Conhece alguém que não queira ser ou parecer rico? É raro…

Não perguntei o que é ser rico, percebeu? Porque existe, sim, um padrão estabelecido de riqueza que permeia o imaginário coletivo e com o qual todos parecem concordar, mesmo sem saber o que é de fato ser rico, para além da disponibilidade de dinheiro e da presunção de que a notoriedade possa denotar riqueza. Há uma grande confusão entre riqueza, nobreza, fama, poder econômico e sucesso que costuma ser condensada na imagem social. É do que vivemos entre os holofotes – parecer é preciso, ser não é preciso.

Muito do que chamamos de consumismo está ligado ao investimento no “pedigree” que podemos traduzir pela aparência, no primoroso cuidado com a imagem social. Nossos hábitos são mais reféns da sobrevivência social do que imaginamos. Falar em Sustentabilidade e Novo Paradigma sem tocar neste nervo inflamado, sem questionar as desproporções entre investimentos em imagem, ego e necessidades essenciais – beira o inócuo.

Diz o senso comum que é loucura rasgar dinheiro, não é? Mas é mais fácil rasgar dinheiro que rasgar o ideário de riqueza ou destruir uma autoimagem. Ser ou parecer rico parece inquestionavelmente bom, faz parte dos sonhos mais vívidos da maioria das pessoas. Talvez, na mesma medida das opressões dessa usina de classes que não produzirá jamais o bom senso de que a tal riqueza não é acessível a todos – nem em bens, nem em capital, nem em status, muito menos, em direitos — justamente, porque a tradução imediata de riqueza é privilégio, e se todos tiverem privilégios, quem será melhor?… O insustentável começa pelo fato de que não basta ser digno ou viver, simplesmente – a frustração por não fazer parte da minoria rica, privilegiada, iluminada como modelo, causa demasiada infelicidade em todas as classes sociais. Consultórios, bares e igrejas estão repletos de deprimidos, ansiosos, sincopados e transtornados em função da riqueza ou da falta dela… Cá pra nós, penso que é preciso, urgentemente, rever os limites patológicos da obsessão pela riqueza, principalmente, quando resulta em mal ao outro –  e isso inclui o meio ambiente.

Claro que alguém perguntará: – Qual o problema em querer ser ou parecer rico numa sociedade em que a ambição desmedida é posta como qualidade e redunda em mérito? Qual o problema, afinal, em querer que todos tenham seu quê de psicopatia, sejam bons narcisos consumistas, “cases” de sucesso, famosos, amados – e ricos -, se é mais fácil enfiar os pés dos desapegados coletivistas na bota ortopédica de um diagnóstico psiquiátrico?

Não há problema em querer. Querer, podemos querer tudo… Aliás, que maravilhoso seria se todos fôssemos amplamente prósperos… Mas daí a aceitarmos que tudo é permitido, contanto que se pague, é outra história. E quem disse que, entre outros privilégios, a ideia de riqueza não passa pela confusão entre liberdade e impunidade?

O que está posto na questão socioambiental e nos questionamentos de Sustentabilidade é: – Até quando deixaremos a luta de classes à sombra de uma civilização que alardeia a necessidade de justiça social como ingrediente inequívoco para um Novo Paradigma, enquanto mantém seus privilegiados fora dessa conta e o grosso da população alheio ao valor do meio ambiente!

Qual o parâmetro de prosperidade possível a cada ser humano neste latifúndio? Que padrão de bem-estar poderia ser chamado, de verdade, “civilizado”, de tal modo que fosse livre a escolha por “subir” na vida ou não e, definitivamente, as pessoas não precisassem usar os crânios umas das outras como escada?

Há, nos sonhos de riqueza, por mais que relativizemos, uma dose desmedida de ilusões e convenções interessantes aos próprios ricos, sob a certeza de que a ambição não realizada move o mercado. Não faltam gênios por aí, motivando as pessoas a serem o que “devem” ser, em nome de riqueza, sucesso, mais do mesmo…

Princesas, príncipes, reis, rainhas, temos em nós a certeza de que nascemos para isso e fomos injustiçados. Tanto que o grosso do que consumimos são símbolos de riqueza. Até a disponibilidade de produtos supérfluos tem origem no senso de privilégio, para muito além da subsistência da maioria.

Só que, ao invés de nos perguntarmos: – O que é mesmo riqueza? -, caímos na armadilha do conflito interno. O senso comum ensina, inocula no coração das gentes um modo de viver em curto-circuito, certa bipolaridade econômica, trançando os fios da megalomania com os da impotência. Se, por um lado, a incompletude pode ser motivação, por outro, abre um rombo, um vazio gerador de ansiedade no peito das pessoas, bem na medida de suas baixas autoestimas, naturalizando até o estresse e roubando o prazer de viver, levando as pessoas a buscarem outras intensidades… Vale para o consumo, vale para o sucesso, vale para a esparrela do amor romântico, vale para o acúmulo de capital e patrimônio…

Um dia, seremos ricos, pois, não somos ou acreditamos profundamente que não somos… As ideologias em vigor – todas as ideologias instituídas e as próprias instituições — falam em nome do porvir e, portanto, da ansiedade! E falam em nome da equidade social como se fosse possível haver justiça social e ambiental através de porvires econômicos lineares, regidos pelos valores de bem-estar burgueses, ou pela regulação do mercado a partir da escassez travestida de monofartura… E me perdoem se insisto nesse tema, mas diante da finitude real das riquezas naturais, pelos equívocos desta economia, não há e não haverá revolução socioambiental alguma a seguirmos com o desenvolvimentismo, sob qualquer bandeira.

Ó… Isto não cabe como argumento para a direita praguejar contra a justiça social, mas se todos pudessem consumir nos parâmetros de riqueza apontados como ideais; para o planeta, estaríamos diante de uma insanidade maior que a própria desigualdade. Simples assim, não temos riquezas naturais para dar conta de nove bilhões de pretensos ricos e chiques e consumistas e privilegiados em 2050, justamente, para quando a ciência alardeia o limite planetário máximo e irreversível para este modelo de produção e consumo. E isto não quer dizer que estes bilhões devam lutar para sustentar um punhado de acumuladores de riquezas.

A abundância da natureza – abundância é sinônimo de riqueza — não provê prosperidades artificiais nos níveis que consumimos. Mas sustenta e se sustenta através de outra lógica. Dá pra todo mundo viver muito bem com simplicidade, contanto que saibamos qual “riqueza” cabe a cada um e os excedentes sejam compartilhados. Porém…

Sabendo muito bem que esta imensa massa global mal sobrevive, a ordem do mercado é alardear um irrestrito páramo de classes médias, um antro de anedônicos crônicos como desígnio de bem-estar. Para a maioria pobre do planeta, gravitar as classes médias e ser rico dá no mesmo… O mercado lucra com este formigueiro urbano de consumistas arrogantes, ambiciosos, branqueados, chiquinhos que só; desesperados para melhorarem suas autoimagens, exclusividades e aceitações, através do que compram, e alheios à natureza, à própria natureza e ao futuro de seus descendentes, que talvez preferissem escolher seus rumos para além do que herdarão. Que herança pesada um mercado que depende de antecipar a escassez, e obriga todos ao mesmo dinheiro, ao mesmo idioma, aos mesmos valores, hábitos, rangos e costumes!

O acesso ao consumo é o máximo que o poder econômico concede para mitigar as misérias que cria. Ainda assim… Fora do ambiente de trabalho, quase todo o lazer, o entretenimento e a cultura são pagos. E mais riqueza, chiquice e estímulos ao consumo escorrem das prateleiras, das telas, das vitrines, dos templos de consumo e onde quer que o trabalhador vá, as cidades oferecem poucos lazeres naturais e gratuitos. Não bastassem as precariedades do trabalho e os passivos produzidos, a lógica é tornar os trabalhadores os principais financiadores do mercado, até durante o descanso, em que permanecem em contato com felicidades de plástico, publicidade e ansiedades permanentes, desnaturezas, modelos de ambição e confortos rarefeitos… Mas quem fala nos impactos das Mudanças Climáticas com a massa trabalhadora?

Dado o comprometimento institucional tão limitado com as questões socioambientais e as Mudanças Climáticas – restrito ao cumprimento de orgulhosas tabelas formais, ao negacionismo especulador e à tutela da mídia dependente de publicidade –, tudo indica que o século XXI vai chegar de repente para maioria dos terrestres. Simples assim, as pessoas terão que mudar seus hábitos na marra. O descontentamento coletivo com a falência do idealizado e aprendido sobre como ser e parecer talvez precise ser contido com mais violência, mais exclusão, mais desigualdade porque, afinal, nunca foi tão propício para o Midas-mercado privatizar a natureza!

Por que nunca perguntamos quem gostaria de viver em paz? Será porque ser ou parecer rico é até possível, mas viver em paz é a grande quimera?

O modelo econômico que diz gerar riqueza faz questão de omitir que a riqueza será sempre privada, e fruto de esforços do coletivo para apropriação de poucos e cada vez menos numerosos… Ambientalmente, tudo isso deixa de ser riqueza quando entendemos que, para existir qualquer empreendimento, qualquer um, a miséria socioambiental produzida constitui um passivo irreversível – o coletivo, geração após geração, digere e paga esta fatura!

É preciso garimpar produto ou serviço sustentável de fato sob o sol deste mercado… Praticamente, tudo que se possa comprar gera passivos diretos ou não e, portanto, reforça a escassez de recursos, amplificando o poder de regulação econômica do mercado. E o mais grave: a escassez faz refém e precariza preferencialmente quem está na base da sociedade.

Você acha que a fantasia de Midas é natural? Acha que não há ideologia em se esparramar por todos os meios a semente maldita da riqueza longínqua, o câncer do empreendedorismo, o esforço insano pela riqueza, o sacrifício a partir da intoxicação pela meritocracia? Você acha mesmo que a simplicidade não basta?

O toque de Midas de “vir a ser alguém” — como se alguém devesse ser mais que é, e isto fosse democraticamente acessível –, é a isca encobrindo o anzol pontiagudo da dependência, do estresse, do descaso pela saúde, da fulminante cobrança social, da incompletude pulsando no peito enquanto a vida passa voando… Eis como converter o desejo legítimo de pertencimento em lucro, cutucando os flancos moles e pavores de rejeição dessa sociedade de narcisos, machucados e rejeitados desde a infância… Quantos iludidos conseguem descolar do térreo dos perrengues da subsistência?

O sistema – concordamos quanto a um sistema? — não pergunta o que as pessoas querem. Impõe seu paradigma através de demandas insufladas e despeja a sopa rala da meritocracia sobre nossas cabeças como se fosse a mais honesta permeabilidade social… Os modelos consumistas dividem as pessoas por castas de luxo e exclusividade possíveis segundo seu universo de renda, informação e influência. Engraçado que o mercado, como um todo, negue a luta de classes, mas a classificação para o consumo deixa as coisas bem claras… Se o negócio é descolar da condição de povo, cada um que o faça através dos produtos e serviços dirigidos à sua classe ou – e ai está um imenso engodo – “suba” de vida comprando produtos melhores. Ou seja, tendo mais dinheiro para consumir, automaticamente, passa a ser considerado mais rico e, na lógica privada, mais cidadão. “Vir a ser”, para o mercado, é vir a mudar de padrão de consumo. É assim que a economia reduz diversidade humana à identidade de coisas. Eis a insustentável chiquice de não sermos nada nem ninguém além do que comprarmos!

Salvo raras exceções ao lugar comum, ser “alguém” significa sê-lo aos olhos do sistema, ou seja, de forma tão obediente às instituições, tão empenhada em seguir caminhos estabelecidos e padrões aceitos, que atinja níveis ótimos de reconhecimento em sucesso – fama e grana — nos mais manjados moldes burgueses de acúmulo, desperdício e riqueza.

Fala-se tanto em riqueza, mas é certo que, para alguns, bastaria não ter que trabalhar a contragosto para pagar as contas… Para outros, o sonho de não viver saltando de perrengue em perrengue seria a própria fortuna…  Para a maioria, bastaria comer, beber, ter abrigo, para depois pensar se deseja de fato sofrer de depressão num hotel em Paris, comprar tralhas douradas em Maiami, ter um carro bem desenhado parado num engarrafamento ou contrair uma dívida infecciosa…

O que você faria se ganhasse na loteria? – a exausta pergunta esclarece: basta disposição de sonhar com a riqueza para sentir a brisa, o conforto, o átimo de alento do que poderia ser – se não fosse como é… E nada tenho contra sonhar, desejar… Mas será que todos mantêm o discernimento naquele instante em que a possibilidade de enriquecer surge num clarão de “finalmente, fazer o que quiser”, “ser livre”?… Pois é, logo em seguida, o reingresso à atmosfera terrestre dói, reafirma a pobreza e a prisão diante da meta intangível. E não é preciso ser pobre, não. Basta o vento passando dentro do peito, o cansaço de não ser aceito, a precisão de “vir a ser”. Basta uma rotina plena de embalagens e confortos materiais, mesmo que oca de sentido… Porque esta é a maior de todas as pobrezas impostas neste jogo de trocar tempo por sobrevivência em nome da riqueza – a imensa maioria das pessoas não faz o que quer de suas vidas… E por si só, isto já produz ilegitimidade e insustentabilidade para mais de um planeta…

Infelizmente, nossos valores e hábitos não seguem as prioridades óbvias de nossos corpos e precisões, nem a sinergia com outras formas de vida. Tampouco seguem aquela inteligente e chorosa “voz do coração”, que fica de castigo no canto do peito, à espera das riquezas, liberdades e prosperidades prometidas, mas nunca entregues…

Descolamos de nossas necessidades naturais e aprendemos a suportar a miséria básica dos outros enquanto nos livramos da nossa. O capEtalismo roubou nossas obviedades mais chãs, a ponto de as pessoas esquecerem do valor da água, do alimento, da vida, do afeto, da presença, da compaixão – mas não conseguirem viver sem consumir… Viver, em si, simples e obviamente, como enredo social, tornou-se impraticável… O mundo quer ser loira! O mundo quer ser Master Chef! O mundo quer design excludente! Ballet! Caviar! Rolha rara! O mundo quer brasão de nobre e parede de grafiatto! O mundo quer trilhões de views! O mundo quer cantar no The Voice! O mundo é chique no “úrtimo”! O mundo quer carro com cara de avião, casa de praia com cara de Maiami e fazenda! O mundo quer morar num apê padrão Dubai! E voar Emirates! O mundo quer ser patrão, empresário, empreendedor, proprietário, dono, gerente de deus na terra! O mundo quer morrer de doença rara num hospital cinco estrelas e ter friso dourado no caixão… Ah, sim! Há parcas exceções, mas todo mundo quer ser aceito, ainda que raros encontrem aceitação de si mesmos ou limite, no oco do próprio peito! Ou seja, podemos até sonhar que Sustentabilidade é a primeira causa coletiva da espécie. Individualmente, até por sobrevivência social, a necessidade de aceitação e o apego aos hábitos dizem: – Dane-se o mundo!!

Por falar em “Dane-se o mundo!!”, deixo uma pergunta para marqueteiros e demais devoradores de desejos: – Será mesmo que pessoas, não números, querem tudo isso?

A vida privada – condicionada aos modelos à venda — é a verdade pela qual as famílias lutam, as escolas educam, o mercado rosna e o Estado… Bem, quem ainda não entendeu a serviço de quem está o Estado, pondere… Porque o Estado, que deveria sintetizar a legitimidade dos anseios do povo não desdiz em momento algum que o mercado quer que as pessoas lutem para não cair no fosso coletivo porque, afinal, o grande negócio é não ser povo!…Dizem que atender prioridades sociais óbvias é utopia. E o dizem com tamanha veemência e publicidade, e maltratam tanto os que questionam prioridades, que as pessoas comuns acabam achando que a coisa mais sensata do mundo é que tudo, inclusive o acesso ao básico do básico, seja desigual e os valores de mercado sejam a única identidade satisfatória…

Vem cá…  Você conhece alguém que se ache rico por dispor de água potável para beber, cozinhar, tomar banho? Por respirar fundo, até o talo, um arzinho puro e satisfatório? Milionário por ter comida desintoxicada? Rico por desconhecer doença? Quem se baste por dormir uma noite inteira de cada vez, dormir bem todas as noites, sem pilulinhas, gotinhas, bequezinhos e dosinhas? Conhece quem ria à toa por ter boa imunidade? Tem noção da fortuna que é ter amor para dar? Já viu alguém se dizendo milionário por ter ombro pra encostar a cabeça e coxa pra roçar em coxa? Alguém afortunado de filhos amados e amigos amados? Alguém que tenha acertado a loteria da completude interior? Conhece quem se baste de riquezas assim, e leve o resto numa boa, nos limites da simplicidade, privilegiando pessoas, não coisas? Poucos, neah? Normalmente, só a maioria de íntimos dos perrengues e a minoria de questionadores mais conscientes sabem que o ouro do futuro é o desapego.

A escassez é muito fácil de constatar. Somos doutrinados a não valorizar as prosperidades cotidianas. Ainda mais sob a vergasta religiosa e a moral social vigente, sedimentadas em culpas e equações simplórias como o mérito pelo sacrifício…

Vá falar em abundância com as pessoas pra ver como a possibilidade está blindada. Tratam logo de “xingar” você de alienado, filósofo, poeta, como se um fosse um mal. Isso, se não o fuzilarem como comunista… Completude demanda autoconhecimento, outra cosmovisão, proximidade e interação com a natureza, suas dinâmicas e interdependências. Demanda autoaceitação e, principalmente, amor-próprio… Esta é a educação em falta. Educar as crianças para que se aceitem essencialmente…

E por falar em crianças. Já temos várias gerações que desconhecem os arrabaldes das cidades. E com a população cada vez mais urbana, o que dizer sobre a abundância da natureza diante da completa anticidadania?

As cidades, como as conhecemos hoje, são desertos povoados. Abastecidos, mas dependentes. Por si mesmas, as cidades são insustentáveis. Desertos com praças, talvez. Desertos arborizados, quem sabe? Desertos de pretensos ricos e privilegiados cercados de miséria. Desertos com compasso fincado na entrada… É na cidade que habita o deserto da moral capEtalista, o deserto conservador e impermeável, a negação da natureza, a fábrica linear de demandas ambientais e, portanto, a gênese da insustentabilidade carimbada pelo mundo como cultura institucional de preconceito à simplicidade.

A mente maçônica por trás da urbanidade é cartesiana até a medula… O mercado urbano, todo ele costurado pela logística imobiliária, logística “gourmet”, arrogante e insensível ao caos que provoca dentro e fora das cidades, é a base dessa economia que só entende crescer e crescer, argumentando que a população só faz crescer – enquanto estimula o crescimento do rebanho por todos os meios e mídias…

Daí que regular mercado apregoando a sombra da miséria e a negação permanente do óbvio faz parecer esta economia natural… Não é natural, como não é natural que a água brote das torneiras, que o leite venha da caixinha, que os frutos marombados que vemos nos supermercados sejam produzidos com “anabolizantes” de lavoura — os agrotóxicos — para estimular vendas para um público ignorante em natureza e que sequer imagina que a impermeabilidade urbana, contraposta à lendária “insalubridade” da natureza, seja a causa da escassez. As cidades são insustentáveis porque sua razão de ser – constituir núcleos sociais “protegidos” da natureza e de eventuais predadores e inimigos – perde o sentido quando entendemos quem são os reais predadores e inimigos!

No entanto, natural mesmo é a abundância possível a partir de prioridades claras e escolhas por investimentos capazes de relevar o valor da prosperidade e da fartura existentes, não sua precificação! É preciso investir em sabedoria e simplicidade, não em arrogância e dependência! Este é o ponto de ruptura entre o escasso e o abundante. Esta é a escolha a fazer… Continuar financiando a escassez com o consumo, repercutir o toque de Midas ou investir na abundância produzindo comida e comprando o mínimo possível? Sim, coletivamente!

Quem vende algo onde as necessidades essenciais das pessoas estão completas?

É praticamente consenso que as coisas naturais, brutas, puras, frugais não são boas o suficiente para seres urbanos aculturados a um meio em que tudo é artificial. Neste ambiente, valores imateriais não encerram a riqueza necessária para suportar a sobrevivência ao mundo capEtalista.

Não serei o último a dizer que rico mesmo é quem não precisa!

Mas como mudar hábitos se as leis cotidianas são leis burguesas, conservadoras, consumistas e classistas e se; a serviço das classes dominantes; nossas instituições, movidas a especialidades de mercado, carteiradas, selos, taxas e chancelas, escancaram nas entrelinhas de seus protocolos a mais retrógrada e insustentável formalidade consumista, e exigem que cada cidadão seja cópia do Midas imposto?

Dos donos do poder de fato aos arlequins eleitorais à “la carte” e autoridades constituídas, quem pode dizer que busca mesmo a Sustentabilidade? Se há um ímã burguês sob a bússola da insustentável economia global, esperar que qualquer Mudança de Paradigma efetiva venha do universo institucional conhecido é, no mínimo, muita inocência. É propor a própria causa como solução…

Toda e qualquer mudança, da recusa ao sistema à tomada aberta de posição pelo Consumo Crítico, pelo Não Consumo ou pela atuação fora do campo institucional, está em nossas mãos. A ruptura com a “fórmula” é uma escolha individual e não será requisitada pelas instituições, a não ser para socialização diante do irreversível!

Provoco… A ansiedade de ser aceito é natural. Quem não quer fazer parte? Mas, uma vez incorporada a consciência de que a via institucional está esgotada, lutar para ser parte de um padrão decadente e insustentável de bem-estar material e aparências — que trouxe o mundo ao que aí está –, corresponder docemente à pressão social, ser sócio consumista de um sistema que vende o enriquecimento para tão poucos e entrega miséria colorida para a maioria; não me perdoe – é precisar demais!

Ademais, se a questão é fazer parte, não espere que a legião de gentes que paga o preço de experimentar alternativas longe dos holofotes apareça nas mídias oficiais…