Não sou mãe. O fato de eu não ter, nem nunca ter tido filhos me torna incapaz de conhecer o sofrimento de uma mãe enlutada. Ainda que eu me compadeça honestamente da sua angústia, continuarei não fazendo a menor ideia do quanto dói uma perda desta proporção. Por outro lado, também não vejo coerência em beatificar as atitudes de qualquer mãe enlutada pelo simples fato de desconhecer sua dor.

Há um caso que tem me intrigado muito desde o dia que começou a repercutir. É o da morte do neto de um humorista que, de acordo com o que foi divulgado, havia feito uso do chá do Santo Daime algumas vezes. Muito se especula sobre os motivos da tragédia, considerada misteriosa.

Intriga-me também o que vem acontecendo posteriormente ao fato. A mãe do rapaz está, agora, indo atrás de relatos de pessoas que passaram por experiências ruins dentro desta religião e buscando agregados para se unirem à sua causa: assinar uma petição que tem como finalidade exterminar as igrejas que fazem uso da ayahuasca (devidamente regulamentada em lei para fins religiosos) e proibir os rituais ao redor do Brasil. Em outras palavras, ela está tentando cercear a liberdade de crença alheia. Ora, relatos de experiências ruins encontramos em qualquer religião. Sobretudo no tão disseminado cristianismo. Ou nos esqueceremos dos milhões de inocentes presos, queimados e torturados pelo catolicismo?

Compreendo o ressentimento que a perda de uma pessoa jovem causa, mas não compreendo a tentativa de reduzir a fé do outro a pó. Acho justo que, num momento tão delicado, ela ataque a religião e aconselhe aos seus que não participem – essa opinião merece respeito! -, mas não acho justa a tentativa de impor esse desejo a todo um país. Há um consenso entre os daimistas de que não se deve fazer uso do chá fora dos rituais, pois isso significa desrespeitar o propósito do rito. Há também um alerta aos recém-chegados: você não deve tomar o chá caso tenha algum histórico de transtornos mentais, ou um problema psiquiátrico, ou, por algum motivo, faça uso de remédios controlados. Se o rapaz porventura ignorou essas recomendações, a responsabilidade é dele, que desfrutou de seu livre arbítrio, e não daqueles que conduzem as igrejas que ele optou por frequentar, tal qual acusa a mãe. Trata-se de um adulto de 25 anos de idade, saudável, segundo os relatos inicias. O suficiente pra ter ciência de seus atos e se responsabilizar por eles.

Assim como a imensa maioria de nós, ocidentais, fui criada dentro do cristianismo. Estudei em um colégio da rede Salesiana por oito anos, onde a felicidade sempre se fez regra, e o que perdura é a gratidão por tudo o que vivi e aprendi. Lá, me ensinaram a amar a Deus e a conhecer Jesus – figura da qual tenho, hoje, ampla consciência se tratar de uma personagem criada pelo imaginário popular e moldada para atender as demandas do inconsciente coletivo.  No entanto, ainda que consciente de se tratar de uma personagem – de uma representação talhada e retalhada ao longo dos séculos -, nutro admiração e respeito por ela. Mas, ao longo da vida adulta, veio a inescapável necessidade de buscar alternativas. Transitei por cerca de oito religiões, passei por elas brevemente e não permaneci em nenhuma. Entre elas, o Santo Daime, na qual pude viver o novo e atingir novos e contraditórios estados, os chamados “estados de alma”, que vão da contemplação ao medo.  O medo de se deparar consigo mesmo, tão presente e vivo em todos e em cada um de nós. De se enxergar de modo pleno, sem a necessidade de se olhar no espelho, sem fugir de quem se é. Tive medo de encarar meus monstros internos, minha fragilidade, meu trauma vindo da infância. Mesmo depois de adulta, de anos morando sozinha, sabia que havia algo em mim que precisava ser resolvido. Um trauma íntimo, pessoal e intransferível, e pelo qual simplesmente não havia culpados. Esse meu trauma o Daime curou. Entendi seus motivos, encontrei suas causas, seus porquês e os afins.

Não sou daimista, nem pretendo me tornar, mas sou grata à religião pela experiência que me proporcionou. Assim como sou grata a todas as outras por onde passei. Inclusive às experiências ruins; são as que mais ensinam. Sou grata sobretudo ao cristianismo, parte indelével de mim. Não tenho religião. Não pretendo ter religião, mas, parafraseando Milton, também não posso aceitar sossegada qualquer sacanagem com a crença alheia ser coisa normal. Não posso achar normal defenestrar a fé do Outro, aquele que me é inatingível. Não posso achar natural tratarem como uma “beberagem” aquilo que constitui a crença de alguém, como “enviados do diabo” aqueles que dão continuidade às raízes africanas, e por aí vai. Ser religioso não é nem nunca foi garantia de índole ou caráter, e da dicotomia entre o sagrado e o profano não há crença que se safe. Tampouco seus integrantes. A Bíblia, hoje, é usada como artifício retórico de qualquer discurso. Qualquer pessoa que a conheça um pouco e faça uso dela de modo racional e liberto de afetos-paixões, sabe que ela é capaz de alimentar as ideologias de gregos e troianos. Critico as religiões, sim, e continuarei insistentemente criticando todas elas. Mas há uma linha não tão tênue assim entre a crítica e o desrespeito, entre a crítica e a condescendência à defenestração. Como bem disse meu amigo Alexandre Périgo, “Todos são ateus com os deuses das outras religiões que não a sua.”. Ele complementa: “Eu sou ateu com todos os deuses e exijo respeito.” No meu caso, sou agnóstica, e não só exijo respeito, como exijo que tanto religiosos de todas as religiões quanto ateus sejam igualmente respeitados. O que não merece respeito é o fanatismo, o excesso, a exacerbação, que só podem desencadear intolerância. Se não há como estarmos todos certos, tampouco há como afirmar quais de nós estamos errados.

 Sou pelo respeito à pluralidade religiosa.

 Sou pela liberdade de culto!

 (Deixo aqui essa música de Milton para que os adultos, ao “balançarem”, não se esqueçam de agarrar nas mãos do menino, e se lembrem da importância de resgatar a pureza que vive nele, adormecida nos porões da alma. Para que sejam complacentes e não se contentem com a maldade, pois isso seria compactuar com ela. Para que aprendamos a lidar, sem guerras, com as adversidades da vida adulta)