(Este é o último de cinco pequenos e informais artigos nos quais defendo que a razão pela qual a esquerda não consegue retomar o protagonismo político num capitalismo em crise são cinco adversários desnecessários e insuperáveis.)

O último moinho de vento contra o qual eu julgo que a esquerda resolveu irracionalmente lutar é a sua própria história.

Como essa não é, ao contrário de outras que expus aqui, uma opinião muito original ou polêmica, vou me concentrar aqui em lembrar alguns dados históricos que ilustram a estupidez desse comportamento.

Depois da queda do muro de Berlin a esquerda entrou numa espiral de autocrítica sem fim, assumindo, muitas vezes sem sequer filtro, o discurso do inimigo sobre si mesma.

Fala mais mal de si e de seus fracassos do que do capitalismo e seus fracassos.

Como se o capitalismo real fosse somente os EUA e seus fracassos sociais e não seus fracassos econômicos e sociais muito mais retumbantes na América Latina, África e Oriente Médio.

Como se a URSS em 1917 não tivesse participação de somente 3% da produção industrial mundial, e em 1937 10%. Já em 1975, atingiu 20%.

Como se o liberalismo econômico não tivesse destruído o PIB Russo em 62% entre 1991 (U$ 517.963 bi) e 1999 (U$ 195.906 bi) e entregado os bens do estado para a máfia.

Só para comparar, o socialismo entre 28 e 87 o fez crescer, segundo a CIA, em média 4% ao ano, mesmo com a devastação da segunda guerra. Mais que os EUA.

Já o capitalismo fez o antigo bloco soviético amargar um crescimento médio de 0,67% desde 1990, diminuindo sua expectativa de vida.

Como se a China hoje não tivesse um salário médio maior que o brasileiro e, aprovadas as reformas trabalhistas aqui, muito mais direitos e garantias.

Como se Cuba, mesmo sendo uma ilha rochosa bloqueada economicamente, não tivesse há seis anos atrás, antes do colapso brasileiro, já uma renda per capita por paridade de poder de compra ainda mais alta que a brasileira, mesmo tendo perdido metade do PIB durante os 90 com o colapso da URSS.

Como se a Europa não fosse o pináculo da civilização, da riqueza e da justiça social justamente porque os partidos socialistas e social democratas europeus nela construíram um gigantesco estado do bem-estar social redistribuidor.

Não temos que defender regimes autoritários ou suas atrocidades para reconhecer seus méritos econômicos e sociais.

Nem precisamos esconder alguns fracassos econômicos de regimes socialistas.

Mas precisamos de novo em alto e bom som defender suas boas experiências.

Porque é assim que você joga o discurso do espectro político para a esquerda.

Ao contrário do discurso que se tornou hegemônico até dentro de nossas fileiras, o socialismo não foi derrubado fundamentalmente por fracassos econômicos, mas por ter surgido em países pobres que para não serem aniquilados tiveram que enfrentar uma corrida armamentista contra os países mais ricos do planeta.

E os detiveram por mais de setenta anos.

Ao contrário do discurso da direita, o capitalismo é um grande fracasso, não tanto econômico quanto moral, psicológico, espiritual, democrático e ecológico.

Se salvou onde foi temperado com socialismo, como lembrou Antônio Cândido.

Assim, defender a experiência histórica da esquerda é defender os sucessos sociais e econômicos de regimes de esquerda passados, mas também os que mantém estados fortes e redistribuidores hoje, como a China ou a Escandinávia.

Todos os países mais ricos e felizes do mundo, assim como os que mais crescem, são frontalmente contrários à ditadura do mercado e destruição do estado.

E se são os liberais e conservadores que chamam esses regimes de socialistas, quem somos nós para o negar?