– Nome.

– Isto foi uma palavra, uma afirmação ou uma pergunta?

– Como?

– Pareceu que você queria fazer uma pergunta. Mas sei lá, ficou meio estranho. Não entendi que ponto usou no final da frase.

– Não estou entendo, senhor. Poderia ser mais claro?

– Eu só quero saber que ponto usou no final da frase, amigo. Saca?

– Saca?

– Saca, sacou, captou! Todos verbos transitivos direitos, entendeu? Quem saca, saca alguma coisa. Só quero saber que ponto usou no fim.

– Ponto? Que ponto, meu senhor?

– Ponto de interrogação, ponto de interjeição, ponto de exclamação, qualquer ponto, oras. A gramática está cheia deles. Ainda acho que era pra ser uma pergunta. Só não entendi direito. Pela situação, tinha que ser uma pergunta, mas faltou aquela entonação característica de frases interrogativas. Ficou estranho, já disse. Entonação, colega. Entonação.

– Desculpe-me, senhor. Não entendo aonde quer chegar. De qualquer modo não posso agir em conluio com sua brincadeira, a fila atrás está enorme. Daqui a pouco tem gente reclamando. Preciso trabalhar.

– Conluio? Apelou, perdeu. Não tinha necessidade alguma de me esnobar com uma palavra dessas. Além do mais, como alguém que diz conluio não sabe entoar um ponto de interrogação? É algo simples. Até meu sobrinho da quinta-série que hoje me pediu pra levá-lo no circo no final de semana sabe fazer a entonação do ponto de interrogação certinho.

– Senhor, eu gostaria que fosse menos digressivo e respondesse apenas à pergunta que lhe fiz.

– Digressivo? Tá pegando pesado, hein? Quer me esnobar porque sou pobre? É isso? Dá processo, sabia? Mas tudo bem, tudo bem! Doravante Gildomar Alves Castilho.

– Doravante é seu primeiro nome?

– Não! É uma palavra.

– Palavra? Quando diz doravante, o senhor estaria, por acaso, se referindo ao advérbio que significa “de agora em diante”? Desculpe-me, senhor, mas, caso tenha feito, preciso informar-lhe que o fez de forma errada, fora de contexto.

– Não sei. Não sou professor de gramática, nem durmo com dicionário ao lado da cama pra impressionar como alguns por aí. Usei mesmo pra não ficar por baixo. Você que começou com esse papo de “conluio” e de “digressivo”. Também sei palavras complicadas, apesar de não saber onde colocá-las. Frequento a TV escola do meu bairro. Quer dizer, frequentava. Do jeito que o Temer tá cortando todos os investimentos, acho que terei que estudar por conta própria. Sou pobre mas sou esforçado.

– Senhor, pedirei novamente que pare com suas brincadeiras. Responda o necessário. Apenas o que lhe pergunto e, se possível, seja o mais rápido que puder em suas respostas. Rua.

– Cara, você é muito ruim. Fez exatamente igual à primeira vez. Perguntou de novo sem qualquer entonação. Você não sabe a diferença entre um ponto de interrogação e um ponto final? Nem aquele cigano, o tal Igor, da novela Explode Coração, conseguiria ser tão ruim. O chato disso tudo é aceitar que o cara que não sabe usar um ponto de interrogação ainda fica tentando me esnobar falando “conluio” e “digressivo”.

– Senhor, apenas me diga o nome da rua. Por favor!

– Indumentária.

– Rua Indumentária?

– Não, não. É que lembrei de outra palavra complicada, mas confesso que também não sei o significado. Mas não importa. Dois a dois. Estamos empatados até agora.

– Dois a dois o quê?

– Dois a dois: conluio e digressivo contra doravante e indumentária. Estamos empatados. Ou vai dizer que indumentária não vale? Era só o que me faltava. Você, além de competir quer ser juiz. Querer dizer quais são as palavras que valem e as que não valem. Isso é bem coisa de brasileiro quando tá no poder mesmo.

– Senhor, se não colaborar, pedirei aos seguranças para retirá-lo do estabelecimento. Como já havia lhe falado, a fila está grande, e se o senhor não me deixar trabalhar não conseguirei fazer meu serviço dentro do tempo previsto. Já tem gente olhando com a cara ruim pra mim.

– Okay, okay. Não precisa ameaçar. Mania besta essa das pessoas ameaçarem as outras por qualquer motivo. Vou responder do jeitinho que você quer, mas fique sabendo que foi você quem começou com essa história de ficar falando palavras difíceis para impressionar.

– Rua.

– Vou responder por educação, até porque sei que é mais velho e minha mãe sempre disse para eu tratar os mais velhos com respeito. Mas que isto, de novo, não foi lá uma pergunta, não foi. Faltou novamente a entonação a que me referi na primeira pergunta. Mas deixa pra lá. Enfim, Travessa Barão José Eleutério, número quarenta e dois.

– Essa fila anda ou não anda? Já faz mais de dez minutos que esse rapaz está conversando aí e nada de resolver alguma coisa. Termina logo com isso que eu tenho mais o que fazer. Alias, todo mundo aqui deve ter mais o que fazer do que ficar assistindo uma discussão idiota sobre gramática.

– Vai começar você também? O que é isso agora, um complô? Eu acho melhor você ficar na sua e não se meter onde não foi chamado. Deixa que eu me entendo com o seu professor aqui. Já estamos quase terminando.

– Que complô o quê rapaz, eu quero é ir pra casa e você atrapalhando o andamento da fila com essas perguntas idiotas. Se estivesse respondendo apenas o que estão lhe perguntando desde o começo, já estaríamos todos livres.

– Mas olhai aí, rapaz! Não é que temos um pastorzinho aqui na fila? Com direito a sermão e tudo mais? Qual é a tua, seu doutor? Não vem com esse oratório brabo pra cima de muá não, que hoje eu não tô a fim de ouvir desaforo. Minha mulher disse que tá menstruada há dezoito dias e que não tem nada a ver com gravidez. Nem sabia que isso acontecia, mas o negócio lá em casa tá feio. Tô subindo em parede de azulejo com os pés melados de graxa.

– E eu lá tenho alguma coisa a ver com a sua vida íntima, meu rapaz? Eu quero que essa fila ande para que eu possa dar continuidade ao meu trabalho. Então, desocupa logo o atendente, por gentileza.

– É melhor o senhor ficar na sua, seu pastor. Ou vai encarar?

– Mais respeito, garoto. Eu não estou ofendendo ninguém. Já disse que quero apenas que o senhor termine logo seu atendimento.

– Vâmo lá fora, doidão. Eu vou te mostrar a palma-das-cinco-pontas-que-explode-coração.

– Palma-das-cinco-pontas-que-explode-coração?

– É, cara. Pai Mei. Kill Bill 2. Tarantino. Ainda não viu? Em que mundo você vive, cara? Não sabe o que está perdendo. Filme naipe de Oscar. Pena que não ganhou nada. Acho que aquilo é tudo máfia. Não gostam muito do estilo do Tarantino.

– Senhores, por favor. Parcimônia. Não há necessidade de uma briga a essa altura do campeonato. Somos todos adultos e civilizados. Deixa eu terminar o atendimento do moço que falta pouco para concluir. Quanto mais vocês ficarem quietos, mais rápido será o atendimento. Idade.

– Parcimônia? Já começou de novo? Você está querendo mesmo uma confusão, não é? Ainda por cima não usou entonação de novo. Chega! Quem não quer mais conversa agora sou eu. Vamos aos enfins. Troca logo este aparelho para eu poder ir embora e…

– Trocar? Trocar o quê, meu senhor? Do que você está falando?

– Trocar: substantivo trocar. Sou pobre, mas conheço a gramática quase muito bem. Já disse que frequento a TV escola. Trocar é quando você tem um algo e troca por um outro algo, seja lá qual for o motivo. É simples. Eu vim trocar este walkman que comprei há apenas duas semanas e já deu defeito. Nem liga mais essa luzinha verde aqui.

– Senhor, esta fila não é para reclamações, muito menos para troca de mercadorias. Esta fila é para cadastro de clientes. E outra coisa, “trocar” não é substantivo: é verbo.

– Encarnou mesmo o papel do professor, né?

– Desculpe a correção, amigo. Não foi minha intenção. De qualquer modo, essa não é a fila de trocas.

– Essa não é a fila de trocas? Putz! Foi péssimo. Desculpe o incômodo que causei aí, seu professor. Desculpa aí, gente. Fui.

– Até que enfim. Próximo.

– Ah! Só mais uma coisa: “herético” e “fariseu”. Empatado e já virado. Sabia que os cultos da igreja ainda serviriam de alguma coisa. Flamengo!