Conheci Maria Helena há anos. Pessoa muito discreta e séria. Mas, parece mais bem-intencionada que vocacionada para ser gestora educacional.

A entrevista que concedeu à Veja (como não leio a revista, o link chegou por indicação de um amigo) é inteiramente defensiva, sem nenhum tipo de conteúdo pedagógico ou estratégico claro.

Vou explicitar alguns erros da proposta do Consed e que foi absurdamente acatada pelo MEC, sem consulta alguma. Vou me ater às questões de natureza educacional:

1) A proposta tem como foco o mercado de trabalho. Porém, toda vez que o país pensa o mercado, o concebe abstratamente. Em várias experiências internacionais cujo foco é este, como é o caso do sul da Alemanha, o programa adota um conselho composto por técnicos do governo, sindicatos e representação empresarial dos segmentos mais ativos ou cluster regional. Este comitê reavalia o desempenho dos alunos (que recebem uma bolsa mensal e trabalham em algumas fábricas como aprendizes) e altera anualmente parte do currículo em função de inovações tecnológicas ou alterações de demandas por perfil de trabalhador. 70% dos jovens se encaminham para esta modalidade e não para o ensino universitário;

2) O anacronismo da elaboração é gritante. A composição das disciplinas e o perfil de professor que projetam na MP revelam uma concepção do Século XIX, elaborada por tayloristas como Joseph Mayer Rice. Rice sugeria desovar trabalhadores básicos (daí o primário, com quatro anos de duração), gerentes (daí o ginásio) e dirigentes e planificadores (daí o ensino universitário), tendo a matemática como disciplina mater e física, biologia, química e psicologia comportamental (para forjar o trabalhar industrial) como base curricular. O módulo-aula nasce desta hierarquização de disciplinas. Esta concepção de trabalhador de ação mecânica na produção morreu nos anos 1990. Mas Maria Helena desconhece. No modelo alemão que citei, há um núcleo central de formação humanista composto por sociologia, religião e história da Alemanha, para se ter uma noção da defasagem e pobreza da proposta do MEC/Consed;

3) A estrutura modular, originalmente formulada no Reino Unido, da maneira como está posta, é uma mera isca para atrair o estudante de ensino médio, dando-lhe a parca noção de autonomia na escolha. Falta, contudo, uma proposição ou justificativa pedagógica. Por que motivo o estudante com 15 anos escolhe uma ou outra carreira? Ele teria maturidade para tanto? Em quais estudos se baseiam para forjar tal proposta? Por qual motivo não foram destacadas as novas profissões, como programador de videogames, gastronomia, iluminador de eventos ou mesmo música e futebol, áreas de grande atração para jovens e demandadas pelo mercado?

4) Se o principal meio de comunicação e formação de valores entre jovens é o Facebook e outras redes sociais, por que a proposta foge por completo deste tema? Simplesmente por adotarem iscas para atrair o jovem? Lembremos que o Vozes dos Adolescentes, pesquisa da Unicef, revela nitidamente que os adolescentes não percebem utilidade alguma no ensino médio brasileiro para suas vidas, além de estar a anos-luz de suas práticas sociais e formas de sociabilidade. Em que esta reforma apressada, anacrônica e extemporânea dialoga com estas pesquisas (cito, ainda, as realizadas pela Flacso no Brasil)?;

5) Como o Consed se arvora no direito de sugerir alguma mudança se os secretários estaduais de educação amargam indicadores negativos em seus Estados relacionados ao ensino médio? Não seria prudente mais humildade e um amplo programa de consulta, além de um inventário de experiências exitosas? Por qual motivo se desconhece o que a Unesco identifica como experiência de destaque no Brasil (as Comunidades Educadoras de Contagem/MG), matéria de jornais brasileiros? Não seria um modelito atrasado que adotaram para alimentar a roda dos planos forjados por empresas educacionais?

6) Enfim, a proposta é temerária, frágil, inconsistente pedagogicamente. Veio de maneira atropelada, por segmentos que não parecem qualificados para dar soluções a problemas que eles mesmos não conseguiram superar. Uma concepção autoritária e arrogante para solucionar um problema grave da educação nacional. Quando se elegem governadores e eles indicam secretários da educação, não se dá delegação para que esses secretários se sobreponham a toda comunidade educacional brasileira, com suas incontáveis experiências no chão da escola e não nos gabinetes.

A entrevista de Maria Helena, infelizmente, depõe contra seu histórico de discrição e cautela. O que prova que interesses políticos marcados pelo açodamento levam currículos, pessoas e boas intenções.