“Mas, aqui, as pessoas só interessam na medida em que representam categorias econômicas, em que representam relações de classe e interesses de classe. Minha concepção do desenvolvimento da formação econômico-social como um processo histórico-natural exclui, mais do que qualquer outra, a responsabilidade do indivíduo por relações, das quais ele continua sendo, socialmente, caricatura, por mais que, subjetivamente, se julgue acima delas.”

Marx, Karl. O Capital: Crítica da economia política. Prefácio da 1º edição.

Não sem um certo desespero, ouvia-se, no sombrio mês de março, o seguinte prognóstico de parte da esquerda apegada à permanência de Dilma Rousseff no poder: as progressivas concessões do Governo aos interesses do grande Capital tornam inverossímil a adoção da radicalidade do impeachment (Vide Levy, pré-sal, lei antiterror, etc.). Há de ser um mecanismo de pressão! No limite, nada há nas intenções de um Governo neoliberal que o PT não estivesse disposto a executar para defender suas trincheiras políticas.

Mas eles avançaram, intrépidos! E a atual timidez de Eduardo Cunha nos faz pensar que toda aquela agressividade não lhe pertencia tão autenticamente: como bom executivo, assumiu provisoriamente a coragem daqueles que tem uma retaguarda poderosa. E a blitzkrieg cunhista passou, de instantâneo, ao Jaburu! Divisão de tarefas; etapas em curso.

Mas voltemos: avançaram por quê? Era realmente necessário? Afinal, qual gatilho ativou a irresistível agressividade do Capital a um Governo que, aflito, restava sob seu jugo?

A necessidade!

As crises cíclicas do Capital, modus operandi único de um sistema cuja reprodução se esgotou há pelo menos 4 décadas, demandam uma série de reformas abertamente agressivas à classe trabalhadora. O ódio reacionário que ora grassa no Brasil, sem dúvida, é encorajador, mas não estamos mais em 1960: a modulação da ditadura burguesa para um estado militar tem seus obstáculos. E isso é obra do próprio neoliberalismo.

Entre seus projetos, pretendia adormecer os embates ideológicos dos 150 anos pré-1990 com o consenso social de uma homogeneidade do progresso. As diferenças qualitativas que matizavam as economias (1º, 2º e 3º mundos, etc.) foram substituídas pela ideia de meros desvios quantitativos logo superáveis – a noção de emergente ou país em desenvolvimento atende a essa alteração do discurso hegemônico. Havia, ademais, a incongruente associação entre dinâmicas políticas totalitárias (como as que vicejaram nas décadas de 1960 e 70) com o projeto de uma sociedade desregulamentada. A Constituição de 1988 consagra a aposta de um progresso indefinido graças ao consenso subjacente de horizonte único dentro da ordem burguesa. O inconveniente é que ela relaciona esse suposto consenso à validação [ainda que formal] da política por meio do voto popular.

Faca de dois gumes: ao mesmo tempo que desarma –  enquanto narrativa – a luta de classes, coloca obstáculos a ações rápidas de salvação ao Capital, precisamente em situações de emergência de suas crises. É o preço do fim das ideologias…

Nessa conjuntura, cumpre adotar ações enérgicas, abertamente antipopulares, delicadas para agentes cuja existência política atrela-se ao jogo democrático-burguês, como é caso dos antípodas PT e PSDB. Com efeito, ainda que Aécio Neves tivesse vencido o pleito em 2014, seu dever de casa com o grande Capital teria uma lentidão inevitável, considerando seu vínculo, ainda que remoto, com as urnas. Estas, apesar de frágeis, ainda guardam algum elemento de pressão sobre os agentes políticos do Capital: exige que suas manobras sejam sorrateiras e seu discurso tenha de convencer o eleitor de que o seu interesse coincide com o do grande Capital. Esse esgarçamento da percepção tem seus limites, e a crueza das crises econômicas sempre a colocará em xeque.

O que fazer, então? Precisa-se de um agente sem vínculo com o voto popular (ainda que de qualidade questionável). Alguém que consiga conjurar um exército de anônimos políticos, capazes de acionar, num curto espaço de tempo, os mecanismos necessários para que o Capital se reproduza nessa difícil conjuntura. Eis Michel Temer, o agente anônimo por excelência! Aquele que, já na posse, anuncia que pretende sair da frente política tão logo sua missão, de pouco mais de dois anos, tenha se encerrado. Trata-se de um golpe tático: a adoção de um estado de exceção para a aprovação célere de medidas urgentes às classes dominantes.

Nada mais apropriado! Sem o vínculo das urnas, Temer e seus anônimos, qual uma milícia política, poderão disparar contra os interesses populares e democráticos todas as medidas julgadas necessárias para que o grande Capital e sua plataforma ideológica possam prosperar (e assim agradam às bancadas da Bíblia, da bala e do Boi).

Se os Governos Lula e Dilma não tocaram, nem de perto, as raias de um projeto socialista, é inegável que caminharam significativamente no sentido de um Estado de bem-estar social, e facilitaram o fortalecimento político de grupos historicamente desfavorecidos. Precisamente, são esses os dois alvos principais: uma nova ofensiva neoliberal sobre o trabalho e os recursos naturais brasileiros e, ad hoc, uma ofensiva conservadora sobre uma sociedade que começava a se democratizar.

Dois anos? É tempo suficiente para uma milícia decidida, bem coordenada por um partido de anônimos como o PMDB. Parece uma escolha hábil. A entrega do job, que deve redefinir as posições dos grupos sociais às posições históricas a que estiveram presos, e a atualização do Estado brasileiro às últimas diretrizes das demandas do Capital internacional, serão coroadas com as eleições de 2018, quando, já com o terreno limpo, o próximo agente político (quem quer que seja!) trará ao consenso geral a ideia de que o jogo democrático permanece estável, tendo vivido apenas um ajuste pontual. A luta de classes, então, encerrará mais um de seus já numerosos capítulos; e pelo andar da carruagem, sem que um de seus contendores, a classe trabalhadora, sequer tenha se dado conta do nocaute.