há.

Me acomodo. Enquanto espero, lanço da leitura urgente que precisava finalizar para o dia seguinte: O Mal-estar na Civilização, do mentor Freud. Em rápida revisão, encaro os parágrafos iniciais que falam, sobretudo, das permanências que nos regem. Como sempre, divago. Penso em mim, penso nos arredores.

Pensaria mais não fosse o mal-estar causado pelas palavras vomitadas pelo moço da mesa ao lado. Nitidamente havia passado a noite em claro e a finalizava ali, após uma festa na qual sofreu recusas por parte de mulheres da sua própria faculdade e, se perdendo no volume da própria voz, anunciou a todos. Com essas recusas se revoltou e esbravejava contra o novo mal da sua vida: o feminismo.

“Por que não assumir que querem uma %¨&¨&*? “, gritava. Ainda: “essa m%¨& de feminismo é o mal do século… Olha a Dilma!”

Observo, novamente acovardada, até que uma mulher sentada na mesa do outro lado se levanta, se impõe, cobra satisfações e o garçom, diplomático, remaneja os revoltados revoltantes para o andar de cima.

Longe do olhar, na ilusão da inexistência.

Volto ao Freud. Finjo que genuinamente leio enquanto meu corpo ainda sente a má eletricidade gerada pela raiva e impotência.

O canto gregoriano cessa. Recebo meus pais, nos entregamos aos comes e bebes.

Hora de ir embora. Avisto, de longe, as pessoas que antes dormiam agora recebendo esmolas dos que saem da missa. Aquele que convulsionava permanece deitado

Chega meu carro. O dia segue. O mal-estar permanece. Há séculos.