Disse alguém que o futebol não é uma questão de vida ou morte, é muito mais do que isso.

O futebol sempre foi algo central na minha vida. Seja desde a infância quando sonhava jogar pela seleção, ou mais tarde, quando tive que me conformar, devido à falta de talento, em ser apenas um torcedor.

Se a glória dos gramados nunca me coube, procurei outras formas de me aproximar do jogo, juntando o futebol com outra paixão da minha vida, a História. O futebol deixou de ser apenas um jogo, uma paixão e passou a ser também um objeto de estudo.

E foi estudando o futebol cientificamente que comprovei algo que já sabia empiricamente. O futebol não é apenas um jogo. Ele é talvez uma das manifestações contemporâneas mais plenas de significados. Para o bem ou para o mal, o futebol é capaz de revelar o que há de pior ou melhor em cada um de nós.

Poucas coisas me doeram mais nos últimos tempos do que a imensa tragédia ocorrida com a equipe da Chapecoense. Já escrevi sobre este triste acontecimento aqui na Língua. Mas acontece que está difícil para mim, que sempre escrevo sobre futebol, escrever, no atual momento, sobre outra coisa senão a Chape. E por isso a necessidade de novamente tocar neste assunto.

Sei que posso parecer chato, repetitivo e até mórbido, mas não dá, eu preciso dizer ainda algumas coisas, não sobre o acidente em si, mas sobre as diversas manifestações de luto e apoio à Chapecoense feitas mundo afora. Foram muitos os minutos de silêncio nos estádios, os depoimentos nas redes sociais, os textos, os vídeos, sem falar do funeral debaixo de chuva. Homenagens não faltaram.

Foram momentos que revelavam, ao mesmo tempo, uma tristeza muito grande e um sentimento de esperança. O mais marcante destes momentos ocorreu em Medellín, no Estádio Atanasio Girardot, palco onde deveria ter ocorrido a partida entre a Chapecoense e o Atlético Nacional. No horário previsto para o confronto, as arquibancadas e arredores do estádio foram tomados por torcedores colombianos que cantavam e rezavam pelas vítimas do acidente aéreo. Sinceramente, poucas vezes vi algo tão emocionante.

Não tinha jogo nenhum acontecendo no gramado do estádio, mas para a torcida ali presente é como se o jogo estivesse de fato acontecendo. E acredito que de alguma maneira eles estavam certos, um jogo estava de fato acontecendo. Como em uma cena de algum romance de realismo fantástico, o sentimento que se tinha, a despeito da realidade fria e triste dos acontecimentos, é que de alguma maneira esta partida tinha que acontecer, e torcida a fez acontecer.

Ser brasileiro neste interminável ano de 2016 não foi fácil. Uma notícia ruim atrás da outra, uma tragédia após a outra. Em menos de um ano parece que retrocedemos mais de um século. Resultado disso tudo é o fato de que vivemos um clima de profundo pessimismo, perdemos a fé em nós mesmos e acreditamos que o futuro não nos reservará nada de bom.

Porém, uma das várias lições que as manifestações em Medellin me lembraram é que a humanidade é muito maior que o Brasil, e é justamente nos momentos mais difíceis que ela se supera e mostra seu lado bom.

Na última semana, a esperança deu sinais, apesar das notícias ruins que continuamente chegam de Brasília. Os momentos que antecederam o jogo de volta da final da Copa do Brasil, entre Grêmio e Atlético Mineiro; as torcidas organizadas de São Paulo reunidas na praça Charles Miller em um acordo de paz; um episódio semelhante ao Atanasio Girardot que se repetiu no Couto Pereira em Curitiba, demonstraram que, apesar dos tempos sombrios que o país vive, nós brasileiros ainda temos salvação e quem sabe em um futuro próximo possamos reverter este triste quadro atual.

Gosto de acreditar que as manifestações na Colômbia e a lembrança dos feitos heroicos dos guerreiros da Chape nos serviram de exemplo e de alguma maneira despertaram um lado bom que ainda existe dentro de nós, lado este há tempos esquecido.  Ao que parece, nem tudo está perdido.

O futebol assim mostra mais uma vez que não é apenas um jogo, mas um poderoso meio capaz de revelar para nós mesmos que não somos de todo ruins, nem somos apenas intolerantes batuqueiros de panela, e que apesar dos “Trumps”, “Temers” e “PECs” da vida, a humanidade e o Brasil ainda respiram.