Foi a partir de 1872 que a província de São Paulo passou a receber os primeiros grandes grupos de imigrantes. A vinda destes trabalhadores pretendia suprir as necessidades de mão de obra nas fazendas cafeeiras, portanto havia interesse em trazê-los. Em contrapartida, os países de origem viviam crises econômicas e políticas, casos de Itália e Alemanha, que motivavam a emigração.

Mais de 40 nacionalidades emigraram para São Paulo entre o final do século XIX e início do XX. Contudo, no período entreguerras, houve grande declínio na vinda de imigrantes para o país. O trânsito de pessoas diminuiu radicalmente, principalmente na Europa – centro dos conflitos. Assim sendo, o governo do Estado de São Paulo pesou a necessidade em de substituir a mão de obra do imigrante europeu pelo nacional. As fazendas cafeeiras demandavam trabalhadores e a indústria paulista emergia, ainda que timidamente.

A solução encontrada foi a de trazer imigrantes vindos do nordeste do país. O governo paulista instalou um posto oficial de captação destes trabalhadores em Minas Gerais, às margens do Rio São Francisco, na cidade de Pirapora. Destarte, imigrantes vindos de diferentes partes do nordeste embarcavam em Juazeiro, na Bahia, e desciam o Velho Chico em grandes vapores até as Minas Gerais, de onde rumavam para São Paulo.

O embarque destes trabalhadores na Bahia originou o costume do paulista de generalizar e chamar a todos os nordestinos de baianos, o que desvela sua grande ignorância geográfica e  o desconhecimento da própria história, bem como a do país em que vive. O egocentrismo é característica predominante do paulista. São Paulo está para o Brasil, assim como os EUA estão para o mundo, ou seja, enxergam somente o próprio umbigo e ignoram tudo o que lhes é periférico.

 Os estados de origem da maior parte dos imigrantes nacionais que chegaram a São Paulo eram a Bahia e Pernambuco, assim como Minas Gerais. Imigrantes que  vieram a convite do governo bandeirante e foram força de trabalho imprescindível às fazendas de café e à indústria paulista emergente.

A cidade de São Caetano do Sul, que reconhece suas origens e influências marcadas pela presença do imigrante italiano, desconhece e, em alguns casos, rejeita o legado do grande número de trabalhadores nordestinos que para lá migraram e contribuíram relevantemente para (a) construção de seu polo industrial.

É a partir do ciclo do café que a província de São Paulo ganha os contornos da diversidade étnica que marca indelevelmente sua identidade. Contudo, alguns paulistas a ignoram. Assim como ignoram o racismo histórico, abarcado na obra do historiador Petrônio Domingues, “Uma história não contada: negro, racismo e branqueamento em São Paulo no pós-abolição”.

O paulista é xenófobo, preconceituoso e conservador extremista, sempre o foi. Claro que uso da generalização – propositadamente -, pois o objetivo é provocar reflexões sobre estas mentalidades obtusas. Há exceções, mas não há generalizações sobre nordestinos e descendentes também? Ora, se generalizações incomodam uns, certamente incomodarão os outros, assim, é preciso desconstruí-las.

A mentalidade paulista forjada historicamente é a de que o Estado é a “locomotiva” do Brasil. Mário de Andrade já usava o termo de maneira crítica e jocosa para desvelar a arrogância e prepotência paulista – vide Macunaíma. São Paulo enxerga-se como o centro produtor de cultura do país e subestima a valiosíssima diversidade cultural das regiões norte e nordeste. Ora, muitos paulistas desconhecem o conceito de cultura.

Aliás, quem é o paulista? Quais suas origens e raízes? Até isso é desconhecido nestas paragens. Originalmente, somos o resultado da miscigenação de índios e europeus, que mais tarde se misturou a outras etnias e nacionalidades. Essencialmente, somos fruto da diversidade.

O que quero dizer é que sou paulista. Sou paulista da gema, como muitos gostam de dizer. Mas não posso fechar os olhos para o que temos de pior, nossa mentalidade obtusa, desconhecedora da própria história e formação identitária. É preciso que estejamos abertos às reflexões sobre nossas verdadeiras identidades e não as forjadas historicamente.

Confesso que me sinto profundamente envergonhado, constrangido, enojado quando vejo um “paulista”” ofender quem quer que seja por suas origens. Devemos compreender que divisas e fronteiras são linhas construídas e pautadas em interesses políticos e econômicos, não são naturais. Portanto, somos todos um único povo, uma única raça: a humana.

Irmãos paulistas oriundos do nordeste, encerro este texto agradecendo profundamente sua enorme colaboração na construção deste Estado. Admiro imensamente sua rica cultura, que hoje é parte relevante de nossa identidade paulista, ainda que a maioria a negue. São Paulo é teu, é meu, é nosso.

Benjamin Guimarães, vapor que fazia o trecho Juazeiro-Piarapora – Foto: Cadu de Castro