Dizem que a boa ciência se faz principalmente pela qualidade da pergunta inicial, para além dos métodos, técnicas e tecnologias empregados na investigação.

Dos métodos, técnicas e tecnologias estamos bem abastecidos; dispomos de tantos quanto existem estrelas.

A militante Ester Barbosa luta pelo direito ao uso compassivo enquanto mais pesquisas acontecem.

Já das problematizações iniciais inteligentes, bem, destas gravemente carecemos.  Sofremos de inanição, diria, já que esta implica não apenas a ausência do alimento, mas também a falta de capacidade de assimilá-lo.

O câncer condensa uma infinidade de questões – dos sofrimentos do corpo à plena e cruel insustentabilidade econômica-, constituindo um destes casos nos quais as problematizações científicas inteligentes urgem.  Mudanças de perspectivas são mais do que necessárias, dado que os paradigmas vigentes se demonstram gravemente insatisfatórios.

Sobre isso não é necessário argumento extraordinário: basta dar alguns passos pela ala da oncologia infantil de qualquer hospital para vivenciar um injusto inferno dantesco e, se houver mínima sanidade mental, perceber o quão urgentes são as novas soluções.

Décadas de inércia perante essas perspectivas capengas e insatisfatórias explicam-se pela brutal docilização e cinismo com que somos induzidos – e induzimos uns aos outros sem entender bem o porquê- a aceitar amputações e tratamentos quimioterápicos que beiram o sadismo (apenas beiram?) sem questioná-los. Não questionamos há décadas. Pelo menos desde a década de 70 do século passado, quando alguns fármacos passaram a ser recordistas históricos de lucros. Lucros estratosféricos.

 Lucros que sustentam justificativas já tão diluídas e aceitas que nos permitem amputar um membro com um estranho sorriso no rosto, não obstante os gritos internos de dor. Mas já não mais se grita: se o fazemos, somos acusados pejorativamente de histeria.

Mas não, não culparei aqui a conhecida conspiração das farmacêuticas.  Estas seriam apenas tentativas de conspiração se não encontrassem dentre nós fiéis e cegos soldados a bradar contra qualquer tentativa de mudança. Mesmo que sejamos soldados que com isso nada ganham. Pelo contrário: apenas perdemos. Perdemos partes do corpo, perdemos a vida, mas não perdemos a resistência às novas possibilidades.

Mas importa de onde vem a possibilidade: a resistência nunca é a mesma. Desconfiamos de uns, aceitamos docilmente outros. E assim, imersos em nós mesmos, bradamos instantaneamente a favor do hegemônico: é charlatanismo!

Neste labirinto aparentemente insuperável expôs-se um grupo de pesquisadores brasileiros com uma nova/antiga problematização sobre o câncer e seu tratamento.  Parecia que a etanolamina, uma amina primária, poderia ser parte da solução e não do problema perante os capciosos mecanismos que garantem a sobrevivência das células cancerígenas. Aconteceram novas sínteses, novas investigações, resultados satisfatórios e novas esperanças originadas dos mesmíssimos moldes e métodos dos mesmíssimos laboratórios hegemônicos: eis a fosfoetanolamina sintética, um composto que está sendo grande aliado na briga contra tipos de cânceres diversos. Um aliado definitivo para a vitória, em muitos casos.

A bizarra polêmica em torno da fosfoetanolamina tornou sua história conhecida. Os que bizarramente se colocam “contra” a fosfo urram sobre a falta de estudos sobre o composto. Os que a desenvolveram clamam para que eles sejam feitos. Clamam, inclusive, para que se prove que ela não funciona.

Nessa tarefa há realmente pessoas engajadas. Alguns investigadores ávidos pela sua destruição insistem, por exemplo, em estudar seus efeitos injetando-a em seres vivos e não ministrando via oral, como é exigido. E como seria mais inteligente. Mais perigoso, no entanto, pois corre-se o risco de vê-la prosperar e, assim, fazer com que finalmente enxerguemos a gravidade destas últimas décadas de tratamentos.

A parte racional da polêmica pauta-se pelas questões da bioética. Questões tão necessárias e tristemente tão esquecidas – inclusive por grandes laboratórios que conseguem a aprovação de quimioterápicos antes da conclusão dos estudos-, mas que vêm à tona quando nos convêm. É certo que os métodos rígidos vieram para nos proteger e foram mesmo vitórias oriundas dos movimentos sociais pelos direitos civis que se intensificaram após os horrores da 2ª Guerra Mundial.

Mas não sejamos tolos: os métodos que garantem o fim das cobaias humanas não são subvertidos pela fos. Assim fosse, não clamaríamos por estudos.

Mas estudos custam caro. Caríssimo. Diante disso as necessárias exceções da história da fosfoetanolamina vieram subverter os lobbies e não a ciência.

Que os ânimos se acalmem: o caos não está na fosfoetanolamina e no seu uso compassivo. O caos reside, pelo contrário, nesta falsa calmaria, se esconde atrás da cínica inércia perante a doença que mais matou e mata na História.

Na contramão de tantas mortes, a fosfo permite renascimentos. Não sabemos ao certo quantos ainda acontecerão e mesmo se a volta à vida se concretizará para todos. Vide o caso da tuberculose: é passível de cura, mas ainda mata. Mata, sobretudo, os que não têm acesso aos sistemas de saúde.

O que bem sabemos  é da concretude das vidas que foram recuperadas com o uso do composto. Isso existe e pela primeira vez é escancarado nas redes sociais, apesar dos pesares, apesar do ódio irracional que desperta.

Mas contra o ódio, a vida.

A vida de Bernardette Cioffi, Nathy Estevam, José Luiz Neves Morales Sanches, Larissa de Freitas, Telma Chaves, Maria Cecília Rovina, Esmeralda Cury, Lilly Gebien, José Luíz Zambon, Orlando Martins, Cristina Lage, Júlia Daron, Álvoro Bozo, Alcilena Cincinatus, Alda Maria de Souza, Wagner Euzébio, Pedro Ferraz, Israel Lotuz, Sebastião Torrano, Roberto Trocoli, Rômulo Barcelos Costa, André Luís, Maria Alexandrina Santos Clemente, Orlando Neves, Cris Muniz, Odete Baragão, Luiza Ignácia, Manuela, Raiani Berbel, Isadora Pimentel e tantos outros que nos agraciaram com suas curas e/ou nos ensinam com suas lutas.

Esta coluna é pra vocês.