Em meio ao carnaval de “atos” e “manifestações” ocorridas em março, muito repercutiu, inclusive internacionalmente, a foto da senhora negra levando num carrinho de bebê os filhos de um casal de brancos, que descobri serem uma dupla de banqueiros. Com a massiva divulgação nas redes sociais, analisei diferentes seções de comentários para averiguar a repercussão.

Repudiei a galera justiceira politicamente correta que insiste em tolher qualquer debate fazendo comentários do tipo “É branco, de classe média alta? Que Deus te elimine!” ou “apaga que tá feio” e trollagens pós-modernas afins.

Quando a foto gerou debates entre pessoas racionais, que sabem dialogar como seres humanos dotados de cérebro e que fazem algum uso dele, uma coisa que era para passar despercebida acabou me chamando a atenção e a de muita gente que deseja um mundo mais livre das desigualdades capitalistas.

Foi impressionante como a objetividade da foto, que mostrou um retrato da situação racial que distingue o branco do negro por condição financeira e pelo cumprimento de funções que não exigem qualificação por parte dos negros, foi suprimida pelos reacionários de direita como sendo uma mera “questão trabalhista”. Quando não, de modo ainda mais ridículo, por acusações de que tal conclusão era uma “ofensa” ao casal. Mas o meu foco será o dos aspectos “trabalhistas” para os quais fizeram questão de apontar os holofotes.

Em outras palavras, como os reacionários de direita se esforçam para não enxergar que, no país, o negro, em sua grande maioria, ainda (pois é século XXI) exerce funções de baixa qualificação e que “qualquer coisa” seria “melhor do que estar na rua”.

A direita reacionária nesses comentários mostra como pode muito bem dar uma aula de Direito do Trabalho. Mas única e exclusivamente para duas coisas: proteger seus interesses e defender sua visão de mundo capitalista. Que considera que “qualquer coisa”, “qualquer emprego” com carteira assinada, é melhor do que “estar na rua”. Eu acho que qualquer pessoa que trabalhe neste país, que não seja de classe média alta e que não conheça seus direitos, deve passar a conhecê-los. Ou poderá ser lesada. Principalmente se o pensamento político do empregado for diferente do patrão.

Se analisarmos esta situação com rigor, verificaremos o fato de que ela remonta a um argumento falacioso: a falsa dicotomia. Isto é, que entre várias situações possíveis, consideram apenas duas. No caso, é melhor ser da periferia e receber um salário trabalhando para gente da classe média alta do que “estar na rua” ou “desempregado”. Eis a mentalidade conveniente para defensores do capitalismo e que é pedra angular das crenças ingênuas do mais baixo senso comum, fadando-o ao conformismo. Grosso modo, é o mainstream neoliberal. Ideologia das mídias de massa.

É notório como essa gente é egoísta e só busca seus interesses. Quer financeiros, quer ideológicos

Chega a ser incrível como essa gente é conservadora (difícil é conseguir entender por que muitos se intitulam “liberais” ou “neoliberais”). Não dão nada por mudanças. Nem na seara do trabalho, nem na condição socioeconômica do país. E essa gente é maioria, é gente não só da classe média alta, é gente também alienada das periferias e que “aprendeu a pensar” vendo a TV.04

Não preciso dizer que essa crença de que o capitalismo é justo, e assim supostamente através das leis trabalhistas, é selvagem. É limitada. É pouco inteligente. É preguiçosa. É injusta.

Mais do que a necessidade de mudar esse sistema, é preciso pensar em como mudá-lo. E mais além, é preciso também mudar a mentalidade dessa gente que adora se dizer “realista” em aspectos econômicos, só que de uma realidade tão alternativa quanto excludente.