“Os que comem bem, dormem bem e têm boas casas possivelmente pensam que o governo gasta muito com políticas sociais. Tudo depende de como se olha” refletiu o sábio Pepe Mujica em entrevista concedida em Durazno no ano de 2013.

Mujica sabe das coisas.

Sabe para além das coisas, diria.

Dizem que o conhecimento liberta, mas também traz dor. Liberta, sobretudo, do pensamento hipócrita.

Há lógica na sustentação das mais variadas hipocrisias, como as exposta por Mujica: interpretar o mundo inteiramente a teu favor não deixa de ser confortável. Mas também não deixa de ser prisão. Tampouco deixa de ter seriíssimos contras, já que o pensamento anticoletivista e demasiado autocentrado ignora que o bem comum se faz em rede, em tramas que precisam de disposição para compreender.

Aquilo que ocorre lá longe pode influenciar no preço da tua comida. O SUS pode garantir aquilo que a lógica criminosa do sistema privado recusa. Os beneficiários dos juros podem comandar um país às nossas custas mais do que podemos crer. Mas creia.

Em tempos de crise política, a hipocrisia se revela em tristes máximas que passam a ser gritadas aos quatro cantos, em timbres plenos de ódio, ecoando nos bares, nos almoços familiares, nos hospitais, na fila do supermercado e até mesmo nos estádios.

Desconfio que Mujica, ao expor a reflexão acima, passou uns dias em terra brasilis, disfarçado, vivenciando o cotidiano e surpreendendo-se com os que bradam contra nossos próprios direitos.

Sei não, mas creio que Mujica, que tudo sabe, conheceu:

– a Maria, que odeia o mesmo SUS que pagou pelo seu transplante realizado em hospital privado. Maria acha que o SUS sustenta vagabundos.

– o João, que saliva de ódio contra o programa Minha Casa, Minha vida e aplaude o simultâneo pacote de aumentos aos servidores que já têm vencimentos acima da média. João é a favor do uso de dinheiro público para comprar ternos, mas jamais para financiar moradias. João acha que essas moradias abrigam vagabundos.

– A Márcia, que ficou indignadíssima ao descobrir que há um clube carioca que não permite que as babás usem o mesmo banheiro das sócias. Márcia não permite que a babá de seu filho o acompanhe na sua piscina. “Entrar na mesma piscina já é demais”, justifica Márcia.

– O Tadeu, que trabalha com Moda e louva decotes e fendas da alta costura, mas acha que as meninas que vivem em comunidades são estupradas porque suas roupas provocam.

– o Paulo, que odeia transporte público e ciclovias. Paulo não paga seu IPVA há 11 anos. Paulo odeia o trânsito atribulado, que atribui ao aumento de pobres que agora têm carro. Paulo acha que possui privilégios naturais e que seus impostos sustentam vagabundos.

– A Pamela, funcionária fantasma do gabinete do tio e incansável defensora do estado mínimo. Pamela acha que o Estado que assume sistemas de saúde e educação sustenta vagabundos.

Deve ser difícil para aqueles que, como Mujica, se dispõem a enxergar.

Menos difícil se a favor dele formarmos um time:

Menos hipocrisia. Mais Mujica.