Foi realizado um fictício programa Roda Viva no Dia Internacional de Atenção à Gagueira, em 24 de outubro. Os convidados vieram de diferentes tempos, desde Moisés (1592 a.C. – 1472 a.C) até Saramago, que morreu em 2010. Todos eles estão vivos (na memória), já que o programa foi ao vivo.

Marilyn Monroe, que foi gaga, ficou no centro da roda para entrevistar os convidados. É a única mulher da turma, seguindo a tradicional proporção de mais homens com gaguez em relação às mulheres. Atualmente, no mundo, 1% da população é gaga. O Brasil segue essa porcentagem.

No começo, Marylin enfatizou que gagueira não tem graça, tem tratamento. Mas foi com bom humor que um vídeo publicitário na Índia fez sucesso no mundo todo. Conta a história de um gago que queria fazer comédia stand up. No Brasil, foi uma brincadeira sem graça o comercial “Gaga” da Tigre. O Instituto Brasileiro de Fluência e o Conar retiraram da TV e internet.

Moisés opinou sobre um artigo de Marc Shell sobre a língua pesada de Moisés: “Deus, que é gago, escolhe outro gago para realizar os Seus planos”. Os planos do Shell deram certo. Era gago e se tornou professor em Harvard. Adota um estilo de fala bem pausado, palavra por palavra, frase e pausa.
– Comigo, disse o padre português Manoel de Nóbrega, não foi Deus, e sim a Igreja e a Coroa Portuguesa que me impediram de dar aulas na Universidade. O motivo foi a gaguez.

Em 1954, o jesuíta Nóbrega foi incumbido de catequizar índios no Brasil. Poliglota, realizou a minha primeira missa em Salvador. Depois, assumiu outras missões bem maiores, que exigiram liderança de pessoas na construção do Rio de Janeiro e São Paulo, liderando brancos e indígenas.

Hipócrates, considerado o Pai da Medicina até 377 a.C, veio ao século XXI para conferir os atuais estudos com pássaros mandarim brilhante, que têm a vocalização gaguejada. Hipo concluiu que esses passarinhos até suportam viver engaiolados, mas somente em pares ou bando. Sozinhos, não vivem bem nem na natureza. Podem morrer de solidão. Uma das receitas médicas para a gaguez é menos solidão, mais união.

Houve uma disputa de vaidade entre dois gregos da mesma época: 384 a.C. a 322 a.C. Não eram irmãos. O filósofo Aristóteles superou a gaguez e se tornou orador, mas sem alcançar a fama de Demóstenes, ainda hoje uma referência mundial na superação nessa área.

– Eu era o tipo de gago com cacoete. Levantava um dos ombros para conseguir falar. Quando resolvi me tornar o maior orador da Grécia, melhor do que Cícero, eu colocava pedrinhas na boca para melhorar a minha dicção. Diante do espelho, deixei a ponta de uma espada para baixo e encostada no meu ombro, que não levantou mais.

– Eu, imperador romano Cláudio, vivi bem até 54 anos depois de Cristo. Para não ser perseguido pela minha gaguez, fingi que era retardado e doente. Deu certo e eu pude me dedicar à literatura.  Ai, ai, se me atirarem pedra! Alguém conheceu a minha dor na voz para me julgar?

Não se julga o que tem múltiplas interpretações, rebateu o físico Isaac Newton, do século XVII. Sem histórias pessoais para contar, contou que conheceu uma gaga do século XX, totalmente antimatemática. Ela falava fluentemente, mas diante de uma pergunta que exigia resposta objetiva, travava a língua. Não conseguia pronunciar nenhum número. O mais engraçado foi na época da alfabetização. Newton não quis contar. Gagueira não tem graça, mas despertou interesse por um fato meio pornográfico.

“Conta, conta”, insistiu Marylin e os entrevistados, fazendo coro. Não há gagueira em coral de vozes. Newton prometeu contar no final. Por falta de registros históricos, Napoleão Bonaparte também estava sem relatos sobre como um gago conseguiu liderar um exército no século XVIII.

Marylin Monroe perguntou ao inglês Charles Lutwidge Dodgson se era verdade que ele mudou de nome para não pronunciar o difícil sobrenome. Com o pseudônimo de Lewis Carroll, o escritor de Alice no País das Maravilhas confirmou esse caso, mas desmentiu a maior facilidade de falar com crianças do que adultos. Dificuldade mesmo era conversar com o irmão, também gago.

Antes que Marylin perguntasse, Charles Darwin alegou que não teve tempo para trabalhar a evolução da espécie humana a partir da gagueira. Gago, mulato, pobre, epiléptico, autor de grandes romances, peças teatrais e contos, um dos maiores escritores do Brasil, Machado de Assis, também não teve tempo de lutar contra o preconceito em relação à gaguez. A fundação da Academia Brasileira de Letras exigiu muito do escritor. Porém, contou com tristeza sobre o comércio de escravos no século XIX. Os gagos valiam menos por esse defeito. Gagueira adquirida pela violência.

George VI não compareceu ao programa. Alegou que o filme o Discurso do Rei falava por ele. O primeiro-ministro Winston Churchill criticou e assumiu que contratava um ator para falar seus discursos políticos na rádio.

Pressionado, Isaac Newton contou sobre a menina que ele conheceu séculos adiante. Ela tinha mais fluência nas vogais. Chegou a alterar as letras do nome Sílvio para Olivis. Proparoxítonas eram mais fáceis de pronunciar, como Ródrigo e o apelido Betíssima (Roberta). E o fato meio pornográfico? Bem… não saía voz para aquela sequência ensinada na escola: “o rato roeu a roupa do rei de Roma”, mas ela falava fluentemente:“a vulva da vovó é verde.”

Saramago encerrou o Roda Viva com um depoimento real sobre a dor na voz: Aqueles que gozam da sorte de uma palavra solta, de uma frase fluida, não podem imaginar o sofrimento dos outros, esses que no mesmo instante em que abrem a boca para falar já sabem que irão ser objeto da estranheza ou, pior ainda, do riso do interlocutor.”