(Este é o quarto de cinco pequenos e informais artigos nos quais defendo que a razão pela qual a esquerda não consegue retomar o protagonismo político num capitalismo em crise são cinco adversários desnecessários e insuperáveis.)

Parece chocante tentar defender que a esquerda elegeu o universalismo como inimigo, pois ele é parte de sua natureza mais profunda.

De fato, qualquer tese que rejeite o universalismo por definição não é de esquerda, embora possa se apresentar como tal e parasitar suas organizações.

E é exatamente isso o que faz e representa hoje a força fragmentária do identitarismo.

Focados unicamente em interesses de grupos sociais específicos, vários setores de movimentos de lutas pelas minorias se descolaram da tradição liberal e marxista e passaram a ver o universalismo, que sempre pautou a luta da esquerda por igualdade legal e material para todos – mulheres, negros, índios e diferentes gêneros – como mais uma mera estratégia opressiva.

Esses setores negam a ideia de natureza humana, quer por um retorno a um essencialismo de gênero ou “raça”, quer pela ideia de que tudo é uma mera construção social, natureza humana inclusa. O resultado de ambos é a radicalização de identidades grupais.

Como esses movimentos sempre encontraram abrigo somente na esquerda foi ela que sofreu o efeito dessas novas teses fabricadas pela academia norte-americana.

Nos EUA destruíram rapidamente a esquerda a transformando em “New Left”, pouco mais que uma fragmentária luta por poder e afirmação racial, de gênero e de identidade sexual focada na diferença e não na igualdade do gênero humano.

O Brasil importou essa doença teórica esterilizando os institutos de ciências sociais – antes celeiros de novos quadros políticos – e dando a setores da esquerda um discurso radioativo de separação, desunião e ódio, a desabilitando como força unificadora popular.

Essa agenda produziu um contingente de classe média e média alta de progressistas narcisistas, que só se envolvem em causas de interesse próprio, indiferentes às condições da população em geral.

Quem conversa com esses militantes sabe o resultado. Eles creem que a opressão de gênero ou raça é mais importante ou determinante que a opressão de classe, isso quando aceitam a existência da última em algum nível.

Não têm nada a dizer sobre luta de classes, economia política ou os problemas cotidianos das cidades que afetam a todos.

Para eles “militar” não é lutar por justiça social, mas lutar contra o opressor ao lado, provavelmente um colega pobre que usou uma palavra de que alguém não gostou.

Sem nenhum senso de escala ou dosimetria, esgotam a boa vontade dos cidadãos em relação a essas pautas com alegações sempre mais radicais que lhes garantam alguma visibilidade acadêmica ou política, transformando o absurdo em prática discursiva.

Podem acusar um olhar de assédio, uma recusa de gordofobia, uma discordância de misoginia, racismo ou homofobia, ou uma opinião de opressão.

Aí, quando aparece um Bolsonaro, acabaram os substantivos e os adjetivos.

Todos conhecem as táticas desses grupos para se afirmar. São praticamente as mesmas que o fascismo usava para intimidar: injúrias, calúnias e isolamento social.

Mas a ação identitária, apesar de ser bastante expressiva e barulhenta, é pouco representativa mesmo nas minorias e nada persuasiva.

As pessoas de fora desse círculo autofágico se calam diante da exposição social, mas vão acumulando rejeição e ressentimento.

No caso do Brasil, o resultado é mais dramático porque, em matéria de costumes, temos um povo conservador.

Segundo o Datafolha, somente 3% dos brasileiros apoia ao mesmo tempo bandeiras como a flexibilização da lei do aborto, o casamento gay e a descriminalização do consumo de drogas.

Ao comparar isso com o barbarismo de teses como a de que todo homem é um estuprador ou as acusações de “apropriação cultural” pode-se imaginar o tamanho da desgraça política causada por esses grupos.

Porque quando um grupo só defende as pautas de seu interesse, ele só se isola. Mas quando defende pautas de agressão a grupos majoritários, o efeito é alimentar a reação fascista.

E assim, dia após dia, eles vão ampliando sua influência eleitoral.

Só que ela é, evidentemente, negativa. São uma bola de chumbo que derrota qualquer candidato majoritário identificado com eles, como vimos com Freixo, ou elegem proporcionais que são suas antíteses, como Holiday em São Paulo.

São a maior causa da onda Bolsonaro numa juventude sufocada pelo politicamente correto.

Esse é o resultado de tentar impor uma agenda sueca num país com os problemas da Índia, onde falta comida, trabalho, saúde e educação, e que é o décimo mais desigual do mundo.

Tudo muito conveniente para o capitalismo e seus órgãos de fomento acadêmico.

A política nacional deve ser pautada por um discurso sobre o bem comum, sobre o interesse de todos e não sobre “diferença” e interesses de grupos minoritários.

Algumas dessas pautas são legítimas e temos obrigação de materializá-las, mas não podem ser o foco retórico de uma esquerda que aspire ao poder executivo.

Apesar de rejeitar os excessos do identitarismo, o povo brasileiro rejeita fortemente o machismo, o racismo e considera que a homossexualidade deve ser aceita.

Mas não é com um discurso de identidade e diferença que minorias podem fazer valer suas pautas legítimas. Muito menos as ilegítimas.

Porque movimentos de identidade também podem ser adotados por maiorias. Quando isso acontece, o resultado é o fascismo.

O fascismo era um movimento identitário romano, o nazismo um movimento identitário ariano, a Ku Klux Klan um movimento identitário branco americano.

Hoje vários movimentos racialistas identitários surgem na Europa, são movimentos de extrema-direita e movimentos de maiorias.

Minorias só podem afirmar seus direitos através da luta pelo universalismo e pelo convencimento, não pela força ou pelo ódio, mesmo que justificáveis.

E isso pelo simples fato de que são minorias.