Dizem as más línguas que a democracia nasceu na Grécia Antiga por volta do século VI a.C. O momento que a definiu passou por três períodos distintos, representados por Sólon, Clístenes e Péricles. Surgia o governo no povo, entendendo-se por povo apenas homens livres proprietários de terra. Ou seja, mulheres, crianças, idosos, escravos e estrangeiros não tinham participação política.

No entanto, esse “goveno popular” não foi capaz de garantir a justiça social pregada como pilar do novo sistema. Como exemplo, temos a condenação de Sócrates pela não veneração dos deuses gregos, pela indução de novos pensamentos religiosos e pela alienação dos jovens. Exigiram pena capital, devido à gravidade das acusações: a morte.

Inconformado com tamanha injustiça, Platão, que havia convivido por cerca de oito anos com o mestre, defendeu a ideia do Rei-Filósofo. Implica dizer que o senso popular não é capaz de decidir o que é melhor para sociedade. Na tentativa de implantar seu posicionamento radical, Platão foi traído e vendido como escravo.

Alguns séculos adiante, a mais conhecida assembleia popular do ocidente decidiu salvar um bandido reincidente e entregar o filho do criador à humilhação pública, à tortura e a morte agonizante de uma cruz.

Dois mil anos se passaram e a ideia platônica de que a massa popular não é capaz de encontrar as melhores vias para manutenção da sociedade ainda permeia nosso consciente coletivo. Mas, o que há por trás desse pensamento? Será que “o povo”, como dizem à boca pequena, não tem discernimento para escolher o melhor ou menos cáustico dos candidatos?

Recentemente, tomando apenas alguns casos, a turba democrática escolheu Trump, Dória, Crivella, Greca e mais uma infinidade de caricaturas grotescas. Alguns poderiam dizer que vivemos um momento de consciência política, e que uma maioria decidiu por eles pelo simples fato deles terem propostas mais lúcidas para a manutenção da coletividade.

No Brasil, país em que cada indivíduo lê 1,5 livro por ano, enquanto a média mundial gira em torno de 10, é difícil crer nesse grau de entendimento popular. Mas não nos enganemos, os tataranetos neoliberalistas do Tio Sam não se encontram numa posição mais privilegiada que seus imitadores tupiniquins. Se duvidar, estão num grau mais aguçado de estupidez. Apenas matizados por uma economia que pode se sustentar além das regras convencionais imputadas ao resto do mundo.

Então, onde reside o problema? A resposta é bem mais simples do que se imagina: em nenhum lugar. A massa que elege essas alegorias não o faz enganada. Ela não faz pensando que eles são salvadores da pátria. Ela o faz porque eles representam ipsis litteris seus mais íntimos e involuídos pensamentos.

Trump, Dória, Crivella e Greca foram eleitos porque são o reflexo de uma parcela significativa de uma sociedade claudicante e doente. Que, apesar do fluxo dos anos ao longo da história, ainda carrega os restos de preconceito, de discriminação e do asceticismo moral reacionário e repugnante que deveriam ser encontrados apenas nos livros de literatura medieval.

E sabe qual a parte pior de toda essa conversa? É que livros e conhecimento não são capazes de alterar a natureza de pessoas que adotam essa maneira de pensar, ou de reconstruir o seu caráter. Não de maneira imediata.

Nos resta continuar acreditando na educação de longo prazo, na luta incessante pelo esclarecimento da razão, e na ideia dialética de que os erros podem um dia nos levar para lugares melhores do que o que vivemos. A má notícia é que há poucas chances de que estejamos vivos para presenciar os primeiros raios de luz da aurora que surgirá nessa ainda distante república chamada Calípole.

É preciso primeiro construir o homem, para depois acreditar no sistema que ele guiará.

“A esperança é o sonho do homem acordado.” (Aristóteles)