Sabe aquelas quartas-feiras de cinza fora de época? Quase sempre as tenho e o pior de tudo, sem qualquer carnaval. São dias em que a ressaca já te acorda com um sopapo no pé da nuca que te amolece os dentes, talvez isso explique o horrível gosto amargo na boca que fica ali até o tubo de Colgate me livrar deste fel. Custo abrir os olhos e quando escancaro as janelas o sol voraz me invade o quarto, aí que lasca tudo. Por que o sol acorda tão cedo? Toalha. Banheiro. Evacuação. A tarefa seguinte é segurar o sabonete fujão em minhas mãos, enquanto meus pés equilibram meu corpo insone. Nem água fria ajuda. O bater de meu chefe na porta do quarto parece mais uma trovoada daquelas bem intensas em dias que meu amor abomina, Thor não é bem-vindo em casa.

Calço os tênis, pente no cabelo e óculos no rosto. Meus outros olhos e estou pronto pra mais um dia. Pauta de hoje, a mesma de ontem. Aliás, a mesma de todos os dias. Rotina. Saco!!! Entro no carro com outro par de olhos, esses escuros, afinal o madrugador Sol já está a pino no céu limpo de nuvens, o que sempre anuncia um dia de cão.

O suor vai escorrendo pela minha testa e levando com ele meu restinho de paciência. Microfone, câmera, pauta, entrevistado, autorização de imagem e carro de novo. Entre um posto de gasolina e outro sempre existe uma pausa pra molhar a goela com uma delícia maltada em frasco verde, estupidamente gelada. Fico imaginando o que estariam fazendo os shakes nos Emirados Árabes, em Dubai enquanto saboreio minha adorável Heineken. Eles, talvez estejam alimentando guepardos com carne de faisões albinos do oriente, vai saber.

Olho o roteiro emputecido e percebo ser o último entrevistado do dia. Só mais um. Minha carta de alforria. Consigo a pessoa. Vibro. “Motorista, toca pra casa, mas antes passe naquele velho mercado de sempre”. Compras feitas.

Ah, como desejei esta hora de chegar em casa e me deleitar com o prazer de tirar os tênis e me desfazer das calças jeans que me suam as pernas. “Desejo que você tenha a quem amar….” essa canção é linda. Agora é piscina e trago.
“Tchuááá´…. eita porra, água fria do caralho”. Meu desejo agora é abrir minha delícia enlatada, afinal, não é todo dia que compro a cerveja preferida da minha Vida pra degustar pensando nela. A sombra do coqueiro anão completa meu paraíso artificial. Ninguém me incomoda, com exceção do segurança e do cinegrafista que se aproximam pra pegar uma aba da minha felicidade.

A conversa deles não me incomoda, mas o tilintar das moedas na mão de Lucas me faz perder o juízo. Me sinto um velho ranzinza incomodado com o arrastar da sola dos sapatos de algum desavisado.
– Passe-me as moedas, Lucas.
– Cara, é a grana do meu pão de queijo.

Entrega as moedas mesmo assim.

– Veja estas moedas em minha mão. Qual seu maior desejo?

– Cara, eu sonho ser bem-sucedido na minha área.

– Que realize seu desejo… tchuaáááááá… níqueis se afogando na piscina dos desejos.

Lucas não sabia nadar. Já não tinha realizado seu desejo, não tinha esperança e agora nem sua merenda tem mais.