A maioria das pessoas que gostam de futebol (e até os que não gostam) tem um time do coração. Ou vários. E os motivos que os levam a escolher um time ou outro são os mais subjetivos possíveis. Influência familiar, um vizinho chato que torce para o rival, um jogador em específico, a cor da camisa, um título, uma vitória, uma derrota, uma partida qualquer, é o time da cidade, é o time do bairro. Enfim, qualquer motivo é válido.

De qualquer forma, de tempos em tempos, surgem pesquisas, supostamente baseadas em sérios critérios científicos, que procuram identificar as maiores torcidas do Brasil e o perfil sócio-econômico dos seguidores dos principais clubes do país. Eventualmente, estas pesquisas servem para alimentar estratégias de marketing das equipes, mas servem, principalmente, para incentivar intermináveis discussões entre apaixonados pelo futebol. Mesas de bar, salas de aula, repartições públicas, ponto de ônibus, facebook, filas de banco, banheiros de balada. Qualquer lugar é lugar, para argumentar e justificar porque a torcida do seu time é maior ou menor, ou para questionar a pesquisa como um todo e dizer que a torcida do seu time é muito maior do que os números apontados. Clássico.

Mas existe um perfil de torcedor que passa ao largo destas discussões. É o torcedor de time pequeno. Seu time raramente é campeão, seu estádio raramente está lotado. Os “grandes feitos” de sua equipe são grandes só para ele e desconhecidos para a grande maioria dos torcedores das equipes “grandes”, e dificilmente, estes mesmos grandes feitos, são destaque nos grandes veículos de imprensa, no máximo, quando se trata de times do interior, são apenas destaque na imprensa local.

Torcer para um time pequeno é a mais sincera e genuína forma de amor que conheço. É fácil torcer para um time que frequentemente é campeão ou chega às grandes decisões. Mas como fica o torcedor do time que nunca ganha nada ou que vive em um limbo futebolístico, transitando entre divisões inferiores, subindo, caindo, sem jogos televisionados, sem pay-per-view, passando meses do ano sem ter um campeonato para jogar, lutando simplesmente, não por vitórias, mas pelo simples direito de existir?

Estes sim são torcedores de verdade, pois seu amor pelo clube não está baseado nas taças e conquistas que possui ou nos embalos de uma massa gigantesca de torcedores que o acompanha. É uma paixão gratuita que se baseia simplesmente no prazer de ver seu time jogar, não importa em que divisão ou campeonato.

O futebol, por mais que tentemos explicar, é irracionalidade pura e se fossemos tentar a analisar a lógica que leva esses abnegados indivíduos a torcerem por estes times “sem expressão”, poderíamos cair um abismo sem fundo, buscando explicações filosóficas, psicológicas, antropológicas ou históricas que fatalmente não nos explicariam que lógica é essa. Afinal qual a graça de torcer para quem nunca ganha?

Com certeza todos estes torcedores seriam capazes de nos responder esta pergunta, mas acredito, que mesmo assim, os torcedores das equipes “principais” dificilmente entenderiam a resposta. Seria algo como o primeiro encontro entre os europeus e os nativos americanos, um ficou tentando explicar o outro, e até hoje não chegaram em um consenso.

Mesmo assim, aconselho para aqueles que ainda não entenderam, mas que querem entender (e que evidentemente gostem de futebol), que dêem uma volta por ai, esqueçam um pouco as “arenas”, os “vouchers”, os telões e visitem alguns bastiões da resistência que ainda existem. Exemplos não faltam.

De certa forma, torcer para um time pequeno, é escolher sofrer. É saber que seu time colecionará mais derrotas do que vitórias. É muito mais lamentar gols sofridos do que comemorar os gols feitos. Mas mesmo assim, não mudar de time e continuar torcendo.

Em tempos em que as crianças torcem por times europeus em vez dos brasileiros, é gratificante saber que ainda existem torcedores dispostos a seguir equipes pequenas. Gratificante, pois por mais sem graça, frio e estéril, que o ambiente do futebol moderno tenha se tornado, é legal ver gente apaixonada de verdade pelo futebol. Eu mesmo, apaixonado pela minha, não tão gloriosa assim, Associação Ferroviária de Esportes. Por isso que digo que existe uma certa grandeza em ser pequeno. Duvida? Vá um dia assistir um jogo na “Fonte Luminosa” lá em Araraquara e depois me diga se estou certo ou errado.

Como já disse alguém, só não me lembro quem, das coisas sem importância, o futebol é de longe, a mais importante.