A primeira vez que soube o que era Discurso de Concessão foi em uma  aula da matéria de Análise do Discurso. Resumiria esse tipo de discurso a “aceitar o Outro sem aceitá-lo de verdade”. E isso parece explicar em parte de onde saíram os ataques de ódio por causa do momento político atual. Vou me explicar. Muitas pessoas dizem ser muito flexíveis e não ter preconceitos (todos temos), mas a verdade é que o que governa seus afetos é a lógica da concessão. O que isso quer dizer? Que elas “aceitam” maneiras de viver diferentes da sua, desde que sob a ressalva de um “apesar de”. A aceitação do Outro é sempre parcial:

“apesar de fulano ser gay, eu o tenho como amigo”

“apesar de ser morador da favela, é trabalhador”, etc.

 No Discurso da Concessão, o outro é aceito não pelo que o caracteriza prioritariamente, mas por ser a exceção dessa caracterização. O pré-conceito continuará lá. Os pressupostos do preconceito continuarão lá.

Essa semana, com os acontecimentos políticos e o afloramento dos ânimos a respeito da posse de Lula e o desejo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, a lógica da Concessão veio à tona sem véus. Fotografias nas manifestações em que moradores de ruas, negros, mulheres, pessoas com deficiência física são ridicularizados vieram a público sem o menor pudor. Na realidade, o que talvez tenha se passado é que as pessoas NUNCA aceitaram CORDIALMENTE esse Outro.  Elas aceitavam a presença desse outro – o diferente – no que tinham de exceção. Não à toa, notícias a respeito de pessoas muito pobres que conseguem passar em um vestibular, pessoas “lutadoras” que fogem ao que as caracterizam enquanto minorias, têm grande apelo popular.

Entre os maravilhosos memes que circularam na internet – e, aliás, faz algum tempo já circulam – fizeram parte do circo de horrores mensagens de apologia ao estupro da presidenta e piadinhas com a mutilação do dedo de Lula. Um senhor saiu às ruas com uma camiseta em que afirma que eleitores de Dilma Rousseff seriam ilegítimos por serem todos iletrados.

Em meio a uma mudança política e cultural que vem acontecendo nos últimos anos, com os coletivos e a militância política ganhando voz, e as discussões nas redes sociais cada vez mais abertas, debater assuntos políticos deixou de ser um tabu ou mesmo inacessível. Do conforto de nossos lares podemos ligar o computador e dar nossa opinião a respeito de qualquer coisa. A velha máxima “política não se discute” faz cada vez menos sentido na vida do brasileiro que tenha acesso à internet.

A partir das facilidades de comunicação trazidas pelas redes sociais, em São Paulo, por exemplo, foi possível mobilizar muitas pessoas e realizar o movimento “Existe Amor em São Paulo”. Coletivos reais de direitos humanos conseguiram envolver jovens a tomar as ruas da cidade em resposta a uma possível eleição do candidato conservador Celso Russomano. O movimento também foi uma resposta ao sufocamento gerado pela crescente privatização dos espaços públicos. Lembremos que o uso desses espaços para fins coletivos era duramente reprimido pelo Estado. Após esse momento, em 2013, com a grande mobilização engatilhada pelos protestos chamados às ruas pelo Passe Livre, em resistência ao aumento das passagens de transporte em São Paulo, a população e, principalmente a classe média, sentiu-se à vontade para discutir política e querer participar de maneira mais ativa dela. Essa mesma classe que até então tem pouco histórico em mobilização organizada conseguiu encaixar em sua rotina a possibilidade de dar opinião sobre política. Contudo, é exatamente quando isso acontece que a famosa cordialidade brasileira se esfarela, e emergem discursos de ódio que durante anos foram amplamente espetacularizados em programas como Cidade Alerta, Ratinho, etc. , alimentados sob a fachada de justiçaria, só que com extrema aversão aos pobres e exaltação à intervenção da polícia como saída para os problemas nacionais. Lembremos que, apesar da discordância de grande parte da população em o Brasil sediar a Copa, a entrada das UPP nas favelas cariocas foi aplaudida e realizada para um evento acarinhado por um governo de esquerda.  A partir de então, o caráter de concessão dos discursos é escancarado e passa a ser utilizado cada vez com mais violência.

Semana passada, Claudio Botelho, diretor de uma peça de teatro que estava sendo encenada em Minas Gerais, gritou ao público abertamente: “O ator que está em cena não pode ser peitado por um negro, por um filho da puta que está na plateia.”. Para ele, sempre foi e sempre será inadmissível que um negro esteja na mesma categoria que ele. Aos que fazem parte de seus afetos sempre a lógica da Concessão: “negros que não se comportem como brancos”. O discurso da Concessão se baseia em diversidades nunca realmente aceitas, apenas toleradas.

Quando pessoas saem às ruas e sem vergonha nenhuma xingam negros por serem negros, mulheres por serem mulheres, gays por serem gays, pobres por serem pobres, iletrados por serem iletrados, o que elas estão fazendo não é um mero insulto individual e politicamente incorreto. Ao defenderem de maneira aberta esses discursos, manifestam sempre como pressupostos os preconceitos que eles afirmam. Para se rir de alguém por essa pessoa ter a pele negra, é pressuposto que quem ri acha inferior a pessoa ter a pele negra.

A lógica da Concessão, todavia, parece funcionar apenas quando os que foram “aceitos” se mantêm em seus lugares sem fala afirmativa: na marginalidade. A partir do momento que passam a  ter voz, sem tutela, os ânimos se exaltam e,o que oculta o discurso da Concessão, aparece.

Sabemos que essa indignação e essa mobilização aos poucos estão sendo lideradas pelos setores mais conservadores da classe média e média baixa. Para uma grande parte dessas pessoas, não é a corrupção do Partido dos Trabalhadores o que move sua indignação. O lema“fora PT” apenas esconde o desejo de declarar : “fora analfabetos, vadias, imprestáveis – leia: pessoas com deficiência física e/ou moradores de rua -, pretos, traidores de classe (classe média branca letrada de esquerda)”. Por isso, o horror em se desnudar o que sempre esteve presente, só que sob o manto da cordialidade.