Como é a atuação de uma médica que acredita na medicina comunitária, no atendimento humanizado?

A minha prática como Médica de Família e Comunidade do SUS é extremamente gratificante. Apesar do grande desgaste físico inerente à profissão, a satisfação de saber que a nossa equipe fez e faz a diferença na vida de muitas pessoas compensa tudo. Temos diversas dificuldades no dia a dia que estão, muitas vezes, relacionadas a um processo de estruturação do próprio sistema. São nós críticos que, aos poucos, com investimento e vontade política, tendem a serem desatados. A questão é que estamos dispostos a olhar para o sistema público de saúde que temos e fazer o melhor que podemos para que ele funcione em sua máxima capacidade. É bem verdade que, em muitos casos, os recursos disponíveis não são suficientes. Nestas situações é também nosso papel nos posicionarmos como advogados de nossos pacientes, a fim de garantir que eles recebam tudo o que for necessário para que tenham o direito ao cuidado integral à saúde garantido. A nossa luta diária é clínica, mas também é política.

A prática dos Médicos e Médicas de Família e Comunidade do SUS é essencialmente uma prática em equipe. Não fazemos nada sozinhos. Somos parte de um grupo. Nossa formação nos capacita a realizar uma abordagem que coloca a pessoa no centro do nosso cuidado. Não somos apenas técnicos aptos a cuidar de doenças. Nós cuidamos das pessoas. E estas pessoas podem eventualmente adoecer. Até mesmo a doença se apresenta de forma diversa para cada indivíduo. Assim, o diabetes do Seu Pedro nunca será igual ao diabetes da Dona Regina, porque eles são diferentes, vivem em condições diferentes, com contextos familiares, sociais e culturais diferentes, com trabalhos diferentes, com um olhar sobre a própria doença, também, muito diferente. Por isso, para a Dona Regina, não adianta que eu saiba tudo sobre tratamento de diabetes se eu não sei nada sobre cuidar da Dona Regina. E como eu vou aprender a cuidar dela? Ora, ouvindo-a. A melhor pessoa pra me ensinar sobre isso é ela própria. Ela é capaz de me dizer o que ser diabética significa pra ela. Ela vai me contar sobre sua vida, muito além do diabetes. Eu preciso saber que a Dona Regina cuida dos netos pra entender suas dificuldades de participar das atividades esportivas na praça de esportes do bairro. Eu preciso saber que a Dona Regina está ansiosa porque o seu filho caçula vai se casar no final do ano e, por isso, anda muito mais gulosa. Eu preciso saber que a Dona Regina gosta de dançar, ir para a roda de samba e detesta caminhar. Posso usar isso em favor dela para o seu controle clínico. Mas, pra saber disso, antes de tudo eu preciso estar disposta a atendê-la integralmente, acompanhá-la ao longo do tempo, estar acessível quando ela precisar, e por aí vai. Não é fácil, mas é lindo.

O que seus pacientes te ensinam sobre cidadania?

Meus pacientes me ensinam muito sobre cidadania. São eles que se organizam e buscam seus direitos. A saúde não resolve tudo. Há determinantes sociais que interferem intensamente no processo de adoecimento das pessoas, seja este adoecimento psíquico ou físico. A melhor equipe da Estratégia de Saúde da Família, com os profissionais mais dedicados, jamais conseguirá ser tão impactante quanto o saneamento básico, a melhoria das condições de moradia, a melhoria das condições de trabalho, a implementação de opções de lazer, a melhoria da alimentação, a melhoria da infraestrutura para a prática esportiva e, principalmente, a educação. É por isso que países com sistemas de saúde piores ou menos estruturados que o nosso alcançam melhores índices de desenvolvimento humano e até melhores indicadores de saúde que os nossos.

E sobre fé? A fé é importante no processo terapêutico?

A fé é muito relevante na construção da relação terapêutica. Tanto no que tange ao respeito às diferenças quanto no nosso entendimento sobre qual é a visão de mundo do nosso paciente e como ele busca a superação dos seus sintomas. Cabe a nós como terapeutas conhecer, entender e lidar de forma empática com as múltiplas crenças e ritos que estas pessoas nos trazem. E uma dose de amor, também, não há de fazer mal!

Como foi sua opção por esse tipo de prática?

Minha opção ocorreu depois da minha formatura. Foi paixão à primeira vista. Fui trabalhar em uma equipe da estratégia de Saúde da Família, no SUS, sem ter me especializado. De cara, percebi que o buraco era bem mais embaixo e eu precisaria me capacitar para dar conta da complexidade de cada paciente. Foi a melhor escolha profissional que já fiz. Faria novamente, sem dúvida. E mais mil vezes, se fosse preciso. A Medicina de Família e Comunidade me resgatou! E eu só tenho a agradecer infinitamente aos mestres e amigos que encontrei neste caminho, em especial a todos do programa de residência médica do Hospital Odilon Behrens, em BH, Minas Gerais. Eu devo a estes amigos grande parte do que sou hoje como médica e como ser humano.

(Entrevista cedida à Agência Madalena de notícias. Jornalista responsável: Nilza Zacarias Nascimento)