A cultura política brasileira é pobre e superficial.  De certa maneira, acompanha nosso sincretismo em quase todos os assuntos da vida coletiva, um forte ressentimento em relação a todas as autoridades públicas e uma profunda confusão entre interesses privados e a lógica pública.

 

Weber já dizia que a liderança de massas teria que ser dotada de três predicados: a paixão, para atrair e motivar seguidores; o equilíbrio, para admitir erros ou mesmo assumir a posição da maioria, mesmo que não exatamente coincidente com as suas; e a responsabilidade, que, muitas vezes, sugere omissões para não motivar reações em massa contrárias aos interesses públicos.

Richard Sennett já nos brindou com a projeção, já no final do século passado, do ressentimento privado como corrosivo da crença democrática (ver seu livro “O Declínio do Homem Público”).

No Brasil destes últimos anos, o espírito público foi trocado, de vez, pela imposição dos interesses imediatos, privados, sem qualquer senso de responsabilidade. O problema é que esta histeria hedonista e privatista popular – em especial, de nossa classe média sulina, profundamente despreparada para o mundo civilizado e para o contraditório – abriu as porteiras para o que há de pior em termos de comportamento político.

Nossos parlamentares votaram recentemente em nome de suas famílias, deixando claro que sua motivação não é a vontade do seu eleitor, ou os valores universais, mas o seu pequeno mundo particular, seu microcosmo de pulsões básicas. O mundo ficou pasmo e os editoriais de jornais, os mais renomados do planeta, não cansam de citar este vexame público.

Mas há, de fato, uma relação direta entre nossa baixa cultura democrática, o ressentimento privado e a intolerância com este comportamento farsesco e egocêntrico de nossos políticos.

Porque a cultura democrática prevê certo afastamento do imediato e a valorização da justiça como equidade, como nos ensinou Lawrence Kohlberg, este fantástica piagetiano, tão empregado nos cursos de Direito mundo afora. Temos que nos descentrar para sermos democráticos:pensarmos no outro e na validade dos interesses dos outros.

A relação direta que citei acima está num círculo viciante, que podemos assim descrever:

  1. A população pobre percebe o jogo político como jogo das elites, que pouco lhe diz respeito;

  2. As classes médias sulinas percebem nas políticas sociais distributivas um roubo de sua identidade estamental. Seus restaurantes, aeroportos, shopping centers são “invadidos” por seus empregados. Perde o que lhe define uma deferência social, conspurcando com o que acredita ser a meritocracia;

  3. A política se distancia do mundo real e cria um novo estamento, de profissionais do jogo político, refazendo, enquanto pastiche, a Corte do mundo monárquico. Como toda Corte, impera a troca de favores, as lealdades fluidas, o jogo de interesses, a farsa e as traições;

  4. Para os que não fazem parte do jogo da Corte, não resta o apoio popular, já que grande parte da população desconhece o mundo dos representantes como o seu. A população em geral só reconhece o mundo privado de suas comunidades e famílias, no máximo, das cores de camisetas daqueles que saem às ruas ou batem panelas em ondas bissextas.

Não há, enfim, saída democrática para um mundo de tantos jogos de interesses privados.

Nossa democracia foi capturada por este jogo de farsas.

E é justamente esta farsa que a grande imprensa estrangeira vem denominando de “golpe frio”. Porque, efetivamente, não se trata de interesse público, mas de ataque ininterrupto à lógica republicana (aliás, termo que também vem sendo capturado no Brasil, como sendo algo como “ceder à vontade do outro”, numa negociata permanente, sem lastro em valores universais).

O ataque é de tal monta que parte da imprensa faz campanhas diárias em vez de noticiar. Eliana Cantanhêde, da Globo News, no dia da decisão do plenário da Câmara de Deputados sobre a continuação do processo de impeachment contra o governo Dilma Rousseff, afirmou, olhando para a câmera que a filmava, sem ruborizar, que ainda não era momento de comemorar. Sua mensagem está gravada e disponível nas redes sociais. Mas, afinal, um jornalista é pago para sugerir comemoração em relação a um jogo de disputa politica? Desde quando? Interesses privados e particulares invadem o mundo profissional. Este mesmo movimento motivou ações ilegais do juiz Sérgio Moro, que quase contaminou todo o judiciário pela politização indesejada por qualquer jurista republicano.

A farsa é ainda maior com o processo de impeachment que envolve a pior legislatura federal de nossa história. Resumidamente: tomarão posse, em caso de impedimento da Presidente Dilma Rousseff, políticos não desejados pelos brasileiros. Michel Temer é refutado pela maioria dos brasileiros e, em algumas recentes enquetes, é mais rejeitado que a própria Presidente. O PSDB vem despencando nas pesquisas de intenção de votos. Grande parte dos políticos citados como centro do novo poder estão envolvida em denúncias de corrupção, quando já não são efetivamente réus. Trata-se de um jogo de sombras e efeitos especiais de políticos profissionais que tentam se livrar, a partir de negociatas amorais, do juízo que fingem pautar seu voto neste processo.

Vivenciamos a pior geração de políticos profissionais da história de nossa República. E, possivelmente, a geração de jovens menos preparada para o convívio social. Gente que só consegue reconhecer os iguais. Manifestam nas ruas o que alguns especialistas afirmam ser a lógica das redes sociais: o estímulo ao “espelhamento”, ou seja, a atração para só acessar informações e redes que dizem o que ele já pensa, sem diálogo, somente autoafirmação infantil.

Vivemos a farsa deslavada.

E, sejamos claros: democracia como farsa nunca será democracia de fato.