O momento histórico que vivemos é de grande ebulição, principalmente no Brasil – ou melhor nos Brasis. Se de um lado há o poder-mercado e o poder-Estado, cada vez mais cínicos, de outro há resistência: consciente, organizada, mas também involuntária.

Eu costumo ser uma pessoa otimista.  Isso quer dizer que eu procuro sempre ressaltar as conquistas em detrimento dos fracassos. É claro que é fundamental manter a crítica afiada, mas também considero muito importante (re) conhecer que a ebulição que vivemos nesse Brasil de 2017 é porque do lado de cá – da Esquerda – se procura politizar temas como o racismo, o machismo e as desigualdades sociais. Esse debate político – e sobre o político –, que contrapõe e questiona, é o que me interessa e o que procuro valorizar.

No entanto, há uma esquerda que não valoriza, e às vezes nega, isso que estou chamando de “resistência politizada”. Essa negação, quase sempre, vem associada ao discurso que acusa uma outra esquerda de “não estar fazendo nada” para mudar o Brasil. Esse discurso produz alguns efeitos, um deles é o sentimento de culpa dentro da Esquerda.

 A culpa é um sentimento estudado por diversos campos dos saberes. Na psicanálise, por exemplo, a culpa é tida como um sentimento fundador da civilização. E a Esquerda brasileira me parece um bom vetor para produzir culpa na própria Esquerda, por meio de observações e críticas constantes dirigidas aos “seus” militantes, apontando sempre sua suposta incapacidade de cumprir com as exigências de uma idealização de mundo internalizada, de uma conduta política específica a ser seguida. Talvez ao escrever sobre isso, eu esteja praticando aquilo mesmo que estou criticando, mas não posso deixar de mencionar o grande risco que existe em mobilizar o sentimento de culpa como uma tentativa de fazer esse “outro” reagir. E aí vem a questão: já não estamos todos agindo?

Dentro do que chamamos de Esquerda, há esquerdas, e uma delas tem insistido em funcionar como vetor de culpa dentro da Esquerda. Uma certa esquerda que acusa: “vocês não fazem o que deveria ser feito”, parece querer civilizar o indivíduo ou o grupo a partir da repressão de suas próprias capacidades pessoais. Quando se exige que o Outro, que só pode ir até certo ponto, alargue esse ponto, o que se está fazendo, afinal?

Há um princípio do prazer que é de realizar aquilo que se deseja, e há o princípio de realidade, que é realizar aquilo que é possível. Talvez quando essa certa esquerda culpa uma outra esquerda, isso seja um sintoma da sua própria incapacidade de se realizar enquanto Esquerda. Quando ouço da esquerda: “vocês não estão fazendo nada, vocês não têm um projeto revolucionário”, eu me pergunto: quem disse que não há nada sendo feito? E todos esses movimentos empoderados: estudantes, jovens, negros, mulheres, trabalhadores, sindicatos, movimentos sociais, intelectuais, mídia-ativistas? Não há um “corpo social” mobilizado no mundo todo e, inclusive, no Brasil? E o que foi construído para que chegássemos até aqui? E os debates, e os confrontos, e a politização sobre o capitalismo? Não estamos fazendo nada?

A acusação é uma maneira de imputar a culpa no outro. A culpa como mecanismo regulador, a qual pode inibir a destruição da Esquerda, do mesmo modo que ela pode inibir a sua construção. E nesse momento histórico brasileiro, me parece que o sentimento de culpa que a esquerda produz para a própria esquerda inibe a vontade de construção. Essa esquerda que “aponta o dedo” gera, mesmo sem intenção, sentimentos de desamparo e de desânimo.

É através do sentimento de culpa que a cultura domina a nossa inclinação à agressividade. O sentimento de culpa nos debilita, nos desarma. Aí vem a direita e “cuida” desses sintomas, com seu arsenal de ilusões de bem-estar social.

Acho que a Esquerda precisa também aprender a cuidar da Esquerda.