O filósofo inglês Bertrand Russell achava Sócrates e Buda moralmente superiores a Cristo. Por quê? Entre outros motivos, porque nem o filósofo ateniense, nem o sábio nepalês ameaçavam seus opositores intelectuais com o inferno. Nenhuma pessoa “profundamente humana”, argumentava Russell, pode acreditar no castigo eterno.

É difícil não concordar com ele. A crença no inferno é realmente incompatível com a decência humana, sobretudo porque a tortura praticada lá é extremamente cruel e, portanto, desproporcional a qualquer que seja o crime do danado. Mas essa objeção já foi apresentada inúmeras vezes por inúmeros ateus, e eu não gostaria de chover no molhado. Por isso, quero propor outra abordagem (que talvez também não seja inédita…) ao problema.

Considerem o seguinte: minha mãe acredita em Deus e, além disso, costuma praticar o bem. A julgar pelo que dizem os sacerdotes, Deus a recompensará com o paraíso. Eu, a exemplo dela, também procuro fazer o bem, mas, ao contrário dela, sou ateu. Logo, pelo que dizem os mesmos sacerdotes, serei condenado à geena.

Uma vez admitido isso, podemos fazer duas perguntas: 1ª) minha mãe poderá ser feliz no paraíso sabendo que seu primogênito queimará a eternidade no inferno? 2ª) Em caso afirmativo, isso não faria dela um ser desprezível, asqueroso, ignóbil e, como tal, não deveria lhe valer a perda do paraíso e a consequente queda ao inferno?

 Deixem-me agora ampliar o alcance da pergunta. Todos os religiosos estão convictos de que apenas uma pequena parcela da humanidade (na qual eles obviamente se incluem) irá se salvar, enquanto o resto será condenado ao lago de fogo e enxofre. Pois bem. Um ser humano que é capaz de gozar as delícias do paraíso sabendo que há semelhantes seus queimando no inferno é digno dessa bem-aventurança? Sua felicidade diante do sofrimento alheio não o torna tão desprezível, asqueroso e ignóbil quanto uma mãe desnaturada e, tal como ela, não deveria ele ser punido com a danação eterna?

Não me parece que a falta de parentesco entre eleitos e danados mude o fundo moral da questão. O problema moral continua o mesmo. Fossem as profundezas habitadas só por estupradores, genocidas e outros criminosos dessa laia, talvez fosse possível (embora eu duvide que alguém conseguisse) justificar tanta falta de empatia e de compaixão. Todavia, essa atitude se torna indesculpável quando se considera a banalidade de certos pecados que conduzem ao inferno: ter acreditado no Deus errado, ter comido carne na Semana Santa, não ter se casado virgem, não ter dado “bom dia” ao padre…

Se existe um paraíso, suspeito que ele seja um lugar desabitado. Ninguém jamais foi para lá. Os maus, porque lhes faltou merecimento. Os “bons”, porque lhes faltou compaixão. O Diabo, porque criou esse antro de tortura que chamamos de inferno. E Deus, porque deu vida à raça de danados que lhe serve de clientela.