(Este é o segundo de cinco pequenos e informais artigos nos quais defendo que a razão pela qual a esquerda não consegue retomar o protagonismo político num capitalismo em crise são cinco adversários desnecessários e insuperáveis.)

Sempre visitava minha avó no interior de Minas. Entre muitas lembranças, está a da hora da Ave-Maria, quando podíamos ouvir ao longe a indefectível canção das beatas: “Com minha mãe estarei, na santa glória um dia… no céu, no céu, com minha mãe estarei…”

Amor materno, sentido pra morte, eternidade. Geralmente pensava: “é com isso que o comunismo quer competir? É sério? O que ele oferece em troca, pão?”

Alguém tinha que avisar aos camaradas que nem só de pão vive o homem.

A irmã de minha vó era uma dessas beatas. Beata, beata, beata. Ao contrário da imagem ateísta das beatas em geral, não julgava os outros nem era amarga. Era uma pessoa boa, boa, boa. Muito feliz, nunca a vi sem um sorriso sincero na face. Se vi, não lembro. Vivia em estado de beatitude. Era mãe de cinco: três filhas, um filho e um sobrinho, meu pai.

Ele, ateu convicto, a adorava. Morria de medo de que ela descobrisse seu ateísmo: não a queria atormentada com o destino de sua alma. Só o vi rezar na vida na casa dela. Era Ave-Maria, Pai-Nosso e o que mais viesse. Ao fim das orações, ela sempre olhava pra ele como quem olha pra um santo. Minha opinião? Ele rezava em vão. Ela sempre soube.

Meu pai não é um ateu “evangélico”, que acredite no ateísmo como boa nova que libertará a humanidade. Nunca fez proselitismo dele ou achou que a religião era meramente causa de guerras, controle social, culpa, repressão sexual e fanatismo.

Muito menos a ciência moderna. É firmemente estabelecido por dezenas, literalmente, de pesquisas descritivas em psicologia da felicidade que espiritualidade e assiduidade em serviços religiosos estão entre os maiores preditores de uma vida feliz.

Até Marx estava fora dessa. De todos os elementos da ideologia burguesa para criar uma ideia de unidade e mascarar o conflito de classes – judiciário, nação, raça, estado – a religião era o que Marx tratava de forma mais benevolente.

O “ópio do povo” era também “o coração de um mundo sem coração”. Onde se buscava a fantasia da realização de valores que o comunismo queria materializar.

Marx sabia que, ao contrário do que pensam os “teohaters”, religião nunca é causa de guerras. Guerras são fruto de necessidades econômicas ou de conflitos dentro do capital. Religião seria ideologia: parte do que se usa para justificá-las.

Mas o problema é que os marxistas difundiram na esquerda essa crença equivocada (e fatal) de que seres humanos só não vão para a luta política porque vão à igreja.

Isso não só é falso, como a verdade pode ser a oposta. Como disse Solzhenitsyn, materialistas são as presas prediletas de regimes autoritários. Esses, como acham que sua existência está limitada a esta vida, de forma geral costumam fazer qualquer coisa para preservá-la, assim como a dos seus, aceitando qualquer condição de sobrevivência.

Se é verdade que as religiões em geral, principalmente em democracias liberais, têm efeito alienante quanto às condições de exploração, também é verdade que, quando um regime totalitário se instala, são elas que sobram como última força que pode desafiá-lo.

Porque, ao contrário do materialista, o religioso teme “perder sua alma” ao se submeter ao “mal”, e está disposto a perder sua vida lutando contra ele.

Basta checar quem derrubou o regime comunista polonês, quem foi a resistência alemã contra Hitler, quem liderou o movimento dos direitos civis nos EUA, quem resiste ao regime chinês no Tibet, como se organizou a revolução americana, a revolução islâmica no Irã, a independência da Índia, a intifada e dezenas de outros exemplos. Há três dias, vimos a população turca enfrentando a pé tanques conclamada pelos auto falantes das mesquitas.

Não se trata de um juízo de valor sobre esses eventos. É um juízo de fato. É claro que a religião pode ser revolucionária. E, entre elas, nenhuma mais que o cristianismo. Ao contrário do que pensa a direita brasileira, não foi exatamente Marx que mandou o jovem rico vender tudo o que tinha e dar aos pobres para ganhar a vida eterna.

Confundir a tarefa do socialismo com a do ateísmo evangélico é fatal: o aumento do ateísmo na Europa veio junto com o aumento do consumismo e a derrocada do socialismo. O ateísmo não causou isso, mas também não causará a revolução.

Ao mesmo tempo, embora regimes socialistas raramente tenham perseguido a religião, tentar fazer a revolução contra o que traz coesão social, felicidade e sentido de vida e morte a quatro quintos da humanidade não ajuda muito. Na realidade, esse é o principal motivo pelo qual o mundo, hoje, ainda não é socialista.

Não se trata simplesmente de defender o laicismo e respeitar a religião. Trata-se de aliar-se a ela. Os valores do universalismo cristão são a maior força opositora hoje no ocidente à cultura capitalista. Eles condenam seu hedonismo, consumismo, materialismo, ganância, relativismo, individualismo, mercantilização dos valores e concentração de renda.

Evidentemente estão em conflito com as apropriações do conservadorismo sobre a mensagem cristã e as degradações pós-modernas irracionalistas neopentecostais.

Temos que distinguir os valores cristãos de suas apropriações distorcidas, para que coordenemos suas forças com as da esquerda. Essa aliança contra o capitalismo é não só possível, é vital, e deveria ser a tarefa revolucionária primária dos socialistas ocidentais.

Talvez você possa agora estar pensando que escrevo tudo isso porque sou uma pessoa religiosa. Sim, creio em Deus, e não, não sigo nenhuma religião organizada. Mas se é isso o que você está pensando a essa altura, não entendeu o ponto.

Ou talvez, simplesmente, odeie mais a religião do que ame a justiça social.

Ok, você até pode se dar a esse luxo. Mas a esquerda, não.