meu pai, Francisco Euclides [ele realmente detestava seu nome: “nome de segundo bailarino do Municipal”, dizia], foi o nervoso mais engraçado que já conheci: super calabrês, baixinho, gordinho, calvo e sempre muito, mas muito brabo, parecia o Aurelio, de “Amarcord”, mas sem o bigodinho – que, vez lá, até tentou usar, mas a Turca, que tinha as manha de aumentar a brabeza dele mandando muuuuito nele, achou horrorosíssimo, ordenou raspar, o que ele, muito brabo, mas temente à sua deusa, cumpriu.

certa vez, aos meus 16 anos, encasquetei de fazer tatuagem, com o que fui participá-lo da vontade/decisão, e deu-se o seguinte gládio:

– pai, vou fazer tatuagem. três, na verdade.
– me dá um pouco.
– do quê?
– desse tóchico [sim, ele falava “tóchico”] que você tá usando.
– paaaiii…
– fiiiiilho…
– é sério.
– claro que não é sério. mas, cáspita!, também não é engraçado, ou seja: papo furado.
– eu já trabalho, vou pagar com o meu ordenado.
– certo, mas não ganha o bastante pra tirar no dia seguinte.
– posso saber por que não, ou esta casa ignora a democracia? [eu tinha acabado de ler um perfil do Bakunin, da coleção “Grandes Pensadores”, e já me achava um anarquista pronto pra destruir “o sistema que nos oprime”]
– esta casa conhece e pratica a democracia, mas democracia não é falta de liderança, e a liderança aqui sabe que você tá meio pazzo, então prefere que você a odeie do que odeie a si mesmo, no futuro, por causa dessa merda. eu já me acostumei com você parecer uma carroça de cigano [eu usava colares, pulseiras e anéis para além do normal], então não me enche o cazzo.
– tudo bem. mas se prepare: quando eu tiver a minha liberdade, vou fazer não três, mas dezoito tatuagens.
– você não precisa esperar sua liberdade pra isso. vai preso, que você faz bem antes, e de graça.

isso tudo me ocorreu há pouco, dando um trato em minhas tatuagens [e, sim, tenho exatas três tatuagens], abalrroadas que estavam pela seca, quando concluí que Seu Francisco Euclides pode até ter errado no atacado – afinal, eu fiz as tatuagens quando pude e não me arrependi -, mas acertou no varejo: eu odiaria ver em meu corpo aquele golfinho imbecil, aquele dragão barangão e aquele medonhíssimo pôr-do-sol com gaivotas, hits das tattoos nos anos 80.

aliviaria o meu desgosto, certeza, apenas uma coisa: ele, com sua voz sempre alta, seus gestos muito largos com as mãos e seus esgares de vilão de fotonovela, manifestando pela coisa seu misto de contrariedade pessoal e indisfarçável contentamento de pai que vê em um de seus filhos o gênio forte que ele tanto se orgulhava ter.

saudade é um sentimento engraçado – em todos os sentidos possíveis desta palavra.