Quando eu era adolescente, no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, eu estudava em uma escola estadual chamada Miguel Sansígolo, no bairro do Jardim Iva, região do Sapopemba, zona leste de São Paulo. Na minha escola era muito comum pintarmos a carteira da sala de aula, a lousa e as paredes dos banheiros. Conheci ali a pixação, um exercício diário que, hoje eu sei, envolvia estética e política. Para ser um bom pixador era preciso praticar e, acreditem, a escola era um lugar possível para essa prática. Não era preciso muito: bastavam uns canetões das cores azul, vermelho e preto. 

Muitos dos meus colegas que pixavam, passaram a grafitar. Apesar de a pixação e o graffit serem expressões bem diferentes, o segundo começou em razão do primeiro. O graffit, podemos dizer, vem dos braços das pixações, manifestações genuinamente urbanas, com forte relação periférica. 

Historicamente, por ter havido essa “distinção”, digamos assim, entre o que é graffit e o que é pixação, o senso comum e a política (que às vezes andam juntos) passaram a aprovar a inserção do graffit no espaço público, uma espécie de autorização institucional para que o graffit pudesse existir. Até hoje não é muito incomum ouvirmos por aí: “Eu acho pixação horrível. Agora… grafitt… tudo bem”.

É interessante pensar que a pixação e o graffit começaram no ambiente escolar, mas se constituíram, justamente, como uma fuga da institucionalização produzida pela escola, principalmente ao que tange a relação com a escrita e a arte. O graffit e principalmente a pixação são o oposto da grafia legível e das formas aprendidas na escola. Podemos dizer, então, que ambas são resistência e novas formas de tecnologia da escrita.

Mais especificamente em São Paulo, apesar de o grafitt ter se institucionalizado um pouco – o que por um lado promoveu certo prestígio social, e por outro uma identidade para a Pauliceia desvairada, – e de a pixação se manter à margem, ambas as manifestações estéticas e políticas rompem com a idade de legibilidade, do que é decifrável.  E é por isso que o grafitt causa tanto horror para boa parte da sociedade: porque são expressões que fogem ao que é considerado inteligível. Por isso, políticos do tipo de João Dória são como analfabetos funcionais diante de um grafitt.

A prefeitura da capital paulista pode jogar tinta cinza por cima de expressões artísticas, mas ela não poderá impedir que essas expressões continuem existindo. Além de gastar dinheiro público à toa, o prefeito de São Paulo aprenderá que é justamente no espaço – esse vão social, político e simbólico – que nasce o grafitt.