Antes de tudo, quero afirmar que não sou a favor de culpabilizar mulheres, já que todas somos vítimas do mesmo patriarcado, mas nesse caso o termo está sendo usado como retórica.

Por outro lado, não dá mais para aceitar mulheres que se fazem de cegas e surdas em pleno século 21, como estão tantas Marcelas!! Com a democratização das informações que temos hoje, não reconhecer a necessidade da luta contra a opressão do feminino é se fazer de morta (pior do que se fazer de egípcia).

Mesmo que ainda sejamos correprodutoras dos comportamentos que sustentam a desigualdade de gênero, somos nós, as mulheres (cis e trans), as agentes principais dessa mudança.

Portanto, entendo hoje como obrigação de cada mulher a luta interna e externa contra todos os tipos de desigualdade de gênero e seus instrumentos de opressão, como é o caso do machismo.

TODOS.

Marcela Temer não é apenas bela, recatada e do lar, mas signo (ativo) da idiotização do gênero feminino que se submete ao papel de incapaz para funções além das designadas pelos homens.

Uma esposa que tem como marido um pronunciador das barbaridades medievais como as que Temer propagou no 8 de março recente sobre a mulher, e não se opõe a esse discurso (não é porque é esposa que não possa ser discordante), é corresponsável pelas consequências sociais e culturais que esse discurso sustenta.

Mulheres que apoiam a propagação da imagem de que o feminino é menos capaz para funções públicas, atividades profissionais de qualquer espécie, estão assinando atestado de burrice e contrato de submissão. Não só por elas, mas por todas nós.

Pior, estão ajudando a minar todas as batalhas seculares das mulheres e do feminismo.

Enquanto houver um modelo de recatada do lar, sustentado pelo patriarcado, haverá argumento para o gênero masculino subjugar todas as mulheres fora desse modelo.

Marcelas Temer não são responsáveis pela morte e violência contra as mulheres, porque essa responsabilidade é exclusivamente do homem, mas seus silêncios são um importante sustento desse massacre diário.

E aí, Marcela Temer, você não vai falar nada?

E aí, Marcela Temer, você não tem opinião própria sobre o direito de igualdade de gênero? Não ouvi seu pronunciamento!!!

Quem não se opõe à opressão colabora com ela.

Cada mulher tem o direito de escolher que atividades quer exercer na sua vida, inclusive de recatada e do lar. Mas essa escolha é de âmbito privado.

Porém, todos e todas somos agentes públicos (querendo ou não) e nossas escolhas privadas nunca estão desassociadas do resultado delas no coletivo. Imagine na função de primeira-dama de um país!!

Além do que, a mulher que escolhe passar a vida lavando a cueca do marido tem que ter consciência de que nem toda mulher quer fazer o mesmo, e o sistema de desigualdade de gênero não permite outras opções para além das domésticas.

Não vou nem entrar no mérito de que lavar a cueca do marido não é uma escolha realmente, mas apenas a aceitação do sistema de opressão. Estou supondo que seja uma escolha apenas para garantir até pra essas mulheres o direito de fazerem o que acham que querem.

Quando digo que o sistema não permite outras opções, quero afirmar que as diferenças salariais e todos os demais desrespeitos e preconceitos que as mulheres enfrentam no mercado de trabalho são uma forma efetiva de proibição da expansão da mulher para além do domínio doméstico. Portanto, não me venham dizer que as mulheres são livres para trabalharem no que quiserem porque liberdade não é nada além de uma palavra quando está desassociada do conceito de direito.

Se não há direitos iguais, não há liberdade de escolha.

Na verdade, quando Marcela foi reduzida à tríade de bela, recatada e do lar, já poderia ter se pronunciado contra essa redução de suas capacidades.

Mas será que as Marcelas se sentem reduzidas quando colocadas na função única de belas esposas?

Claro que não. E tudo bem. Pra elas.

O que não é admissível é que uma mulher numa função pública do porte da primeira-dama permita a propagação desses discursos de diminuição das nossas capacidades e consequente redução das nossas oportunidades.

Na função pública, Marcela Temer deve representar os interesses de todas as mulheres do país e servir de voz para a luta contra a desigualdade de gênero.

E aí, Marcela Temer, você é Mulher ou mosca-morta?