Chega o momento de começarmos a dividir o joio do trigo no campo das esquerdas e, também, popular-democrático.

O campo popular-democrático nem sempre é declaradamente de esquerda, mas, por defender direitos civis e sociais, se afasta – e até refuta – do campo liberal-conservador. Daí não grafar democrático-popular para não gerar confusões. Não se trata, portanto, de um campo desarticulado ou amorfo, desorganizado, mas amalgamado a partir de organizações populares, envolvendo lutas por habitação popular, saúde pública de qualidade, mobilidade urbana, direitos civis (gays, mulheres, étnicos, entre outros) e até experimentações culturais.

A esquerda possui, contudo, um projeto político mais acabado, orientado teórica e historicamente.

Portanto, esses dois campos se aproximam, mas não se sobrepõem.

O lulismo, em determinado momento, se apropriou do PT e avançou sobre o campo popular-democrático. Mas sua relação com as esquerdas brasileiras foi sempre tensa. A diferença principal foi a conciliação de interesses de classes que promoveu. Mas houve parte da esquerda que se incomodou com a tutela estatal sobre a sociedade, evitando democratizar as estruturas públicas – historicamente aparelhadas por interesses privados, em especial, de elites políticas e econômicas – e o processo decisório governamental.

O LULISMO É DE ESQUERDA?

De cara, portanto, é possível sugerir que a crise do lulismo não tem relação direta com as esquerdas, mas tem com o campo que aqui denomino popular-democrático. Por lutar por direitos, na medida em que estas demandas são atendidas, ainda que parcialmente, é natural ocorrer certo esvaziamento da energia moral da pressão que até então exerciam sobre governos. Abre-se, assim, a possibilidade de tutela dessas organizações ou até mesmo sua domesticação. À radicalização, o lulismo sugeriu a leitura – sempre conservadora – da “correlação de forças”, esta medida mágica, sem base concreta de análise, quase sempre privilegiando as instâncias parlamentares e institucionais de representação política para medir o peso entre forças partidárias. Mas não foi apenas o freio discursivo que vingou. Foi a própria lógica etapista empregada pelo lulismo, muito mais próxima da cultura do PCB dos anos 1950/60 que propriamente do petismo. O etapismo sugere o avanço gradual, por etapas longas e seguras, das reformas estruturais que ampliariam direitos e a própria participação popular nas estruturas estatais.

O LULISMO É PETISTA?

O fato é que o lulismo foi um retrocesso à agenda e lógica petistas. O PT sempre se declarou socialista e democrático. Sempre repudiou o trabalhismo – em virtude, justamente, da tutela popular pela vanguarda “morena” – e o burocratismo soviético. O lulismo, ao adotar a agenda rooseveltiana como seu DNA programático, sustentou a coalizão ou pacto desenvolvimentista como condição básica para sua sobrevivência. A conciliação de interesses já foi tentada nos anos 1950 e gerou a crise aguda do segundo governo getulista. Mas, Lula insistiu. E deu certo, inicialmente, em virtude de sua imensa capacidade política e fluxo farto de investimentos externos (e elevação de preços internacionais de commodities). Mas o vanguardismo lulista, a tutela social, levou o lulismo ao paroxismo de ditar candidatos estranhos às lutas sociais e até mesmo à base partidária como sendo os candidatos adequados. Foi uma cabal demonstração de força pessoal que levou no arrastão muitas lideranças petistas, históricas, que poderiam fazer sombra ao líder máximo. O desmonte das possibilidades de Marina Silva, Cristovam Buarque, José Dirceu, Palocci, Tarso Genro, Benedita da Silva, Marta Suplicy e tantos outros é bem conhecido dos que dirigiram este partido desde sua origem.

Portanto, a crise do lulismo é a crise da crença na conciliação de interesses, mas também na capacidade carismática de um personagem que galvanizou uma vanguarda partidária.

A CRISE DO LULISMO PROVOCA O CAMPO POPULAR

A crise do lulismo é, também, a crise parcial deste campo popular-democrático que, agora, se rearticula aceleradamente, tendo na figura de Guilherme Boulos sua expressão pública de mais fácil reconhecimento. Deixará, possivelmente, de crer na fragmentação das agendas e voltará para as ruas. Aliás, voltou hoje, bloqueando 30 rodovias para se manifestar contra o golpe temerista (e temerário). Voltará, em certa medida, ao final dos anos 1990, resistindo e agindo no confronto com o campo institucional. Na medida em que 92% dos brasileiros não desejam Temer como Presidente e somente 12% confiam no Congresso Nacional e 5% nos partidos políticos tupiniquins, a possibilidade de este campo crescer em volume nos próximos meses é razoável. Faltará a elaboração política para não cair nos mesmos erros e subordinações que toda idolatria carrega e estimula.

O PT, sem dúvida, é a parte frágil deste cabo de guerra. Se subordinou completamente ao lulismo e se transformou na ilustração acabada do que a literatura especializada denomina de “partido cartel”, totalmente dependente do Estado. Com efeito, sem o governo federal, o PT se desmontará porque não terá como alimentar sua militância com cargos públicos e sua base política e social com programas e financiamentos. A debandada de parlamentares e prefeitos é aguardada para logo após o impeachment se consumar, tendo muitos declarado que não seria honesto deixar a embarcação em momento tão agudo e difícil. Fernando Haddad, da corrente Mensagem ao Partido, já declarou aos jornais que o PT não será mais o partido hegemônico das esquerdas brasileiras, o que pode ser interpretado como admissão, mas também, como preparação de sua corrente para mudar de rumos. A atual direção nacional do PT se revelou a mais despreparada da história do partido, oscilando entre a omissão e a orientação irresponsável para o enfrentamento. Não soube promover uma leitura mais aprofundada e muito menos qualquer esboço de autocrítica. Continuou arrogante e abusou da autopromoção a partir do conceito mágico de “correlação de forças” e da lógica cabotina de afirmar que não teriam chegado ao poder se não tivessem mudado as orientações históricas do partido. Ficará difícil, agora, se safar da explicação sobre a mais profunda crise em que o partido mergulhou tendo suas convicções e opções como pano de fundo. O PT, para continuar existindo, terá que se refazer. E Lula, para continuar sendo liderança nacional, terá que se subordinar às esquerdas, já que sua coalizão faliu e o traiu. Sem a chave do Estado, terá poucos argumentos para convencer PSB, PP, PSD, PRB e, muito menos, o PMDB.

AS ESQUERDAS E A LIÇÃO DE CASA

Restará a esquerda. Mas, qual esquerda? Uma certeza une a todos deste campo: a conciliação de interesses não possui base histórica e cultural para se sustentar no Brasil. O empresariado tupiniquim e parte das classes médias sulinas preferem a luta de classes nas ruas, com panelaços, apitos e patinhos como armas preferenciais,em virtude de sua cultura estamental. Não suportam a mobilidade social

Mas, esta certeza é pouco para unir as esquerdas.

Há diferenças importantes, nunca aprofundadas a partir dos anos 1990. Uma delas é a tradicional divisão entre partido de quadros (e o papel das vanguardas) e partido de massas.

Daí derivaria a lógica participacionista e a reforma democrática do Estado brasileiro. Em parte, este dilema esteve presente nos primeiros três anos do governo Lula. A partir de 2006, a opção participacionista foi descartada, o que promoveu a saída dos expoentes da igreja católica progressista, tendo Frei Betto e Ivo Poletto à frente.

Não há, nas esquerdas, um acordo nítido sobre a leitura de nossa atual formação social, nossas características culturais e comportamentais. Somos uma nação rica e profundamente desigual, dotada de uma cultura popular conservadora, mas que rejeita o Estado Mínimo e a agenda liberal-conservadora na área econômica. Uma nação majoritariamente religiosa, sincrética e que rejeita o conflito como princípio, valorizando a ordem. Não crê em organizações políticas e acredita que o jogo partidário é um jogo de elites, vocacionadas desde sempre à corrupção. Daí não valorizarem a luta contra a corrupção, desde que o governante os promova socialmente e garanta um mínimo de esperanças de dias melhores para sua família e comunidade. Trata-se de uma cultura cautelosa, heterodoxa e comunitária. Fundamentalmente comunitária. As esquerdas brasileiras raramente discutiram esta realidade a partir de suas próprias pernas. No passado, empregaram esquemas interpretativos alienígenas, como a fantástica convicção de termos resquícios feudais num país que nasceu durante o mercantilismo.

Esta prestação de contas com o passado e um mergulho na realidade popular do nosso país terão que ser feitos. No momento, contudo, as esquerdas serão obrigadas a redefinir o papel do campo institucional como campo de luta prioritário. Deverão crescer no Rio de Janeiro, em São Paulo e Rio Grande do Sul. Haverá resistência petista em Minas Gerais e Bahia. Mas a referência não serão os partidos, em minha avaliação. Serão os movimentos sociais e as ações das organizações populares, de lutas sociais. O alimento das esquerdas, portanto, não serão seus partidos, mas o confronto de rua e a resistência ao governo Temer/PSDB.

As esquerdas, portanto, parecem ter uma reserva moral a ser explorada, mas, sem o PT como partido de massas e de referência popular, terão que assumir a responsabilidade de se alçarem para além deste papel de médio protagonismo político no Brasil.

O próximo período será de crescimento gradativo e crescente das reações populares, lideradas pelas organizações do campo popular-democrático. Mas haverá, ainda, esta tarefa de uma leitura mais profunda dessa última década e meia, dos erros cometidos e da compreensão da profunda mudança social e cultural que o lulismo promoveu no país. Não se trata de bater no peito e retomar as teses do século XIX ou início do XX. O “aggiornamento” à esquerda não se fará pela promoção do passado.

Tarefas árduas em meio à batata quente pululando no colo da direita e dos setores mais retrógrados e elitistas do país que assumirão o governo meio que deslumbrados. Este “bloco histórico” de direita nunca conseguiu promover políticas estáveis em nosso país. Não me parece que será diferente na tentativa Temer/PSDB. E, a partir daí (possivelmente já em 2017), as esquerdas serão novamente chamadas para dar sua contribuição para superarmos as mazelas históricas desta que é a 8ª potência mundial e que possui um IDH-D deplorável (o IDH ajustado à Desigualdade), abaixo da média da América Latina (estamos na 75ª colocação no ranking do IDH, entre 188 países, com índice de 0,755, acima da média da América Latina, que é de 0,748 e considerado alto, mas perdemos 26% do IDH quando corrigido pela desigualdade humana, nos posicionando abaixo da média da região).

A direita nunca soube resolver este dilema do desenvolvimento, apenas sugerindo políticas para o crescimento econômico. Caberá à esquerda, mais uma vez, apresentar um programa que enfrente esta vergonha nacional. Terá que estar preparada.