Quem já conviveu com alguém que “tem” uma ferida já deve ter notado: a ferida existe independente de notarmos a existência de quem a carrega. Médicos e enfermeiros cuidam “da ferida”. Familiares compram remédios e curativos para “a ferida”. Orientações, remédios, coberturas são prescritos para “a ferida”. Parece maluquice, mas facilmente vemos nossos colegas se referindo à ferida como um ser de identidade própria.

“Doutora, você pode avaliar uma ferida comigo?”  “A ferida está bem melhor!” Na verdade, a ideia é que a ferida fique cada vez pior! Quem tem que ficar cada vez melhor é quem a carrega por aí. Pois entendam essa maluquice toda através do relato de um caso que acompanhei.

PRIMEIRA CONSULTA:

“Doutora, eu estou morrendo. Há mais de 3 anos eu só venho emagrecendo. Não consigo andar desde que fui operada de varize. O médico estragou a minha perna. Depois dessa cirurgia eu nunca mais fui a mesma. E acabou abrindo uma ferida enorme na minha perna. Já passei de tudo, coisas caras,  coisas baratas… e nada adiantou. Tive alergia a tudo. Dá coceira, piora a pele, aumenta a ferida.”

“E quem está ajudando a senhora com esses cuidados?”

“Eu mesma que faço. Tem uma enfermeira que me ajuda.”

A sobrinha interrompe: “Doutora, ela não deixa ninguém cuidar. É ela que faz os curativos. A equipe de enfermagem deste posto já foi na casa dela diversas vezes e ela nem deixa elas entrarem. A ferida tá horrível. Cheira mal. O pé tá tão inchado que ela mal consegue andar. Eu já tentei trazê-la aqui diversas vezes e ela nunca aceita. Hoje eu não avisei que ela tinha consulta. Cheguei de surpresa, porque, se eu avisasse, ela acabaria arranjando uma desculpa. Meu coração fica partido quando vejo ela desse jeito.”

“Com quem ela mora?”

“Com 2 filhos. Um tem problemas sérios com bebida. Não ajuda. Pelo contrário, dá trabalho pra ela. O outro trabalha e cuida quando dá. É ela que, nesse estado, faz comida, lava roupa, limpa a casa. Tem dias que chego lá pra visitá-la e ela tá com a faixa toda molhada, lavando o banheiro. Tem dias que chego à tarde e vejo que ela não comeu nada o dia todo. Na minha opinião, ela tá emagrecendo por falta de comida. Já ofereci inúmeras vezes pra ela morar lá em casa. Lá ela teria comida a tempo e a hora. Eu e meu filho daríamos todos os remédios no horário, mas ela se recusa.”

“Não é que eu recuso, gente. É que eu tenho minha casa. Tenho minhas coisas pra cuidar. Meus meninos (meninos de mais de 50 anos), minhas plantas, meu quintal…”

“Ok, Dona Rebeca. Eu te entendo perfeitamente, sabia? Sei como deve ser difícil pra senhora tomar a decisão de sair de casa pra se cuidar. Mas, ao mesmo tempo, fico imaginando como deve ser ruim sentir dor, ter dificuldade para fazer suas coisas em casa, não conseguir andar, sair, passear…”

“Acho que não tem jeito.”

“Posso sugerir um começo para tentarmos reverter isso? Se depois a senhora não se sentir satisfeita, a gente revê os nossos planos.”

“Pode sim, doutora. Ela precisa melhorar.”

E assim foi feito. Exames, tratamento iniciado com internação hospitalar e continuado com a equipe de atenção domiciliar. Avaliação multidisciplinar: nutricionista, psicóloga, fisioterapeuta, enfermeira. Todas empenhadas. A família se comprometeu a melhorar as coisas em casa. Por algumas semanas, Dona Rebeca se mudou para a casa da sobrinha. Lá, se alimentava adequadamente. Conseguiu estabilizar os níveis de açúcar no sangue (que andavam altos). Os  remédios da pressão alta passaram a ser usados adequadamente, assim como os da depressão. Os cuidados com a ferida se mostraram cada vez mais eficientes. A cada semana eu recebia as fotos e mal podia acreditar no que eu via.

“Caramba! Eu sou foda! Minha equipe é foda! Como somos competentes! Olha o que a gente foi capaz de fazer!” Mostrava orgulhosa a evolução do tratamento para colegas, para meus amigos, pra todos da equipe… E de repente… não  mais que de repente, Dona Rebeca foi cortando meu topete e  mostrando o tanto que eu não sei de nada. Coberturas, ataduras, antibióticos, tudo parou de funcionar. Ela decidiu voltar pra sua casa e isso me deixou maluca: “Poxa vida! Logo agora que tá quase fechando a ferida. Logo agora que tava tudo tão certo!”

Eu havia me esquecido que a Dona Rebeca tinha vontade própria. Lúcida e muito inteligente, por sinal, ela decidiu desobedecer as orientações. Direito dela! E eu pirei. Voltei pra casa com essa notícia e sem saber o que eu faria com a ferida. Ou melhor, com a ferida da Dona Rebeca. Ou melhor, com a Dona Rebeca. Ou melhor, com a minha sensação de incompetência e impotência.

1 semana matutando… a ferida crescendo e a Dona Rebeca, a dona de si, a dona da decisão. A pessoa que decidiu parar de melhorar. Bingo!

Sim! Por mais esquisito que pareça, a Dona Rebeca havia decidido parar de melhorar. Decidiu voltar pra sua casa onde não comia direito, onde não deixava que os profissionais cuidassem dos curativos, onde passava o dia limpando e lavando. Ela decidiu. E ela tem esse direito. Sempre terá! Eu que me vire para convencê-la do contrário, ou que me acalme e aceite a decisão dela. A autonomia dela.

CHAMEI A SOBRINHA

“Paula, tive uma idéia. Dona Rebeca não quer mais melhorar. Acho que ela tá sentindo medo de melhorar.”

“Como assim, doutora?”

“Há 30 anos, a vida dela gira em torno desta ferida. As pessoas se preocupam com ela por causa da ferida. As pessoas dão atenção a ela por causa da ferida. E nós estamos indo pelo mesmo caminho. Estamos tirando algo que dá sentindo à vida dela. A ferida virou nosso único assunto. Precisamos mudar a nossa estratégia.”

“Mas como mudar? A ferida voltou a crescer.”

“Nós, como equipe, não vamos parar de nos preocupar com isso, mas os nossos diálogos com a Dona Rebeca não vão ter mais a palavra Ferida. Me passa o telefone dela.”

… “Alô, Dona Rebeca?! É a doutora  Júlia, tudo bem?! Pois então Dona Rebeca. Que coisa boa que a senhora voltou pra casa. Já recebi notícias que a senhora melhorou! Bom demais da conta! Então… agora que aquele esforço nosso deu resultado, nós podemos começar a nos preocupar com a senhora toda! Lembra que conversamos sobre o diabetes, sobre a pressão, sobre aquela angústia que a senhora falou que tava sentindo? Pois então, pensei em marcar uma consulta pra gente poder conversar um pouco. Que tal?”

E assim, vamos começar a cuidar da Dona Rebeca e, por que não,  continuar a cuidar da sua ferida, que é só uma parte dela e da sua infinita complexidade.