A Folha de São Paulo realizou em 28 de novembro um debate em que se perguntava qual seria o futuro da esquerda no Brasil. Tarso Genro, Vladimir Safatle e Breno Altman se revezaram na mesa para desatar este nó. Dentre algumas diferenças, algumas convergências importantes de diagnóstico: o lulismo foi a primeira experiência que catapultou a esquerda ao protagonismo político nacional; sua configuração, contudo, não foi marcada por um projeto programático de ruptura com o modelo político ou mesmo econômico, embora tenha enfrentado o programa neoliberal ou ultraliberal de então; a ampla coalizão e a escolha da conciliação de interesses tornaram o lulismo opaco ideologicamente; seu sucesso popular esteve atado ao mercado de commodities.

Não houve consenso sobre o esgotamento ou não da configuração da democracia liberal, de natureza representativa, ou de sua captura pelo sistema financeiro, o que denotaria a possibilidade de sua recuperação para um projeto de democracia popular e inclusivo, se afastando da lógica plutocrática atual. Contudo, a rejeição mundial ao sistema liberal em curso estaria polarizando ideologicamente uma grande porção do planeta, abrindo espaço para candidaturas políticas radicais. Aqui, o consenso é que mesmo as vitórias eleitorais recentes da direita se deram numa vaga de insatisfações populares com a agenda inaugurada em 1990 e (que) prometia a Pax (Paz?) Social e o fim da história. Todos sustentaram que a forma partido caduca aceleradamente.

Enfim, estaríamos vivendo um impasse, uma transição sem final nítido. Nesta esteira, a esquerda foi apresentada como numa das encruzilhadas mais definitivas. Safatle recordou que o modelo partido de toda esquerda tende ao centralismo e à hegemonização. Debelaria, assim, a possibilidade de navegar sobre o que denominou de “descontrole criativo”, sem a necessária unidade forjada a partir de um centro formulador ou uma vanguarda. Tarso Genro empregou outro termo para nomear a demanda autonomista deste século: “modo de vida conscientemente orientado”.

Enfim, a fragmentação da base social contemporânea não corresponderia mais ao modelo de representação cativa, validada institucionalmente a partir de um sistema cartorial que se legitima pela crença – hoje, em crise – da representação fiduciária, aquela que se faz pela confiança (de) que o representante conseguirá defender interesses e pautas difusas e espraiadas por amplos e complexos territórios sociais.

O que parece ser mais importante perceber é como o político e a representação se apresentam como muito mais significativos para as esquerdas contemporâneas que a agenda econômica, como se apresentava no final do século XIX e por quase todo século passado.

Por qual motivo ocorre esta substituição de ênfase? Porque os modelos e estruturas de organização econômica estão em suspeição. Não há mais garantias da viabilidade e sustentabilidade do fim do mercado ou mesmo do monopólio estatal do mercado. Na própria esquerda, já ocorreram debates intensos sobre a razoabilidade da proposta de organização híbrida sugerida pelos socialistas utópicos. Também não há garantias sobre o retorno do modelo socialdemocrata de financiamento do Estado de Bem-Estar Social ou Estado Providência. Por outro lado, o mercado produtivo tipicamente capitalista parece sangrar com a voracidade do capital financeiro volátil.

Enfim, não há modelos seguros a seguir quando o tema é economia. Apenas os extremos ideológicos parecem ter certezas.

Mas há sinalizações claras sobre o desejo popular em relação à sua exigência utilitarista e autodeterminante. A noção de reflexo espelhado do sistema de representação parece coisa do passado. A desconfiança é generalizada e o Brasil recentemente deu um sonoro recado nas urnas. Ao menos, metade do eleitorado cravou no “não voto”.

Assim, em termos de urgência, é o campo da estrutura representativa ou da decisão política pública que parece indicar algum rumo.

E nisso, nada mais inadequado que a tentativa da esquerda caminhar para o centro, disputando a aliança com quem não tem projeto político ou cuja estratégia de sobrevivência é a venda de seu voto e apoio provisório ao partido majoritário em troca de irrigação de sua base eleitoral atomizada.

A esquerda lulista, ao final, foi ao centro. Pescou por pouco tempo. E se lá permanecer, será tudo, menos esquerda.