O caro filósofo de Rockën escreveu que não bastava dizer um pensamento elevado a alguém, seria preciso elevar essa pessoa à altura desse pensamento. Mas será que a maioria das pessoas tem realmente capacidade de respirar à altura de determinados pensamentos?

Essa frase pode ser um tanto arrogante, um tanto pedante, mas com o passar dos anos passei a dar mais atenção a ela e a creditar ao citado alemão uma saudável coerência nos seus cáusticos pensamentos.

Novamente fazendo o uso claro da razão para executar uma simples tarefa dialética, bem no sentido aristotélico do termo, proponho uma pequena reflexão sobre esse pensamento nietzschiano.

Apesar de alguns protestarem a respeito da subjetividade da arte, ainda que a sustentação para seus argumentos seja lamentavelmente espúria e estúpida, irei partir dela para construir meu silogismo.

Será que todas as pessoas têm capacidade para entender a beleza de um quadro de William Turner? Será que todas as pessoas têm as mesmas condições para entender a beleza contida num poema do E. E. Cummings? Será que todos conseguem desvendar o quebra-cabeça multinarrativo do stream of consciousness de Dujardi, William James ou até mesmo de Joyce, Proust e Faulkner?

O problema da estupidez e da ignorância é que elas, muitas vezes, são assintomáticas, e uma grande parte das pessoas não admite ser acometida por esses miasmas, resultando num não tratamento.

Por conseguinte, muitos vivem no mais completo breu, tateando como os cegos atrofiados da caverna platônica. Outros, um pequeno degrau acima, são os que gozam da chamada “inteligência Salieri. Reconhecem a figura de Mozart mas precisam se resignar em sua própria insipiência.

Cito tudo isso para registrar a incoerência cognitiva de muitas pessoas ao vomitarem seus tortuosos pontos de vista a respeito de economia, de política e, acima de tudo, a respeito da sociedade contemporânea e pós-moderna.

Peco pelo excesso de ingenuidade ao tentar “dialogar” com esses papagaios, títeres de um sistema pobre surgido ainda no seio do espírito de uma ética protestante (vide Weber), que, a bem na verdade, protestou apenas para defender seus interesses (econômicos é claro).

Adiante, também me questiono sobre a sanidade dessas pessoas que esbravejam sobre a meritocracia. Será mesmo que elas pensam que uma pessoa nascida na África de hoje, que subloca corpos no vazio da existência, alimentando-se com menos de U$ 2 por dia, tem a mesma condição de vencer que alguém nascido no seio de uma família abastada?

Onde estão seus deuses? Que raios de tementes são esses que, de um lado, arrotam pai-nossos e, de outro, respiram incólumes diante de tanta desgraça produzida pela humanidade, bem como a tragédia produzida pela dilaceração dessa sociedade de consumo e seu decrépito capitalismo?

Parafraseando o nosso Michael Foucault brasileiro, o que torna difícil qualquer diálogo ético é esse assombroso autismo intelectual que corre solto pelas sinapses da maioria.

Como disse o bigodudo, pessoas com esse tipo de raciocínio (ou ausência de raciocínio) são pessoas deploráveis, são imbecis com uma dislexia gritante e, exatamente por sua insuficiência cognoscente, não deveriam ser tão severamente julgados e punidos por seus deuses e suas leis divinas (são inimputáveis).

Rui Canário bem definiu essa sociedade quando disse que ela é inegavelmente evoluída tecnologicamente, entretanto proporcionalmente atrasada do ponto de vista político e social (assim como moral).

Lembrando que a burrice é muito parecida com a morte, pois, quando a pessoa morre, não sabe que está morta, e quem sofre são outros. Exatamente como a imbecilidade.