Dos anos 1980 para cá, não existiu no Brasil um instrumento de transformação que colaborasse tanto para a afirmação da juventude pobre e negra quanto a cultura Hip Hop. É através de suas vertentes – Grafite, BBoy, DJ e MCs – que crianças, adolescentes e adultos começaram a conhecer parte de sua verdadeira história e identidade.

O cenário em que vivia o negro nos Estados Unidos – nas questões sociais – se assemelhava, em alguns aspectos, com o dos jovens que residiam nas periferias brasileiras. O completo descaso do governo, sua exclusão da sociedade e a violência, tanto policial quanto entre os próprios jovens, foram fatores preponderantes para o fortalecimento da cultura Hip Hop e, principalmente, do rap pelos brasileiros na década de 80.

Contudo, o negro no Brasil ainda se encontrava em uma situação de desvantagem perante os norte-americanos. Lá eles já haviam experimentado o empoderamento popular (Black Panthers – Panteras Negras) das lideranças comunitárias que confrontavam diretamente o sistema e o homem branco e que incitavam o negro a conhecer a própria história, o que seria primordial para que ele aceitasse sua identidade e se orgulhasse disso (Marcus Garvey, Malcolm X, Martin Luther King). Todos do século XX. Lá as Leis Jim Crow vigoraram até 1965, um ano antes começava a ditadura brasileira. Aqui não tínhamos referências recentes, nossa história foi omitida e o negro foi relegado a escravo e selvagem.

Até o surgimento do Hip Hop no país, era muito difícil vermos os jovens terem orgulho do cabelo Black, da pele escura, da roupa larga, do linguajar dos guetos, de si mesmos.

“A juventude negra agora tem voz ativa”. Esta frase, de 1992, é de Mano Brown, dos Racionais Mc’s, e representa a voz dos entrincheirados nas mazelas sociais do nosso país, que só passou a ser ouvida quando os jovens se apropriaram da cultura Hip Hop, tornando suas vertentes em ferramentas para a disseminação de mensagens que pregavam o empoderamento do negro e da comunidade e a sua posição na sociedade. O rap contribuiu significativamente para que os moradores das áreas devastadas pela ganância do opressor entendessem que o local em que moravam e a situação de miséria que enfrentavam eram um crime.

Personagens históricos mantidos no anonimato, como Zumbi dos Palmares, Malcolm X, Martin Luther King, Rosa Parks, Alex Haley, Che Guevara, entre muitos outros, só chegaram ao nosso conhecimento por intermédio da cultura Hip Hop, principalmente do rap.

A cultura Hip Hop é de resistência ao sistema, à indústria cultural, é um estilo de vida. Ela está viva e mais atuante do que nunca. As mentes pensantes nas quebradas de nosso país foram, em sua grande maioria, moldadas pelos ideais do hip hop.

Este foi o primeiro capítulo sobre uma série de textos voltados à cultura hip hop e sua história. Nas próximas edições, abordarei suas vertentes e como cada uma delas é de suma importância para resgatar vários jovens do caminho das drogas ou do crime. Também traçarei um paralelo sobre o rap e o Brasil, mostrando as transformações do país através das crônicas ritmadas.