Tudo é e possui História.

As más ideias, neste caso, não são exceção.

Disponha-se a investigar e fatalmente encontrará obras, documentos e vestígios diversos que condensam marcos inaugurais ou permanências do pathos de um tempo. Ou mesmo pathos atemporais.

Assim ocorre com as persistentes teorias científicas que se baseiam na existência de correlações entre características físicas e valores morais. Tais teorias encontram-se verbalizadas tanto nos almoços de domingo do século XXI– “ele tem cara de criminoso”, diz, eventualmente, o tio de convicções duvidosas- como bem documentadas historicamente, remetendo principalmente ao século XIX.

Por ser um dos pilares da intolerância que persiste, vale conhecer uma das sistematizações pioneiras deste tipo de -má- ideia. Para tanto, retornemos no tempo até o trabalho do polímata vitoriano Francis Galton e seu estudo sobre os chamados retratos compostos.

Galton alinhava-se com as ideias evolucionistas de seu primo Darwin e demais colegas ao afirmar que o mundo vivo não consiste em uma repetição de elementos semelhantes, mas sim em uma variedade interminável de características. A prevalência ou desaparecimento destas características se daria pela ação da seleção adaptativa. Uma característica útil para determinado espaço e tempo poderia não ser útil para outros.

A partir desta noção de variabilidade e diferenciação entre espécies e entre os seres de uma mesma espécie, admitia que:

  • a riqueza intelectual e moral de uma nação seria resultado da variação multifatorial dos talentos daqueles que a compunham, sendo o oposto do melhoramento considerar todos os membros de uma nação como pertencentes ao mesmo tipo.

  • em todas as raças de animais domesticados, como os humanos – estes com a particularidade de sofrerem mudanças mais rapidamente-, há elementos de pouco ou sem nenhum valor, potencialmente danosos para a sociedade, seja por questões ancestrais ou por serem resultado de degenerações. Haveria possibilidade de erro neste julgamento, fazendo com que mais tarde algumas dessas características consideradas danosas se demonstrassem boas para o bem público. Mas estes erros seriam poucos e, se cometidos com o intuito do melhoramento da espécie, seriam justificáveis.

– características morais inatas, faculdades intelectuais e físicas estariam fortemente ligadas umas às outras.

Galton acreditava que essa imensidão de variações presentes na espécie humana – que afirmava serem por vezes tão sutis quanto numerosas- derivava de traços comuns, daquela que seria a fisiognomia representativa de uma raça.

Estas variações não seriam, no entanto, isentas de significado, já que estariam relacionadas com características morais e intelectuais. A fim de auxiliar na procura por essas faces essencialmente representativas, o terceiro capítulo de sua obra Inquiries into human faculty and its development (1883) é dedicado à explicação do método chamado composite portraiture – retratos compostos, em tradução livre. Tais seriam os princípios e passos do método:

  1. Coleta de fotos de diferentes pessoas a partir de ângulos iguais, bem como de mesma condição de luz e sombra (por exemplo, com a luz vindo do lado direito);
  1. Redução dos retratos ao mesmo tamanho, usando escalas a partir de pontos referenciais;
  • Superposição dos retratos (como folhas de um livro), alinhando partes de um rosto com as respectivas do outro rosto (por exemplo: olhos com olhos, bocas com boca). Após o devido ajuste, com auxílio da luz, duas bordas das páginas

eram grudadas, tornando-se uma espécie de livro;

  1. IV) Fixação do livro contra a parede de modo que pudesse mover as páginas e observar os rostos completamente;
  1. Focava firmemente uma câmera no livro, com uma chapa fotossensível dentro dela.
  1. VI) Começava a fotografar todas as páginas, sem mover a câmera, de modo que todas as fotos dos retratos fossem gravadas na mesma parte da chapa.

Permitia-se, assim, concluir qual seria o rosto “comum” entre os homens eminentes, de notáveis talentos, bem como quais seriam os traços típicos dos criminosos, por exemplo.

tamara

Dentre os objetos de seu estudo, estavam a fisionomia do Alexandre, o Grande, tal qual representada historicamente, bem como a de membros de famílias aristocráticas, a de membros de famílias vitimadas pela tuberculose ou a de tipos considerados criminosos.

Para encontrar os traços pertinentes à saúde, afirma ter combinado os retratos de doze oficiais da Royal Engineers, tirados especialmente para ele por aquele que chama de Lieutenant Darwin (patente equivalente a tenente, provavelmente de um parente próximo). Afirma Galton que havia traços em comum nos retratos dos oficiais, mesmo sendo oriundos de lugares diferentes da Inglaterra. Para além dos traços em comum, as qualificações corporais e mentais requeridas no processo seletivo forneceriam dados demonstrativos das semelhanças físicas e aptidões mentais, fundamentando as correlações que levaram à conclusão de que aqueles eram, portanto, os traços típicos das pessoas saudáveis.

O mesmo método teria sido aplicado para a análise de duas categorias de penitenciários, comprovando, para Galton, a veracidade da correlação. Abastecido com fotos de identificação fornecidas por Sir Edmund du Cane, diretor de prisões, acreditou ter encontrado traços distintivos entre os prisioneiros naquilo que seria “a mais triste desfiguração da civilização moderna”. Diz Galton que seria dificultoso o esforço de superação para prosseguir com a classificação dos criminosos, dada a aversão causada por seus rostos. Por fim, explana sobre o método, confessando o desejo de que fotógrafos amadores passassem a levar a tarefa de fotografar e classificar as variadas raças humanas seriamente. Não apenas por questões de curiosidade, mas por sua utilidade.

A técnica dos retratos compostos – cujo status científico era dos mais altos na época, mesmo que atualmente seja questionável – elucida, assim, formas muito específicas do fazer científico e suas permanências.

Das correlações caracteriológicas de Galton à busca incessante pelo agora chamado “DNA criminoso” não é um salto teórico ou filosófico tão distante, não obstante os argumentos carregados de boas intenções.

 É preciso tomar estes exemplos circulares – constantemente refutados e retomados- como alarmes que fazem soar a necessidade de reflexão no eterno combate ao determinismo sobre o fazer-se humano.